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Noções básicas sobre a Bíblia Escola de Dirigentes do M.C.C. Formação Básica da Fé (III) 1ª PARTE «A quem iremos nós, Senhor? Tu tens palavras de vida.

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1 Noções básicas sobre a Bíblia Escola de Dirigentes do M.C.C. Formação Básica da Fé (III) 1ª PARTE «A quem iremos nós, Senhor? Tu tens palavras de vida eterna!» (Jo 6, 68)

2 Formação Básica da Fé - III Noções básicas sobre a Bíblia – 1ª parte Sumário: 1. Generalidades sobre a Bíblia 2.Inspiração, Verdade e inerrância 3. O cânone da Bíblia 4. Os géneros literários 5. A Interpretação e leitura da Bíblia 6. Bibliografia recomendada

3 1. Generalidades sobre a Bíblia

4 1 – Generalidades sobre a Bíblia A BÍBLIA: UM «ÁLBUM DE FOTOGRAFIAS DE FAMÍLIA» A BÍBLIA: UM «ÁLBUM DE FOTOGRAFIAS DE FAMÍLIA»: Na Bíblia temos a história de um povo que lentamente foi descobrindo o seu Deus (a própria Bíblia não caiu do céu, mas demorou muito a ser escrita!). Mais tarde, os cristãos descobrem, pouco a pouco, quem é Jesus. Nela não está tudo como num manual de verdades, mas é como um «álbum de fotografias»… SÓ MAIS TARDE É QUE SE COMPREENDE SÓ MAIS TARDE É QUE SE COMPREENDE: Muitas vezes um sentido de um acontecimento só é revelado mais tarde, só se percebe mais tarde: acontecimentos dispersos vão-se reunindo, recebem um sentido no global. Na Bíblia não interessam muito os acontecimentos em si, não é uma «reportagem em directo»: mas diz-nos o que se descobriu mais tarde sobre esses acontecimentos. O essencial é descobrir Deus por detrás dos acontecimentos. A BÍBLIA É O LIVRO DA ALIANÇA A BÍBLIA É O LIVRO DA ALIANÇA: é o Livro de Amor que narra o encontro entre duas liberdades, Deus e o Homem, sendo que a iniciativa é de Deus, que faz com o Homem uma Aliança, renovada ao longo dos tempos e perpassa toda a História da Salvação. Mas o centro da Aliança é JESUS CRISTO: a Nova e definitiva Aliança, tudo aponta para Ele! O que é a Bíblia (I)?

5 1 – Generalidades sobre a Bíblia « É um determinado conjunto de escritos, judeus e cristãos, de finalidade religiosa, compostos por diversos autores em diferentes géneros literários ao longo de mais de mil anos e que tiveram, sobretudo a partir do cristianismo, uma influência decisiva na chamada civilização ocidental». A. Calvo /A. Ruiz, Para conhecer a Cristologia «É um conjunto de livros, escritos por inspiração de Deus, através dos quais Deus Se revela a Si mesmo e nos revela o Seu projecto de amor e salvação acerca do homem e da humanidade». Américo Veiga, Por que sou cristão? O que é a Bíblia (II)?

6 1- Generalidades Sobre a Bíblia A Bíblia é um livro importante? (I) A Bíblia é um livro de recordes! Primeiro livro a ser impresso: Bíblia de Gutenberg, Livro mais caro em leilão: exemplar da Bíblia de Gutenberg alcançou em 1978 o valor de ,00 (cerca de 250 mil contos). Livro mais vendido: entre 1815 e 1975 foram vendidos cerca de de exemplares! Livro mais traduzido: em 1800 línguas e dialectos diferentes; porém, há ainda duzentos milhões de pessoas que não têm acesso à Bíblia na sua própria língua. Livro mais documentado da Antiguidade: existem cerca de manuscritos antigos do Novo Testamento originários dos primeiros séculos.

7 1 – Generalidades sobre a Bíblia Com tantos livros interessantes para ler e estudar, por que será importante ler a Bíblia? A Bíblia é um livro importante? (II) A sua importância deriva de duas razões fundamentais: RAZÃO CULTURAL : documento indispensável para compreender a raiz da cultura, do desenvolvimento, da história de grande número de países, influenciando a moral, a arte, política, economia, festas, alimentação, etc. Por isso se chama à civilização ocidental de civilização cristã. RAZÃO RELIGIOSA: mais de 1/3 da humanidade actual (cristãos e judeus) vê na Bíblia um conjunto de livros que de alguma maneira contem a «palavra de Deus»; e por isso a veneram, lêem e estudam, e tiram ensinamentos para a vida. É um livro de fé feito por homens de fé para homens de fé.

8 1 – Generalidades sobre a Bíblia O que significa a palavra «Bíblia»? BIBLION = «livrinho» (diminutivo de biblos); BIBLÍA = «livrinhos» (plural de biblion). Com a evolução do grego, perdem o valor diminutivo em favor do normal. TA BIBLÍA = «livros» (e não «livrinhos»). BÍBLIA = «O LIVROS» Ao passar pelo latim clássico torna-se nome singular feminino e assim passa para as nossas línguas: BIBLE em francês, BIBBIA em italiano, BIBEL em alemão, BÍBLIA em português… BÍBLIA = «O LIVROS». De facto, mais do que um livro é uma biblioteca. Castelo dos Cruzados em Biblos BÍBLIA «LIVROS» BÍBLIA= deriva da expressão grega (grego comum ou koiné) tà Biblìa = «LIVROS». BIBLOS BIBLOS (Βιβλος) = nome de uma cidade portuária na Fenícia (actual Líbano). Diz-se que foi aí onde se coseram pela primeira vez folhas de um papel de papiro especial preparado para a escrita, importado do Egipto, transformado e daí exportado para todo o Império. Esse papiro toma o nome da cidade = BIBLOS.

9 «A Escritura» (graphê), «Escrituras», «Sagrada Escritura», «Sagradas Escrituras», nomes utilizados a princípio pelos judeus palestinianos, menos familiarizados com o grego e que usavam rolos de papiro ou pergaminho (por vezes com 7 metros de comprimento). «O Livro», «O Livro dos Livros», «O Livro Sagrado», etc. Quando é que a Bíblia se começou a chamar «Bíblia?» 1 – Generalidades sobre a Bíblia Que outros nomes tem a Bíblia? Os vocábulos biblia e biblion aparecem na Bíblia (em grego), mas nunca referente à própria Bíblia (exemplo: Jo 21, 25; II Tim 4, 13, etc). O primeiro documento que trata a colectânea das Sagradas Escrituras pelo nome «Bíblia» é uma carta redigida por volta do ano 150, por mão de Clemente de Alexandria, um dos primeiros Padres da Igreja.

10 Mais que um livro, a Bíblia é uma biblioteca NÃO. Mais que um livro, a Bíblia é uma biblioteca. Actualmente a Bíblia edita-se em regra num só volume, mas não é um só livro, é um conjunto de livros reunidos numa mesma encadernação. O motivo que justifica esta união é a própria fé que impregna toda a obra, mas do ponto de vista da estrutura literária, da colocação histórica, dos conteúdos teológicos, apresenta-se variada, múltipla, desigual. 1 – Generalidades sobre a Bíblia A Bíblia é um livro?

11 NÃO propriamente, pois importa distinguir, entre outras coisas: 1 – Generalidades sobre a Bíblia As Bíblias são todas iguais? 1º A Bíblia cristã da Bíblia hebraica…. 2º Dentro das Bíblias cristãs, a Bíblia Católica das Bíblias dos protestantes e o caso concreto das Bíblias inter- confessionais… 3º Outras Bíblias, que carecem de seriedade na Tradução e revestem-se de adequação do conteúdo da Palavra às suas doutrinas próprias… 4º E ainda as pequenas diferenças de tradução que existem de Tradução para Tradução, sem conteúdo deturpar o sentido da Mensagem. Ao longo do tema, iremos constatar as diferenças em particular.

