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FILOSOFIA DA CIÊNCIA Introdução ao jogo e a suas regras Rubem Alves Delmar Gularte Louise Botelho Ivan Giacomelli.

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2 FILOSOFIA DA CIÊNCIA Introdução ao jogo e a suas regras Rubem Alves Delmar Gularte Louise Botelho Ivan Giacomelli

3 2 CIÊNCIA E SENSO COMUM A CIÊNCIA É A ESPECIALIDADE: UM REFINAMENTO DE POTENCIAIS COMUNS A TODOS O SENSO COMUM: GENERALIDADES SEM MUITA DISCIPLINA QUANDO COLOCADAS EM PRÁTICA

4 3 CIÊNCIA E SENSO COMUM A CIÊNCIA É A ESPECIALIDADE: UM REFINAMENTO DE POTENCIAIS COMUNS A TODOS O SENSO COMUM: GENERALIDADES SEM MUITA DISCIPLINA QUANDO COLOCADAS EM PRÁTICA A CIÊNCIA E O SENSO COMUM TÊM A NECESSIDADE BÁSICA DE COMPREENDER O MUNDO

5 4 CIÊNCIA E SENSO COMUM O que não é problemático não é pensado. O conhecimento só ocorre em situações- problema. Para resolver problemas, o pensamento cria simulações da realidade.

6 5 Ex. CARRO COM DEFEITO 1º) toma consciência do problema e começa a pensar 2º) constrói um modelo mental da máquina 3º) elabora hipóteses: simulações sobre as causas do enguiço 4º) testa as hipóteses para tentar achar a causa

7 6 EM BUSCA DE ORDEM A partir do modelo é posta a prova a teoria que o inspirou. Quando faltam instrumentos para o teste das hipóteses sobra a imaginação. O problema é construir uma ordem de uma desordem visível e imediata.

8 7 EM BUSCA DE ORDEM Parte-se do pressuposto que exista uma ordem capaz de ser descoberta: como a desordem se resolve na ordem? A observação dá o suporte básico para a construção de modelos. A imaginação, o formato que vão ter.

9 8 Ex. CASA EM CONSTRUÇÃO É possível já se dispor dos tijolos para se fazer uma casa mas a construção só existirá se forem organizados de acordo com a imagem da estrutura ainda inexistente – a própria casa.

10 9 EM BUSCA DE ORDEM A exigência de ordem se fundamenta na própria necessidade de sobrevivência. Mas o senso comum e a ciência apresentam visões de ordem diferentes. O mundo humano se organiza em torno de desejos. A ciência inventa métodos que preservam da ilusão e da fantasia, o conhecimento objetivo da realidade.

11 10 MODELOS & RECEITAS A verdade científica é sempre um paradoxo, se julgada pela experiência cotidiana, que apenas capta a aparência efêmera das coisas. (Karl Marx) Teorias científicas descrevem a natureza em termos de analogias retiradas de tipos familiares de experiência. ( Mary Hesse)

12 11 MODELOS & RECEITAS O objetivo da ciência é descobrir uma ordem invisível que transforme o enigmático em algo conhecido. O conhecido, o familiar, é a rede com que nos aventuramos a pescar no mar do ignorado.

13 12 MODELOS & RECEITAS A ciência se comporta como jogadores que correm o risco de apostar. Uma vez feita a aposta, se paga para ver. Modelos são construções intelectuais – apostas – baseadas na crença de uma relação de analogia entre o já conhecido e o que desejamos conhecer.

14 13 MODELOS & RECEITAS O senso comum é dominado por um motivo prático. A teoria científica pretende descrever uma receita de validade universal.

15 14 MODELOS & RECEITAS E = m. c ²

16 15 DECIFRANDO MENSAGENS CIFRADAS O livro da natureza está escrito em caracteres matemáticos (Galileu). Galileu, Torricelli e Stahl apreenderam que a razão só pode compreender aquilo que ela mesmo produz de acordo com um plano que ela mesmo elaborou. A razão não pode deixar- se arrastar pela natureza. Ao contrário, é ela que deve mostrar o caminho (...), obrigando a natureza a dar resposta às questões que ela mesmo propôs. (Kant)

17 16 DECIFRANDO MENSAGENS CIFRADAS Qualquer pessoa se sente fascinada diante de um segredo que pode ser decifrado. O homem sempre atribuiu sentido a eventos que aparentemente não significavam nada. Astrólogos liam mensagens de astros. Outros acreditam que mensagens podiam ser lidas em vísceras de animais.

18 17 DECIFRANDO MENSAGENS CIFRADAS Catástrofes sempre foram interpretadas como castigos divinos ou demoníacos. O homem sempre atribuiu sentido a eventos que aparentemente não significavam nada. Loucos e suas alucinações foram tidos como portadores de sabedoria sagrada.

19 18 DECIFRANDO MENSAGENS CIFRADAS O astrônomo Johannes Kepler, autor de três importantes leis sobre o movimento dos planetas, gastou anos procurando relações matemáticas entre as órbitas dos astros celestes. Ele viu música no espaço: Os movimentos celestes nada mais são que uma canção contínua para várias vozes, percebidas pelo intelecto e não pelo ouvido (...).

20 19 DECIFRANDO MENSAGENS CIFRADAS Antes de Kepler, Pitágoras (o quadrado da hipotenusa é igual à soma dos quadrados dos catetos) e seus seguidores também acreditavam que, para entender a natureza, era necessário contemplá-la em busca de relações numéricas. Os pitagóricos também acreditavam que as relações numéricas se encontravam representadas na música.

