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Universidade de Coimbra Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação CIÊNCIAS SOCIAIS Docente: Prof. Doutor José Manuel Canavarro.

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1 Universidade de Coimbra Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação CIÊNCIAS SOCIAIS Docente: Prof. Doutor José Manuel Canavarro

2 Introdução às Ciências Sociais A RUPTURA COM O SENSO COMUM NAS CIÊNCIAS SOCIAIS Durkheim teorizou a legitimação da análise científica dos factos sociais. O homem – segundo este autor – não pode viver no meio das coisas sem delas fazer ideias segundo as quais regula o seu comportamento. Cumpre ao cientista, definindo rigorosamente os seus conceitos, submetendo as suas hipóteses à comprovação empírica, contrariar as interpretações vulgares.

3 Introdução às Ciências Sociais A RUPTURA COM O SENSO COMUM NAS CIÊNCIAS SOCIAIS De acordo com Bachelard, as disciplinas sociais são essencialmente permeáveis às interpretações do senso comum, até porque a realidade social surge, aos olhos da maioria das pessoas, como mais facilmente explicável do que o universo físico.

4 Introdução às Ciências Sociais NATUREZA E CULTURA O Naturalismo [interpretação e explicação dos factos sociais invocando causas de ordem metassocial] Dois Tipos: Biologismo [ou Reducionismo Biológico] Efeito de Naturalização dos Factos Sociais

5 Introdução às Ciências Sociais Como explicar a persistência de explicações naturalistas? Alguns factores contribuitivos: 1. A emergência da Sociobiologia; 2. O Paradigma Positivista ainda forte nas ciências sociais; 3. Algumas ideologias (darwinismo social, por exemplo) que funcionam como suporte de correntes sociológicas e económicas.

6 Introdução às Ciências Sociais INDIVÍDUOS E SOCIEDADE O Individualismo No século XIX, o individualismo foi utilizado como bandeira e arma doutrinária para a implantação do sistema económico e político liberal. A ideia de que a sociedade é um agregado de indivíduos singulares e de que a prossecução dos seus interesse por parte de cada um deles serve de melhor garantia para a harmonia colectiva, funcionou como postulado central para a ideologia liberal. Formas de individualismo extremo conduzem no limite à contestação da própria existência das ciências sociais.

7 Introdução às Ciências Sociais Princípios orientadores do Individualismo 1.Há certamente regularidades observáveis à escala supra- individual – mas elas são homólogas às observáveis à escala individual; a explicação sociológica ou económica deve ser, pois, obtida através da extrapolação de atributos individuais ou, pelo menos, tomando-os por base de fundamentação. 2. Por consequência, as regularidades que caracterizam a colectividade (e a que cada agente está, na verdade, de algum modo sujeito) representam o produto combinado das acções individuais e das interacções – únicos vectores dinâmicos admitidos.

8 Introdução às Ciências Sociais Princípios orientadores do Individualismo 3. De entre essas acções, importa salientar as dos líderes (dos sujeitos que, por natureza psicológica ou por posição no grupo, conduzem os movimentos colectivos) e as dos ideólogos que motivam e fomentam aspirações e expectativas nos indivíduos em geral. 4. Tudo isto implica que as explicações científico-sociais, seguramente válidas, teriam contudo um alcance limitado: porque deveriam conformar-se às leis psicológicas; porque não seriam deterministas; porque um certo número de características relevantes da condição humana, independentes do contexto social, lhe escapariam.

9 Introdução às Ciências Sociais Para Santos Silva (1986), a análise social seja histórica, antropológica, geográfica, psicológica, económica, linguística, sociológica, estética, etc. - não é pura nem automaticamente a análise dos factos colectivos. Não se deve pois abordar o indivíduo independentemente do supra-individual (tentação do psicologismo) ou a sociedade omitindo a acção intencional dos sujeitos (risco do sociologismo). Nas palavras de Pierre Bourdieu (1980), a sociedade existe sob duas formas inseparáveis: de um lado as instituições que podem revestir a forma de coisas físicas, monumentos, livros, instrumentos, etc.; do outro, as disposições adquiridas, as maneiras duradouras de ser ou de fazer que encarnam nos corpos.

10 Introdução às Ciências Sociais De acordo com Giddens (1977), a sociologia estuda as formas de produção e reprodução da sociedade, que é o resultado complexo da acção activa dos membros da sociedade. As estruturas sociais surgem como consequência e condição da produção da interacção. A propósito da relação entre sociologia e psicologia, convirá referir que Durkheim se colocou numa postura radicalmente anti- psicologista como forma de afirmação das suas ideias. Desde Durkheim que a polémica de instalou de forma vincada. De um lado, os que sustentam que as ciências sociais devem partir das regularidades verificáveis pelo estudo dos processos intra e inter-individuais. Do outro, os que defendem que tais regularidades só podem ser apercebidas pela análise dos factos e instituições sociais, porque nestes se concentram as causas determinantes dos comportamentos pessoais.

11 Introdução às Ciências Sociais O cruzamento Sociologia-Psicologia promove, de acordo com Santos Silva (1986), uma ciência social designada por Psicologia Social. Esta ciência social movimenta-se em quatro níveis teóricos: 1.intra-individual (estudo do modo como o indivíduo estrutura a sua experiência do mundo social); 2.inter-individual e situacional (estudo dos processos que se desenrolam entre indivíduos); 3.posicional (tem em consideração as diferenças de estatutos e posições sociais); 4. ideológico (integra a análise das representações, crenças, valores e normas colectivos).

12 Introdução às Ciências Sociais NÓS E OS OUTROS O etnocentrismo designa duas atitudes intimamente relacionadas: a sobrevalorização do grupo e da cultura a que pertencem os sujeitos; a correlativa depreciação das culturas e das organizações sociais diferentes. Na suas formas mais extremas, o etnocentrismo revela-se no racismo, no fanatismo religioso, no genocídio tribal. A propensão para o etnocentrismo constitui, ao nível do senso comum, um factor de identificação do grupo, do nós, um vector de legitimação da dominação, um instrumento decisivo da luta simbólica entre os grupos.

13 Introdução às Ciências Sociais NÓS E OS OUTROS O anacronismo – a análise duma época projectando nela os quadros mentais da nossa, aplicando os nossos conceitos sem curar de testar a sua adequação à especificidade (temporal) da sociedade que estudamos. Sem dúvida que a história e a antropologia forma das ciências sociais mais permeáveis ao etnocentrismo. Mas, foram também estas ciências que permitiram ultrapassar perspectivas teóricas demasiado globais.

14 Introdução às Ciências Sociais CONDIÇÕES DE RUPTURA COM O SENSO COMUM A razão de ser dos factos sociais deve ser procurada em outros factos sociais. Em ciências sociais, para além da procura da explicação dos factos noutros factos (o insucesso escolar explicado por questões familiares, por exemplo), deve-se verificar a validade das nossas explicações ou análises pelo confronto destas com informação empírica (demonstrando a falência das explicações comuns ou ideológicas); manter uma atitude problematizadora, relativizar os fenómenos humanos (invalidando os pressupostos naturalistas e etnocentristas); por último, a investigação social empírica pode tornar as concepções do senso comum e ideológicas objectos da sua própria análise.


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