12 1º Em duas grandes partes: ANTIGO TESTAMENTO NOVO TESTAMENTO 1 – Generalidades sobre a Bíblia Como se dividem as Bíblias? (I) «TESTAMENTO»= «ALIANÇA»: não tem aqui o sentido que é tradicional na nossa língua; é um decalque da palavra latina testamentum que traduz a palavra hebraica berît e o grego diathéke, que pode significar «pacto», «aliança» ou «testamento». Assim, Antigo Testamento = Antiga Aliança e Novo Testamento = Nova Aliança. «ANTIGO TESTAMENTO»: compreende os escritos sagrados dos judeus, anteriores a Cristo. «NOVO TESTAMENTO»: compreende aquilo que foi redigido pelos primeiros cristãos, após a morte de Jesus. A Bíblia hebraica consta apenas da parte correspondente ao Antigo Testamento, já que rejeitam Cristo como o Messias e logo todo o Novo Testamento.

13 2º Depois em LIVROS… 1 – Generalidades sobre a Bíblia Como se dividem as Bíblias? (II) ANTIGO TESTAMENTO NOVO TESTAMENTO: BÍBLIA BÍBLIA HEBRAICA BÍBLIA PROTESTANTE BÍBLIA CATÓLICA 3º Depois em CAPÍTULOS E VERSÍCULOS… Considerando o nosso sistema de contagem…

14 1 – Generalidades sobre a Bíblia Como se classificam os Livros da Bíblia? (I) Tradicionalmente, os Livros podem ser agrupados em vários conjuntos: 24 livros no AT (ou 22) = 39 livros dos protestantes. Divide-se em três partes: a) a Lei, TORA ou Instrução (corresponde ao nosso Pentateuco); inclui os cinco primeiros livros: Génesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronómio. b) Os PROFETAS (Nebiim), divididos em dois grupos: primeiros profetas ou anteriores (os livros históricos, de Josué aos livros dos Reis); e segundos profetas ou posteriores (os nossos livros proféticos); c) Os ESCRITOS (Ketubim): os restantes livros; são os 13 escritos hebraicos (dos Salmos às Crónicas, dos quais faz parte os cinco rolos ou Megilloth – Rute, Cântico dos Cânticos, Eclesiastes, Lamentações e Ester, que se liam inteiros nas principais festas judaicas). Com as primeiras letras de cada um destes títulos (Tora, Nebiim e Ketubim), formam a palavra TANAK, que para os judeus designa a Bíblia. BÍBLIA HEBRAICA

15 1 – Generalidades sobre a Bíblia Como se classificam os Livros da Bíblia? (II) Aceita a Bíblia hebraica, ampliando a História da Salvação com os textos do Novo testamento. Há uma pequena diferença entre o número de livros aceites pelos católicos e pelos protestantes, como veremos. BÍBLIA CRISTÃ Costumam dividir-se em: NO ANTIGO TESTAMENTO NO ANTIGO TESTAMENTO: PENTATEUCO: a expressão deriva do grego e significa «cinco rolos»; corresponde à Torá da Bíblia hebraica; por vezes o Pentateuco é englobado nos Livros Históricos; LIVROS HISTÓRICOS: correspondem aos profetas anteriores da Bíblia hebraica, com várias adições na Bíblia Católica; LIVROS DIDÁCTICOS (ou SAPIENCIAIS): correspondem aos livros de Job, Salmos, Provérbios, Coélet, Cântico dos Cânticos, Sabedoria e Bem Sirá (ou Eclesiástico); LIVROS PROFÉTICOS: correspondem aos profetas posteriores da Bíblia hebraica, com algumas adições na Bíblia Católica.

16 NO NOVO TESTAMENTO: EVANGELHOS E ACTOS (formando estes um todo com o Evangelho de Lucas); CARTAS (ou «Epístolas») PAULINAS (13) E CARTA AOS HEBREUS, que, por tradição, está ligada ao chamado corpus paulinum. CARTAS CATÓLICAS (7): designam-se assim por não trem sido endereçadas a qualquer indivíduo ou comunidade em particular, mas a todos os fiéis. APOCALIPSE. 1 – Generalidades sobre a Bíblia Como se classificam os Livros da Bíblia? (III) De notar que, com algum esforço da nossa parte, os Livros do Novo testamento também podem ser classificados como os do Antigo Testamento: Livros Históricos (Evangelhos e Actos), Sapienciais ou Didáctivos (Cartas paulinas, aos Hebreus e Católicas) e Proféticos (Apocalipse). Vejamos um quadro-resumo:

17 1 – Generalidades sobre a Bíblia Como se classificam os Livros da Bíblia? (IV)

18 1 – Generalidades sobre a Bíblia Como se classificam os Livros da Bíblia? (V)

19 INÚMEROS AUTORES HUMANOS INÚMEROS AUTORES HUMANOS: 73 livros… Escritos ao longo de mais de 1000 anos… Com linguagem muito diferentes uns dos outros… Com uma cultura semítica que desconhecia a propriedade intelectual, os direitos de autor, sendo os livros retocados e actualizados constantemente; ou então atribuídos a um personagem famoso nesse género literário… Com autores de diversas condições sociais e de cultura diferentes… 1 – Generalidades sobre a Bíblia Quem escreveu a Bíblia? Não é possível identificar com certeza absoluta nenhum autor, mas devemos aceitar os nomes dos autores que, tradicionalmente são apontados: por exemplo, Moisés para o Pentateuco, embora hoje saibamos que é fruto de inúmeras tradições; isto prende-se com a «AUTENTICIDADE» do livro, saber se um livro foi realmente foi escrito pelo autor ao qual é atribuído. DEUS, AUTOR DIVINO DEUS, AUTOR DIVINO: veremos que Deus é o Autor divino, o Autor principal.

20 A sua escrita demorou mais de 1000 anos (cerca de 11 séculos), começando por volta de cerca de 950 a.C, no Reinado do Rei Salomão, pois foi aí que se começaram a reunir as condições para a escrita; e terminando no livro do Apocalipse, por volta do ano 100 d.C. É bem difícil saber quando se começou a escrever, pois as partes mais antigas, antes de serem escritas, forma narradas e contadas oralmente no Povo de Israel. Os povos antigos costumavam repetir de memória nas suas reuniões e celebrações longas recitações sobre acontecimentos passados ou histórias poéticas; e antes de recitadas foram vividas por muitas gerações, que se esforçaram por ser fiéis a Deus e organizar a sua vida de acordo com a justiça. Como hoje se aprende as letras das canções, assim eles aprendiam as histórias, as leis, as profecias, os salmos, os provérbios e muitas outras coisas, que depois foram escritas na Bíblia. 1 – Generalidades sobre a Bíblia Quando foi escrita a Bíblia?

21 1 – Generalidades sobre a Bíblia Onde foi escrita a Bíblia? Não foi escrita num só lugar, mas em muitos lugares diferentes. Os costumes, a cultura, a religião, a situação económica, social e política de todos esses povos influenciaram na forma como a Bíblia apresenta a Mensagem de Deus aos homens. ANTIGO TESTAMENTO: ANTIGO TESTAMENTO: A maior parte foi escrita na Palestina, terra do Povo de Deus, onde Jesus viveu e onde nasceu a Igreja. Algumas partes foram escritas na Babilónia, onde o povo esteve desterrado no século VI a.C. Outras partes foram escritas no Egipto, par onde emigrou muita gente após o Cativeiro. NOVO TESTAMENTO: NOVO TESTAMENTO: Algumas partes foram escritas na Síria e Ásia Menor (actual Turquia), na Grécia e em Itália, onde existiam as comunidades fundadas e visitadas por S. Paulo. EGIPTO PALESTINA BABILÓNIA ÁSIA MENOR GRÉCIA

22 A Bíblia foi escrita por diversos autores com diferentes mentalidades, culturas e estilos; e também em línguas diferentes, conforme a língua falada pelo povo ao qual Deus Se dirigia mais imediatamente. São três as línguas em que a Bíblia foi escrita: o hebraico, o aramaico e o grego comum (koiné). O Antigo Testamento foi quase todo escrito em hebraico, exceptuando alguns capítulos em aramaico (Esd 4, ; Dan 2, ) e vários livros em grego (Sab e 2 Mac). Os do Novo Testamento estão em grego comum (koiné), embora, apareçam por vezes traduções do aramaico. Crê-se que o Evangelho de São Mateus teria sido escrito primeiro em aramaico. 1 – Generalidades sobre a Bíblia Em que língua foi escrita a Bíblia? (I) Os textos originais da Bíblia reflectem três horizontes culturais muito diferentes:

23 1 – Generalidades sobre a Bíblia Em que língua foi escrita a Bíblia? (II) O HEBRAICO. Pertence à família das línguas semíticas; foi suplantada pelo aramaico por volta do séc. VI a.C., embora continuasse a ser utilizada no culto. O alfabeto consta de 22 consoantes, é grafada com escrita quadrada, da direita para a esquerda; por volta do séc. VII, uns gramáticos judeus, os massoretas, fixaram o sentido do texto, juntando as vogais em forma de pontos debaixo ou em cima das consoantes; a pronúncia que nos deixaram é pouco segura: a mais correcta é as consoantes da Bíblia hebraica e as vogais da tradução grega dos LXX. Por isso, o texto hebraico da Bíblia chama-se de «massorético». O ARAMAICO: já se usava no séc. VIII a.C. como língua internacional da Assíria; foi suplantando o hebraico como língua falada; Jesus falava aramaico e os Evangelhos também referem algumas expressões suas nesta língua. O GREGO: o grego do NT é diferente do grego clássico; aproxima-se mais da língua falada, designada por koiné (ou comum); contém muitas construções de carácter semítico. «Abbá, Pai, tudo te é possível; afasta de mim este cálice! Mas não se faça o que Eu quero, e sim o que Tu queres.» (Mc 14, 36)

24 1 – Generalidades sobre a Bíblia Quais são as cópias manuscritas mais importantes que existem d a Bíblia? Já que os originais (autógrafos) estão perdidos, reconstrói-se o texto primitivo através de cópias que chegaram até nós. Do Antigo Testamento: os documentos mais antigos do AT provém das descobertas de Qumram, ao Norte do Mar Morte, desde Até aí os manuscritos hebraicos na nossa posse eram o Códice de Alepo (ano 980) e o códice de Leninegrado ( ). As descobertas de Qumram permitiram recuar até ao séc. II a.C., colocando à disposição testemunhos sobre todos os livros do AT (excepto o de Ester). Do Novo Testamento: os códices maiúsculos (escritos em pergaminho), por exemplo, Codex Sinaiticus, Codex vaticanus (cerca de 360), Alexandrino, etc. e papiros: papiro Chester Beaty (P45, 46, 47) de 260; os Bodmer (P 66, 75) (ano 170) e o John Rylands (P52) é do ano 125, o 7Q5 (Mc 6, 12 e 53), com 20 letras é do ano 50, etc. As cópias eram feitas em papiro ( obtém-se de um caule de um arbusto) ou pergaminho (da pele de animal, é mais resistente). O codex (livro) é adoptado pelos cristãos de preferência ao rolo de pergaminho utilizado pelos judeus para as Escrituras Santas. Mais tarde (a partir do séc. XII) difunde-se o papel.

25 A mais notável é a VERSÃO DOS SETENTA (LXX); (à volta de 250 a.C.), muito usado pelos judeus da Diáspora e pelos primeiros cristãos; segundo a lenda 70 tradutores (ou 72) trabalhando separadamente, chegaram à mesmíssima tradução, o que provaria a sua inspiração; outras traduções gregas: a de Áquila, de Símaco, de Teodocião. Outras traduções são a síriaca, a copta e a latina (na península Ibérica usou-se nos sécs. II-IV uma tradução latina própria, a Vetus latina Hispana); depois, a VULGATA de São Jerónimo (cerca de 384) chegou rapidamente à península, através de uns andaluzes; dela derivam os livros litúrgicos. A primeira Bíblia traduzida para português foi a do protestante João Ferreira de Almeida, no séc. XVII. Actualmente, estão publicadas Bíblias em cerca de 2000 idiomas. 1 – Generalidades sobre a Bíblia Quais são as traduções mais importantes da Bíblia?

26 1 – Generalidades sobre a Bíblia Tudo o que está escrito na Bíblia faz parte do texto original? NÃO! Não fazem parte do texto original: OS TÍTULOS DOS LIVROS OS TÍTULOS DOS LIVROS: o nome com que tradicionalmente os livros são designados (Génesis, Êxodo, etc.) não é original, mas foi dado muito depois, aludindo ao que se pensava ser o seu conteúdo. Os judeus titulavam os livros pelas primeiras palavras com que começavam. Há livros que têm vários títulos (ex: Paralipómenos ou Crónicas, I Samuel ou I dos Reis, etc). OUTROS TÍTULOS (PERÍCOPES): OUTROS TÍTULOS (PERÍCOPES): aparecem ao longo do texto, em caracteres negros, procuram dar ao leitor um a ideia geral do que vai ler, e são da responsabilidade dos tradutores; não devem ser lidos ao proclamar a Palavra em público. INTRODUÇÕES, NOTAS E PARALELOS INTRODUÇÕES, NOTAS E PARALELOS: anotações várias que ajudam os leitores; as notas de rodapé são esclarecimentos, uma vezes de carácter doutrinal, outras de carácter histórico ou linguístico; também aparecem à margem ou nas notas de rodapé os «lugares paralelos», isto é, as citações da Bíblia que falam do mesmo tema. As Bíblias protestantes não têm, normalmente notas de rodapé, salvo as luteranas. OS CAPÍTULOS E OS VERSÍCULOS OS CAPÍTULOS E OS VERSÍCULOS: como veremos a seguir.

27 1 – Generalidades sobre a Bíblia Quem dividiu a Bíblia em capítulos e versículos (I)? Nos antigos manuscritos, a Bíblia apresenta-se em escrita contínua, sem espaçamentos, e frequentemente só em caracteres maiúsculos. Para encontrar facilmente uma citação, criou-se o sistema de referências bíblicas, através da divisão em capítulos e versículos. Antecedentes desta divisão: Temos o ensaio judeu: dividiram a Lei e os profetas para lerem nas celebrações litúrgicas; dividiram a Lei em 54 secções (tantas quantas as semanas do ano), as "perashiyyot" (= divisões). Os profetas não foram divididos inteiros em "perashiyyot", como a Lei, mas seleccionaram-se 54 trechos deles, os chamados "haftarot" (= despedidas), porque com a sua leitura se encerrava nas funções litúrgicas a leitura da Bíblia. Em Lc 4, 16-19, Jesus foi convidado a ler a haftarot (despedida) e leu um trecho de Isaías 61; Quanto ao ensaio cristão: Chegaram até nós alguns manuscritos antigos, do século V, onde aparecem as primeiras tentativas de divisão bíblica. Por isso, sabemos, por exemplo, que naquela antiga classificação, Mateus tinha 68 capítulos, Marcos tinha 48, Lucas, 83 e João contava 18 capítulos.

28 1 – Generalidades sobre a Bíblia Quem dividiu a Bíblia em capítulos e versículos (II)? DIVISÃO EM CAPÍTULOS: Em 1226 Étienne Langton (ou Estêvão Langton) teve a ideia de dividir cada livro em capítulos numerados, antes de ser sagrado bispo (futuro arcebispo de Canterbury, em Inglaterra), enquanto desempenhava as funções de professor em Sorbona, em Paris. Esta divisão, foi usada, pela primeira vez na «Bible de Paris». O êxito deste sistema foi enorme, e foi usado até pelos judeus. DIVISÃO EM VERSÍCULOS: À medida que o estudo da Bíblia ganhava em precisão e minúcia, revelou-se esta divisão insuficiente: é assim que o dominicano italiano Santos Pagnino, publicou em 1528, em Lyon uma bíblia toda subdividida em frases mais pequenas. Contudo, não lhe corresponderia a ele a glória de ser o autor do nosso actual sistema de classificação de versículos, mas a Roberto Stefano (ou Estienne), um editor (ou impressor) protestante. Aceitou a divisão de Pagnino do AT com pequenos retoques (curiosamente Pagnino não subdividira os 7 deuterocanónicos: teve Estienne que o fazer!); para o NT fez uma nova numeração. Esta divisão foi feita numa viagem em diligência de Lyon a Paris, notando-se por isso que foi feita de uma forma arbitrária. Finalmente o Papa Clemente VIII mandou publicar uma nova versão da Bíblia em latim para uso oficial da Igreja, pois o texto anterior de tanto ser copiado à mão tinha sido deformado. A obra viu a luz a 9 de Novembro de 1592 e foi a primeira edição da Igreja Católica que apareceu com a já definitiva divisão de capítulos e versículos.

29 Além de capítulos e versículos, cada livro está designado por uma abreviatura. Estas tendem a ser cada vez mais simples: Rom para Rm, Tgo para Tg, etc. No índice das bíblias encontra-se a lista. É quase uniforme em todas as bíblias; o Eclesiástico (Ecli) é também chamado de Siracida (Sir) ou Ben Sira (o seu autor); o Eclesiastes (Ecl ou Ec) é também chamado de Qoheleth (Qo). Só a Carta a Filémon, 1ª e 2ª Cartas de São João e a Carta de São Judas é que apenas têm um capítulo. A numeração dos Salmos não é idêntica na Bíblia hebraica e na Bíblia grega, esta seguida pela Bíblia latina e pelos livros litúrgicos católicos. Usa-se, habitualmente, a numeração hebraica, colocando entre parêntesis a do latim. (Exemplo: Salmo 104(103)). O sistema tem vindo a generalizar-se. No entanto, tem certos escolhos: não nos devemos ater aos capítulos e versículos se quisermos apreender o sentido do texto. Exemplos de escolhos: Sab 2; Dan 6, etc. Mas ajuda-nos a conhecer a Bíblia até às minúcias: por exemplo: tem 1328 capítulos e versículos; as palavras no texto original somam e tem letras, etc., etc. 1 – Generalidades sobre a Bíblia Como indicar uma referência bíblica (I)?

30 O primeiro que se indica é a abreviatura do livro. Em seguida, o primeiro número corresponde ao capítulo (aos nºs grandes na Bíblia) e o segundo - separados por uma vírgula - ao versículo (aos nºs pequenos na Bíblia). Por exemplo, Gn 2, 5 significa Livro de Génesis, capítulo 2, versículo 5. O hífen serve para unir vários capítulos ou versículos. Indica «desde... até... inclusive». Gn 2-5 significa Génesis, capítulos 2 ao 5 (inclusive); Gn 2, 4-8 significa Génesis, capítulo 2, versículos do 4 ao 8 (inclusive). Com o ponto e vírgula separam-se duas referências diferentes: Gn 2; 5 significa Génesis, capítulos 2 e 5. O ponto separa dois versículos diferentes do mesmo capítulo: Gn 2, remete aos versículos 4, 8 e 11 do capítulo 2 do Génesis. O «s» acrescentado a um número significa «e seguinte»: Gn 2, 4s indica que deve-se ler o versículo 4 e o seguinte, isto é, o 5. Se são acrescentados dois «s», deve-se ler alguns dos versículos que se seguem ao citado, isto é, «os seguintes». Gen 2, 4ss significa que se devem ler alguns versículos a partir do número 4 do capítulo 2 do Génesis. 1 – Generalidades sobre a Bíblia Como indicar uma referência bíblica (I)?

31 1 – Generalidades sobre a Bíblia A ordem dos livros da Bíblia é a ordem pela qual foram escritas os mesmos? NÃO: A ordem actual dos livros na bíblia (ordem canónica) não corresponde à ordem histórica, isto é, nem os primeiros são precisamente os mais antigos, nem os últimos mais recentes. Como biblioteca que é, a Bíblia tem várias possibilidades de ordenação dos livros. Por tamanho, como as cartas de Paulo que estão dispostas segundo a extensão, em ordem decrescente; por temas, por exemplo, os Profetas ou as Cartas de Paulo; podemos colocar juntos os que constituem autoridade, e depois os outros (assim, as Bíblias ecuménicas e certas edições protestantes colocam no final do Antigo Testamento os Livros «deuterocanónicos»). No séc. XIII os livros do AT foram colocados nos três blocos que vimos: históricos, didácticos e proféticos. A ordem dos livros proféticos na Bíblia cristã foi invertida relativamente à Bíblia hebraica (Tora, Profetas e Escritos): isto para vincar mais a ponte entre o AT e o NT. Os primeiros livros são: AT - os da época do Rei Salomão (quando se começam a reunir as condições para a escrita), cerca de 950 a.C., por exemplo I e II Samuel, I e II Reis, Salmos, etc; o último do AT é o da Sabedoria, por volta de 50 a.C. O primeiro do NT é a 1ª Tes, por volta de 51; e o último do NT é o Apocalipse (cerca do ano 100 d.C)

32 2. Inspiração, Verdade e inerrância

33 2 – Inspiração, Verdade e Inerrância 2 – Inspiração, Verdade e Inerrância DEUS É O AUTOR PRINCIPAL DE DEUS: A Bíblia é um livro escrito por iniciativa divina; foi Deus que iluminou a inteligência e moveu a vontade dos autores sagrados (hagiógrafos), para escreverem com exactidão a verdade religiosa que Ele desejava ensinar-nos a respeito de Si e da nossa salvação. A Bíblia é o livro de Deus: é uma espécie de carta ou mensagem dirigida com amor a cada um de nós da parte de Deus. MAS A BÍBLIA É TAMBÉM O LIVRO DOS HOMENS: foram os homens que escreveram a Bíblia, sob a inspiração de Deus. E fizeram-no limitados a condicionalismos vários: de estilo, de cultura (semita, oriental), de mentalidade, de espaço, de tempo, de raça, etc; por outro lado, servem-se de géneros literários diferentes, como veremos. Assim, os homens são também verdadeiros autores, que escrevem o seu «suor na fronte». A BÍBLIA É PALAVRA DE DEUS NA LÍNGUA DOS HOMENS Quem é o Autor principal da Bíblia?

34 2 – Inspiração, Verdade e Inerrância 2 – Inspiração, Verdade e Inerrância É um influxo ou auxílio sobrenatural por meio do qual Deus iluminou os autores sagrados para que escrevessem o que Ele queria revelar e não se enganassem na transmissão da mensagem religiosa ou de fé que Ele queria comunicar aos homens. Ao longo dos tempos, esta noção não foi estável: 1º Como ditado 2º Como transmissão da Palavra de Deus 3º Como inspiração DOMENICO GUIRLANDAIO – Florença, 1449 CARAVAGGIO, 1602 REMBRANDT – Holanda, 1664 O que é a «Inspiração?»

35 De que ordem são as Verdades contidas na Bíblia? 2 – Inspiração, Verdade e Inerrância 2 – Inspiração, Verdade e Inerrância O que a Bíblia nos transmite é a Verdade; esta Verdade deriva de dois princípios: Deus é o Autor principal da Bíblia e Ele não pode enganar-Se nem enganar-nos, pois « a Escritura não se pode pôr em dúvida» (Jo 10, 35). O que interessa na Bíblia não é tanto as histórias, mas a verdade de fé que se pretende ensinar; o que interessa é apercebermo-nos do que Deus nos quis revelar; são estas verdades (muitas vezes sob muita roupagem literária e outras) que são inspiradas por Deus e por isso não podem conter erros; antes falava-se em «inerrância», isto é, dizia-se que se Deus é autor, então não pode haver erros de espécie (porque Ele não Se pode enganar!) alguma inclusive os científicos; o facto é que a Bíblia contem vários erros: ela ensina-nos a «verdade», em ordem à nossa salvação; não existe para ser um livro de ciência, de história, um tratado de moral, ou para satisfazer as nossas curiosidades..

36 2 – Inspiração, Verdade e Inerrância 2 – Inspiração, Verdade e Inerrância ERRADO! Nela não há erros em relação à fé, mas pode haver (e há) erros científicos, ou de outra ordem, ou imperfeições, por exemplo… Então, se Deus é o Autor da Bíblia então não pode haver erros na Bíblia. Certo (I)? ERROS CIENTÍFICOS: descrevem-se fenómenos de natureza mítica e relatos que contradizem as leis naturais (por ex.: Jos 10, 12 e o caso Galileu)… «Sol, detém-te sobre Gabaon!...E o sol deteve-se» (Js 10, 12). Mas a Bíblia não é um livro de ciência; ela ensina «como se vai para o céu e não como funciona o céu» (Galileu). ERROS HISTÓRICOS: contem inexactidões ao contar factos do passado; contradiz-se em alguns factos nela própria.. Mas a Bíblia não é um livro de História; os escritores escrevem conforme o que sabem na época; deve-se ter em conta os géneros literários (por exemplo, o épico engrandece os factos).

37 2 – Inspiração, Verdade e Inerrância 2 – Inspiração, Verdade e Inerrância Então, se Deus é o Autor da Bíblia então não pode haver erros na Bíblia. Certo (II)? ERROS E IMPERFEIÇÕES MORAIS: narrações escandalosas, mentiras (por exemplo, de Abraão e Jacob), violações, incesto, orações de vingança, guerras, práticas sociais inaceitáveis (escravidão, submissão da mulher, poligamia…), sacrifícios humanos, prática do herém (passar por fio de espada toda o homem, mulher, criança e animal das terras conquistadas para sacrifício a Deus), a Lei do tailião…. Mas a Bíblia não é um livro de moral, que nos diz o que se pode fazer ou não! Ela relata a realidade nua e crua de um homem nem sempre bom; por isso muitas coisas estão lá como exemplo a não seguir. A revelação é progressiva: o Antigo Testamento atinge a plenitude apenas no Novo (em Jesus Cristo); Deus é paciente, acompanha os Seus filhos pela mão, é educativo: os filhos também podem aprender com os seus erros!

38 Que princípios, então, devem ter-se em conta na questão dos erros da Bíblia? 2 – Inspiração, Verdade e Inerrância 2 – Inspiração, Verdade e Inerrância Alguns princípios orientadores: 1.A verdade das Escrituras deve ser entendida em sentido dinâmico. Ou seja: ela não está tanto nesta ou aquela afirmação particular (porque se fosse entendida assim, a referência à Bíblia poderia levar ao fundamentalismo), mas na revelação de Deus na sua globalidade, uma visão da história não como uma sequência de acontecimentos mas como a história da salvação em que Deus está presente e a dirige. 2.Não podemos avaliar os textos antigos partindo da nossa mentalidade: é preciso fazer um esforço de interpretação que tenha presente o contexto em que o texto em concreto nasceu, os géneros literários que utilizaram e os condicionalismos que incidiram sobre os vários autores. 3.O leitor deve ter o bom senso de distinguir o essencial do acessório, o filão da revelação do respectivo invólucro. A inerrância está escondida nesse filão que a perpassa por séculos e séculos, sem nunca perder a carga de salvação que nele se encerra. 4.Deus é condescendente e quis levantar o Homem da sua debilidade humana até ao conhecimento dos mais altos princípios de moralidade; há assim, uma pedagogia divina progressiva até a moral evangélica, cujo centro é o Sermão da Montanha.

39 2 – Inspiração, Verdade e Inerrância 2 – Inspiração, Verdade e Inerrância Em que texto do Magistério podemos ler esta questão de forma simples e resumida? Por exemplo, na Dei Verbum, nº 13… Constituição Dogmática sobre a Divina Revelação, Dei verbum, do Concílio Vaticano II 11. As verdades reveladas por Deus, que se encontram escritas e manifestadas na Sagrada Escritura, foram redigidas sob inspiração do Espírito Santo (cfr. Jo 20, 31; 2 Tim 3, 16; 2Ped 1, 20-21; 3, 15-16). Com efeito, a Santa Mãe Igreja, segundo a fé apostólica, considera como sagrados e canónicos os livros completos do Antigo e do Novo Testamento com todas as suas partes, porque escritos sob inspiração do Espírito Santo, têm Deus por autor e como tais foram confiados à mesma Igreja. Todavia, para escrever os livros sagrados, Deus escolheu e serviu-se de homens na posse das suas próprias faculdades e capacidades, para que, agindo neles e por meio deles, pusessem por escrito, como verdadeiros autores, tudo aquilo e só aquilo que Ele queria.Como, portanto, tudo aquilo que os autores inspirados ou hagiógrafos afirmam, deve ter-se como afirmado pelo Espírito Santo, por esse mesmo motivo deve proclamar-se que os livros da Escritura ensinam com certeza, com fidelidade e sem erro, a verdade que Deus, para nossa salvação, quis que fosse consignada nas Sagradas Escrituras. Assim, pois, toda a Escritura é inspirada por Deus e adequada para ensinar, refutar, corrigir e educar na justiça, a fim de que o homem de Deus, seja perfeito e esteja preparado para toda a obra boa (2 Tm 3, 16-17).

40 3. O cânone bíblico

41 3 – O cânone bíblico O que é o cânone da Bíblia? CÂNONE BÍBLICO CÂNONE BÍBLICO: É o conjunto de todos os escritos que compõem a Bíblia, ou seja, o catálogo completo dos escritos inspirados. Deriva do grego kanon e significa em sentido estrito, «cana», «haste para medir»; em sentido lato, «regra», «norma». Esses livros que fazem parte do cânone (os canónicos) são: regra de fé, isto é, os livros nos quais a Igreja encontra expressa a sua fé; regra de inspiração, isto é, os livros que assinalam o limite até ao qual se estende a inspiração bíblica; o cânone é assim o «catálogo dos livros inspirados. A canonicidade é o reconhecimento, por parte da Igreja, da inspiração divina de um livro. A canonicidade supõe, então, além da inspiração, a declaração oficial, por parte da Igreja, do carácter inspirado de um livro, já que foi à Igreja que Deus confiou o depósito da revelação. Foi no Concílio de Trento (séc. XVI) que se pronunciou definitivamente sobre quais os livros inspirados e canónicos, tendo declarado que são todos os que constam na actual Bíblia católica, e só esses; segundo Trento a canonicidade estende-se a todos os livros do AT e do NT (tanto protocanónicos como deuterocanónicos) e a todas as suas partes. Mas esse já era o consenso desde o final do séc. II.

42 Por que é que a Bíblia contém aqueles livros e não outros? 3 – O cânone bíblico Mas por que é que se escolheram esses livros e só esses e não outros? Quais foram os motivos de canonicidade? 1ºA origem apostólica. Consideram-se como canónicos aqueles escritos que surgem dos apóstolos, ou dos seus imediatos colaboradores, ou das comunidades directamente relacionadas com eles. 2º 3º A ortodoxia, isto é, a conformidade destes escritos com a pregação de Cristo, a Sua vida e anúncio. Por isso se rejeitaram os apócrifos. A catolicidade, isto é, o seu uso generalizado em quase todas as Igrejas, segundo testemunha o seu uso litúrgico. Todos estes motivos se resumem ao critério último de canonicidade: a Tradição divino-apostólica, pois «por esta mesma Tradição, a Igreja conhece o Cânone inteiro dos Livros Sagrados » (DV 8), o uso que a Igreja fez desde a época apostólica destes livros.

43 3 – O cânone bíblico Como se classificam os livros quanto à canonicidade (I)? Podem ser:PROTOCANÓNICOS, DEUTEROCANÓNICOS E APÓCRIFOS. PROTOCANÓNICOS são aqueles livros sobre os quais a canonicidade não se colocou em causa. DEUTEROCANÒNICOS: aqueles livros sobre os quais cuja canonicidade se colocaram dúvidas, mas que chegaram a entrar no cânone (assim, não significa que o seu valor seja inferior aos outros, mas que entraram em segundo lugar no cânone). Esses livros são: No AT: os livros ou as partes de livros escritos em grego. São: Tobias, Judite, 1 e 2 Macabeus, Baruc, Sabedoria, Eclesiástico, partes de Ester (Est 10, 4-16,24) e partes de Daniel ( Dan 3, 24-90; 13-14; No NT: Hebreus, Tiago, Judas, 2 Pedro, 2 e 3 João, Apocalipse e Marcos 16, 9-20 (final «canónico» do Evangelho) e Jo 7, 53-8,11 (a mulher adúltera). Estes termos remontam a Sisto de Sena (séc. XVI), não muito «felizes» porque parecem distinguir graus de importância entre os vários livros. LIVROS APÓCRIFOS: aqueles livros sobre cuja canonicidade se duvidou durante algum tempo, mas que não chegaram a entrar no cânone. Deriva do grego apókryphos, «escondido». O seu valor religioso é menor do que os da verdadeira Bíblia, e até, por vezes roçam o ridículo. A palavra «apócrifo» significa secreto, e é-lhes aplicada porque nunca se leram publicamente nas igrejas.

44 Como se classificam os livros quanto à canonicidade (II)? 3 – O cânone bíblico 3 – O cânone bíblico O Evangelho de Judas, recentemente «redescoberto» não é mais do que um escrito apócrifo, dos muitos que circulavam; por exemplo: Livro dos Jubileus, Vida de Adão e Eva, Ascensão de Isaías, Salmos de Salomão, Livro de Henoc, Apocalipse de Abraão, Evangelho dos hebreus, Evangelho de pedro, Actos de Paulo, Apocalipse de Pedro, Evangelho de Tomé, etc., etc. Que rica «descoberta» fizeram!!! Tradição católica Proto- canónico s Deutero- canónicos Apócr i-fos Tradição protestant e Canónic os ApócrifosPseud o epígra - fos (falsa- mente atribuí - dos a um autor

45 Existem diferenças entre os cânones hebraico, ortodoxo, protestante e católico? 3 – O cânone bíblico EXISTEM… CÂNONE JUDAICO: aceitam apenas os livros protocanónicos do AT, isto é, aqueles escritos em hebraico e aramaico. CÂNONE ORTODOXO: aceitam-se em geral todos os livros protocanónicos e deuterocanónicos, embora não tenham tomado nenhuma decisão «oficial». CÂNONE PROTESTANTE: só aceitam como canónicos: No AT, os protocanónicos; No NT, após muitas discussões aceitaram todos os livros, ainda que por vezes considerem de «segunda categoria» os escritos deuterocanónicos: 2 Pd; 2 e 3 Jo;Heb; Tg; Jd e Apoc. CÂNONE CATÓLICO: Segundo a definição de Trento, aceitam-se todos os livros, protocanónicos e deuterocanónicos, com todas as suas partes.

46 Como se processou a formação do cânone? 3 – O cânone bíblico 3 – O cânone bíblico Os livros da Bíblia, sobretudo os do AT, antes de aparecerem na forma definitiva actual, passaram pelo longo processo da tradição oral, primeiro, e depois pela tradição escrita. Foi assim que se formaram os livros que, em primeiro lugar, os judeus e em seguida os cristãos reconhecem como livros sagrados, isto é, normativos, canónicos. Os Judeus fixaram o cânon dos livros por eles considerados sagrados no concílio de Javne, nos finais do séc. I d.C., cânon que exclui os livros deuterocanónicos. Para os católicos, pelo contrário, o cânon do AT estava já praticamente definido antes do hebraico, tendo adoptado a maior parte dos livros contidos na Versão dos Setenta. A fixação dos textos do NT foi relativamente mais simples e as incertezas referem-se unicamente a alguns casos (por volta do séc. IV os 27 livros do NT já tinham plena aceitação, como o prova o Cânone de Muratori, lista de livros do séc. II); algumas batalhas se travaram, por exemplo, com Marcion, o herético (d séc. II) que não aceitou o AT e quase todo o NT, excepto S. Lucas e as Cartas de Paulo (por considerar que o Deus justo, vingativo do AT não se coadunava com o Deus misericordioso do NT!).

47 3 – O cânone bíblico 3 – O cânone bíblico O número de livros do AT para os católicos é de 46 e para os protestantes é de apenas 39. As raízes desta diferença prendem-se com haver dois cânones: Os judeus residentes na Palestina adoptaram o cânone judaico-palestinense (cânone breve) que continha 24 livros, todos escritos originariamente em hebraico (são os livros protocanónicos), sendo seguidos, mais tarde, pelos protestantes que adoptaram esse cânone, só que com a diferença de se dividir em 39 livros. Em parte, critérios de doutrina levaram os protestantes a fazerem isso: por exemplo, eliminaram os Macabeus porque neles está patente a crença no Purgatório! Os judeus da Diáspora, que residiam no estrangeiro, adoptaram o cânon judaico- alexandrino (da Versão dos LXX), que continha mais 7 livros e alguns trechos; foi o cânon adoptado pelos católicos e pelos ortodoxos (cânone longo). Os palestinenses puseram de lado esses livros devido a que só aceitaram a língua hebraica, para eles sagrada, rejeitaram os livros escritos fora da Palestina, introduziram critérios de maior ou menor antiguidade do livro, etc. Por isso, as Bíblias católicas têm hoje 73 livros e as protestantes apenas 66! QUEM DIZ QUE AS BÍBLIAS SÃO TODAS IGUAIS ESTÁ ENGANADO! Mas por que é que os cânones dos católicos e dos protestantes são diferentes?

48 4. Os géneros literários

49 4 – Os géneros literários 4 – Os géneros literários A mensagem da salvação que a Bíblia é porta-voz, é proposta e expressa nos vários textos de várias formas. Tanto se passa de relatos históricos a textos poéticos, hinos de vitória, hinos litúrgicos, etc. Estas várias técnicas de expressão foram chamadas de «géneros literários» pelos especialistas. Cada género tem uma função diferente: os relatos históricos pretendem informar; os de vitória, envolver as pessoas; os legais, estabelecer a ordem, etc. GÉNEROS LITERÁRIOS SÃO FORMAS DE ENTENDER, EXPRESSAR- SE, NARRAR, numa determinada época ou região e segundo uma finalidade determinada. A Dei Verbum diz-nos que devemos atender aos géneros literários: atender aos géneros literários significa estudar e ter em conta o tempo e a cultura, os modos de entender, de expressão e narração, que se usavam no tempo e lugar do hagiógrafo. O que são os géneros literários?

50 4 – Os géneros literários 4 – Os géneros literários Podemos dividir em dois grandes grupos: -Os textos em forma poética. Dentro destes: os poemas de amor (Cântico dos Cânticos, por exemplo), bênçãos, cânticos de acção de graças, súplicas, lamentações, hinos de louvor e os oráculos proféticos. A literatura sapiencial pertence a este género. -Os textos em forma de prosa. Podemos encontrar documentos de carácter histórico (crónicas, genealogias, evangelhos, etc), cartas (as de Paulo, de Pedro, de Tiago, de João e de Judas), os discursos proféticos, relatos de milagres, relatos da infância de Cristo, narrações míticas, sagas, etc. Quais são os principais géneros literários (I)?

51 4 – Os géneros literários 4 – Os géneros literários Quais são os principais géneros literários (II)? ANTIGO TESTAMENTO: As formas poéticas apresentam-se sob a forma de: Como sátira, cantos de amor, de trabalho, de banquete, de guerra, de vitória, bênçãos paternas, ditos maternos, etc. Nos SALMOS existem variadíssimas classificações, por exemplo: de súplica individual e colectiva, de lamentação, confiança, agradecimento, hinos reais, messiânicos… As COMPOSIÇÕES SAPIENCIAIS: provérbio popular, sentenças elaboradas, enigmas, refrães, sentenças, parábolas e alegoria ou fábulas, etc. Nos PROFETAS contam-se oráculos de promessas, relatos vocacionais, visões, anúncios apocalípticos (especialmente Daniel)… Visão da glória divina (Ez 1)

52 ANTIGO TESTAMENTO: As formas em prosa apresentam-se sob a forma de: Contratos (como quando Abraão trocou o seu filho pelo cordeiro), listas genealógicas, mensagens, cartas, inventários, orações em prosa, discursos, especialmente de despedida (como no caso do Rei David no final da sua vida), leis e códigos legislativos (especialmente no Pentateuco)… O GÉNERO NARRATIVO em prosa tem muitas formas: anais, crónicas, memórias, colecção de documentos, biografias, narrações fictícias (parábolas), sagas (relatos populares que explicam um facto popular), novelas históricas (Judite, Ester), relatos de sonhos e de visões… 4 – Os géneros literários 4 – Os géneros literários Quais são os principais géneros literários (III)? Sonho de José

53 4 – Os géneros literários 4 – Os géneros literários Quais são os principais géneros literários (IV)? NOVO TESTAMENTO: Podem ser: evangelhos, actos, cartas e apocalipse. GÉNERO EVANGELHO: tradições doutrinais e narrações históricas. Entre as doutrinais temos: ditos proféticos, sapienciais, de seguimento, paradoxos, parábolas, alegorias, o Sermão da Montanha e as bem-aventuranças. Às narrações históricas pertencem: paradigmas, diálogos-disputas, milagres, relatos da Paixão, os «Evangelhos da Infância» (com genealogias e esquemas baseados em antigas tradições bíblicas). GÉNERO EPISTOLAR: material litúrgico (como hinos, confissões de fé, textos eucarísticos), material parenético (catálogos de virtudes e vícios, sobre a vida doméstica, familiar e social, sobre deveres profissionais), fórmulas de fé (aclamações ao Senhor e doxologias..). Evangelhos de Infância GÉNERO APOCALÍPTICO: Apocalipse de S. João. Encontrava-se já em alguns profetas (especialmente Daniel), mas também em parte nos sinópticos e nos apocalipses apócrifos. Caracteriza-se por visões simbólicas e alegóricas, tendo lugar especial os símbolos de números e imagens. Os ACTOS são uma obra única no seu género: formam unidade com o terceiro Evangelho.

54 4 – Os géneros literários 4 – Os géneros literários IMPORTÂNCIA DOS GÉNEROS LITERÁRIOS: A linguagem influi sobre o assunto em questão. Mesmo quando o tema é igual dele podem falar o cientista, o filósofo, o jornalista, o historiador; cada um exprime-se em linguagem própria que confere ao tema um tom próprio. O género literário produz efeitos no leitor. Por exemplo, Jesus ensinava muito por parábolas; podiam também dizer: «isto é assim…», mas o efeito nos ouvintes seria certamente diferente. A escolha do género também está ligada aos elementos do conteúdo que se quer realçar. Por exemplo, numa fábula, o que interessa é a conclusão moral, num relato histórico, o acontecimento entre si, etc. Não atender ao género literário de um texto bíblico é um erro crasso: é pôr o texto a dizer o que não diz! Você lê um poema da mesma maneira que lê uma notícia de jornal? Qual é a importância dos géneros literários?

55 5. A interpretação e leitura da Bíblia

56 5 - A interpretação e leitura da Bíblia Como ler a Bíblia de uma forma «científica»? Para se poder captar o significado da Sagrada Escritura é preciso sintonizar-se com a sabedoria do Espírito e com a sabedoria dos homens (até ao final da Idade Média, a leitura da Bíblia estava pendente da sua leitura espiritual): o seu estudo torna-se científico ou crítico. Os exegetas (estudiosos da Bíblia) tentam várias abordagens para retirar e compreender a riqueza da Bíblia: é a exegese; a hermenêutica vai mais além desta: tenta elaborar uma teoria geral de interpretação virada para a compreensão. Nos estudos há hoje duas orientações: a) os estudos diacrónicos: tenta explicar o texto sagrado através da sua formação e os condicionamentos a que esteve sujeita; para isso utiliza o chamado método histórico-crítico, que faz uma crítica textual (procura estabelecer o texto o mais próximo possível do original, servindo-se de documentos antigos; quando há várias passagens alternativas escolhe a mais breve, a mais difícil, a diferente das passagens paralelas, etc.), literária, de redacção, das tradições, dos géneros literários; b) Os estudos sincrónicos: considera o texto enquanto tal, a sua estrutura, as técnicas narrativas, a mensagem e valoriza o contributo das outras ciências; sobressaem: a análise narrativa (vê os textos como narrações), a análise semiótica (chamada antes de análise estrutural, que analisa os textos nos níveis discursivo, narrativo e semântico), a análise canónica (interpreta os textos à luz do cânone, tanto do At como do NT, confrontando com a Tradição), a leitura hebraica (coloca à disposição um conjunto de comentários rabínicos), as leituras inspiradas nas ciências humanas (na antropologia, psicologia, sociologia, etc, valorizando os resultados conseguidos nestes sectores), as leituras contextuais (em que prevalece o desejo de esclarecer um contexto ligado ao leitor; por exemplo, a abordagem da Teologia da Libertação na América do Sul, a abordagem feminista, etc.).

57 A arqueologia é a ciência que tem por objectivo estudar a antiguidade, reconstruindo a história e o seu meio. Com a arqueologia a Bíblia ficou enriquecida porque a história do Povo de Deus tornava- se concreta e até tangível em certos casos. Há outras disciplinas que ajudam no estudo da Bíblia, tais como: a epigrafia (estuda as inscrições diversas), a papirologia (estuda as coisas escritas em materiais perecíveis, como papiros, cerâmica, erc), a numismática (moedas), etc. 5 - A interpretação e leitura da Bíblia Qual é o contributo da arqueologia para o estudo da Bíblia» (I)? EXEMPLOS: A inscrição que menciona Pilatos

58 A estela do faraó Merneptah do séc. XII a.C: menciona Israel de modo explícito; O túnel de Ezequias, que foi escavado pelo rei de Judá, do mesmo nome, do séc. VIII a.C. para fornecer água a Jerusalém Betsaida, a terra de Pedro, André e Filipe… O tanque de Siloé… A pedra moabita, que regista a conquista de Moab por Omri, rei do Reino do Norte, que confirma o relato do II Reis 3, A interpretação e leitura da Bíblia Qual é o contributo da arqueologia para o estudo da Bíblia» (II)?

59 5 - A interpretação e leitura da Bíblia O que acontece quando se violam as regras de interpretação bíblica (I)? Acontece que se coloca o texto a dizer aquilo que não diz. Um exemplo flagrante é o da Bíblia das Testemunhas de Jeová. Cabe aqui um alerta no que respeita à Tradução que as Testemunhas de Jeová usam: a Bíblia que elas usam sofreu violação na tradução. Os peritos que o fizeram não goza de reconhecimento por parte dos especialistas em ciências bíblicas e apresenta aos leitores alguns textos falsificados de modo a adaptarem a Bíblia à usa própria doutrina! Isto torna a sua Bíblia (Tradução do Novo Mundo das Escrituras Sagradas) uma tradução a evitar. Por exemplo, analisar o Bom Ladrão (Lc 23, 43) e a instituição da Eucaristia (Lc 22, 19). Não seguem os princípios fundamentais da interpretação bíblica: Interpretação fundamentalista, lêem à letra o que lá está, desconhecendo a questão dos géneros literários, etc.; Não aprofundam os textos no seu contexto; Não conhecem o princípio da progressão da revelação; Tomam à letra cada versículo em separado, isolam frases para conseguirem ilustrar algum princípio da sua doutrina. Para eles o hagiógrafo escreveu o texto bíblico como «um empresário dita uma carta à sua secretária» reduzindo o autor sagrado a mero executante das ordens de Deus; o encontro entre as duas liberdades, onde fica?

60 5 - A interpretação e leitura da Bíblia O que acontece quando se violam as regras de interpretação bíblica (II)? Algumas Notas sobre as T.J.: 1ª acima de tudo, como cristãos devemos ter caridade com as T.J.; 2ª - conheça a sua fé católica, não caia em dizer que as TJ é que sabem de Bíblia: estude você também na Verdade! Elas dizem que «as Bíblias são todas iguais» e depois incitam-no a seguir a deles: já sabemos que assim não é! 3ª As T.J. apenas têm pouco mais de 100 anos; o seu fundador foi Charles T. Russel que nasceu em 1852, que começou a estudar a Bíblia sem nenhumas bases; Cristo disse: «Eu estarei sempre convosco até ao final dos tempos?» O que aconteceu nos 19 séculos até ao aparecimento das TJ, todos andaram enganados? Ou mentiu Cristo>? 4ª - Os temas que as T.J. falam são sobre o Armagedom que destruirá a Terra e só ficarão os bons e a terra será transformada num Paraíso terrestre; estamos no fim deste sistema de coisas (assim o provam as guerras, terramotos, etc., mais intensos desde 1914), Deus (Jeová) vai castigar o mundo… Enfim, só pensam no próximo mundo, de conquistarem uma parcela de terreno no paraíso terrestre, há um alheamento do mundo: onde fica o ser fermento na massa como dizia Jesus? Deus não é um Deus vingativo como nos fazem crer, mas um Deus que cria, que anda no meio do Seu Povo, que perdoa, que é Pai e ama; 5ª Marcaram variadas vezes o fim do mundo, todas falhadas, como se alguém o soubesse (só o Pai o sabe!): 1914, 1925 (ressuscitariam os justos do AT; para os acolher construíram uma luxuosa mansão que ficou para o dirigente da época), 1975, 1986 e ª Acreditam que apenas vão para o céu e os restantes terão de se contentar com um paraíso aqui na terra; Jesus disse: «Deixai vir a Mim as criancinhas porque delas é o Reino dos céus»… 7ª Não são cristãos, não acreditam em Cristo como Deus, Nosso Salvador, é uma criatura criada por Jeová; mas Jesus disse: «Eu e o Pai somos Um»; 8ª Outras crenças: o nome de Deus é Jeová, a cruz é um símbolo pagão, Jesus morreu numa estaca, não se deve celebrar o Natal, nem o Dia do Pai, do aniversário, a alma não é imortal…

61 5 - A interpretação e leitura da Bíblia A Bíblia não é um livro fácil; para evitar colocar o texto bíblico a dizer aquilo que não quer dizer, deve-se seguir alguns princípios gerais: A primeira coisa é escolher uma boa Tradução da Bíblia Católica em português; aconselha-se a Bíblia Sagrada, da Difusora Bíblia (chamada Bíblia dos Capuchinhos), acessível; lembre-se que são traduções, por isso há sinónimos que dizem a mesma coisa, por isso as bíblias não dizem taxativamente as mesmas palavras, ao traduzir por vezes algo se perde, por vezes as palavras evoluem de sentido ao longo dos tempos; as bíblias protestantes também podem ser lidas, mas lembre-se que não têm introduções, nem notas explicativas e faltam livros (os deuterocanónicos do AT), além de faltar a autorização eclesiástica (imprimatur); mas rejeite a Bíblia das T.J. como vimos; Algumas traduções actuais católicas em português: a Bíblia de Jerusalém (tradução do francês para português do Brasil), pelo seu rigor científico; a Bíblia Sagrada (da Difusora Bíblica, dos Capuchinhos), é a mais recomendável em português de Portugal; A Bíblia Sagrada (da Paulus), apresenta notas concisas que dão a ideia de conjunto, a Bíblia Pastoral, (de São Paulo), igual à anterior, a Bíblia Sagrada das Missões – Cucujães, etc. Como bíblias inter-confessionais ou ecuménicas temos a Bíblia em português Corrente, que agrupa os deuterocanónicos entre o AT e o NT. O que fazer, então, para interpretar correctamente a Bíblia (I)?

62 5 - A interpretação e leitura da Bíblia Rejeite a leitura fundamentalista, não leia ao pé da letra! Muitas coisas são simbólicas (por exemplo, os nºs; 666 é o nº da Besta do Apocalipse, significa que não chega ao 7 nº da perfeição é é 3 vezes imperfeita; é 12 tribos de Israel x 12 x 1000, impossível de contar, etc), é necessário ter em conta os géneros literários (as formas de expressão são variadas: lembre-se que ler um jornal não é igual a ler poesia!), saber o que o autor quis dizer e não aquilo que parece: não ponha o texto a dizer o contrário daquilo que diz! Ter em conta o contexto histórico em que foi escrito o livro, a mentalidade semítica diferente da nossa; e também lembrar-se que a revelação é progressiva, correspondendo o NT a um estádio mais avançado do que o AT na Revelação de Deus; ler literalmente leva pessoas à morte por rejeitarem transfusões de sangue, por exemplo! Mas a intenção era travar a idolatria nos tempos mais recuados! A Bíblia deve ser lida no seu contexto; colocar cada versículo no contexto do capítulo e no contexto geral do livro e de toda a Bíblia; não se devem isolarr frases soltas; corremos o risco de dizer: a Bíblia diz que «Deus não existe»! (Sl 10, 4), mas refere-se aos não-crentes; colocar a leitura no contexto da Tradição viva da Igreja; a Bíblia deve ser lida em comunidade, na Liturgia; deve-se ter em conta as notas explicativas da Bíblia, os estudos dos exegetas católicos e os documentos da Igreja (por exemplo, a Dei Verbum do Vaticano II, a Interpretação da Bíblia na Igreja, etc.) O que fazer, então, para interpretar correctamente a Bíblia (II)?

63 5 - A interpretação e leitura da Bíblia «Felizes os que ouvem a Minha palavra e a põem em prática». Como buscar alimento espiritual na Bíblia? Tendo em conta o que se disse antes estaremos preparados para iniciar a leitura e abrirmo-nos a uma leitura de fé. A Bíblia foi escrita por homens de fé para homens de fé, o seu destinatário é a comunidade de crentes e só o crente consegue alcançar o seu sentido espiritual. Dois namorados que escrevem entre si estão na posse do sentido total do que está a acontecer, estão «sintonizados»; uma pessoa que leia a carta, não capta todo o sentido. O espírito vai para além da letra. O crente não vê aquilo como algo que já passou, mas que continua como palavra viva actual e o interpela hoje e o compromete na sua vida. Não lê para saber, mas lê para viver O objectivo é o encontro com Deus; a palavra de Deus não são as letras que lá estão escritas, mas o chamamento que ressoa dentro de nós. A leitura crente da Bíblia é para colocarmo-nos numa atitude de escuta, de fé, é verdadeira oração; existem vários métodos para orar com a Bíblia, como o da lectio divina; mas Deus não se limita à Bíblia, Ele está na comunidade dos crentes, na Palavra de Deus na Liturgia, na natureza, nos acontecimentos de cada um do dia-a-dia: Ele está, temos é de O ouvir!

64 5 - A interpretação e leitura da Bíblia «Felizes os que ouvem a Minha palavra e a põem em prática». Como buscar alimento espiritual na Bíblia? «A quem iremos nós, Senhor? Tu tens palavras de vida eterna! »

65 6. Bibliografia recomendada


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