21 20 DECIFRANDO MENSAGENS CIFRADAS Kepler chegou mesmo a representar os planetas por meio de notas musicais. Com Kepler, a matemática se transforma na chave para se ouvir a harmonia inaudível dos planetas. Ela é o segredo que abre o cofre. Trata-se de um artifício que o cientista lança mão a fim de obrigar a natureza a cantar em voz alta.

22 21 DECIFRANDO MENSAGENS CIFRADAS Kepler foi um dos últimos pensadores medievais. Para ele, Deus compôs uma melodia e a colocou, cifrada, nos céus. Kepler é o primeiro a decifrar o código, a abrir o cofre, descobrir o segredo, o primeiro a ouvir o que Deus diz, por meio de sua melodia: pura harmonia, pura música.

23 22 DECIFRANDO MENSAGENS CIFRADAS Se sua visão da ciência tivesse triunfado, hoje os cientistas seriam místicos contemplativos, andando na companhia de teólogos e músicos. A ciência moderna tem a ver com máquinas, técnicas, manipulações. A matemática não conduz à harmonia musical. Devemos isso a Galileu.

24 23 DECIFRANDO MENSAGENS CIFRADAS Até Galileu, tentava-se decifrar o macrocosmos desconhecido fazendo analogia com o microcosmos conhecido – o homem. Ou seja, os filósofos tentavam decifrar a natureza tomando o homem como exemplo. (Se o rosto humano tem sete orifícios, então os planetas só podem ser sete).

25 24 DECIFRANDO MENSAGENS CIFRADAS Pré Galileu, buscava-se descobrir a finalidade das coisas. Havia um sentido em que as coisas que fazemos só adquirem significação se sabermos sua finalidade. (Para que servem as pirâmides, a propriedade, a religião, etc.). Explicações desse tipo (para que finalidade serve tal coisa) são chamadas de teleológicas.

26 25 DECIFRANDO MENSAGENS CIFRADAS Ao buscar explicações teleológicas para a natureza, acabava-se chegando sempre a um mesmo resultado: o universo é produto da criação divina. Ao se fazer perguntas teleológicas à natureza, as respostas obtidas serviam para dar sentido à vida das pessoas - mas elas não podiam ser testadas ou corrigidas. Galileu revoluciona a ciência ao afirmar que o universo não tem um sentido humano. No mundo dos números, não se pode mais fazer perguntas sobre a finalidade do universo.

27 26 DECIFRANDO MENSAGENS CIFRADAS Com a matemática, a ciência abandona os valores. Ela demonstra relações, que se dão de determinada forma, fazendo silêncio completo sobre se isso é bom ou mau, feio ou bonito. Mas como podemos fazer a natureza falar? Se ela fala a língua da matemática (Galileu), porquê quando fica à nossa frente exibe apenas cores, cheiros, ruídos, etc., mas não abre a boca, fica muda?

28 27 DECIFRANDO MENSAGENS CIFRADAS A ciência se inicia quando alguém faz uma pergunta inteligente. A pergunta inteligente é o começo da conversa com a natureza. Às perguntas que os cientistas propõem à natureza são chamadas de hipóteses. Toda hipótese já contém a resposta da pergunta.

29 28 DECIFRANDO MENSAGENS CIFRADAS A ciência moderna se caracteriza pelo abandono da categoria substância, que é substituída pela categoria função. O que importa não é o que as coisas são, mas como elas se comportam.

30 29 PESCADORES E ANZÓIS Teorias são redes; somente aqueles que as lançam pescarão alguma coisa. Karl Popper Cientistas pertencem ao mesmo clube dos caçadores, pescadores e detetives. O que torna um sujeito um caçador? O seu conhecimento da caça: ele sabe os hábitos dos animais. Onde vivem, por onde andam, o que comem, seu perigo, etc.

31 30 PESCADORES E ANZÓIS O caçador pode prever os movimentos da caça, assim ele pode adiantar-se a ela e preparar-lhe uma armadilha. O que torna certos indivíduos caçadores, pescadores e detetives é o conhecimento que possuem daquilo que terão de pegar. Esse conhecimento se constitui em uma teoria – o que lhes permite prever os movimentos da presa.

32 31 PESCADORES E ANZÓIS Teorias são enunciados acerca do comportamento dos objetos de interesse do cientista. Um cientista é uma pessoa que sabe usar as redes teóricas para apanhar as entidades que lhe interessam. A ciência tem a ver com a regularidade dos hábitos da caça. Ela não se interessa pela diferença, mais pelo comum.

33 32 PESCADORES E ANZÓIS A lei é o comum. Por ser comum, é também universal (nas ciências, leis são os enunciados da rotina dos objetos). Na ciência, porém, a analogia da rede deixa a desejar (o cientista necessita de resultados precisos e específicos). Anzóis são mais precisos: dependendo do peixe que você espera pegar, usa anzóis grandes ou pequenos.

34 33 PESCADORES E ANZÓIS Devemos tomar cuidado com a arrogância do pescador que, com um peixinho na mão, pretende haver desvendado o mistério da lagoa escura...

35 34 A APOSTA Redes não se constroem com peixes. Redes são feitas para apanhar peixes. No século XVI lançam-se novas bases para o conhecimento: Que o pensamento seja um espelho dos fatos Que a imaginação seja subordinada à observação Que o cientista fale apenas o que a natureza lhe revela

36 35 A APOSTA Surge o método indutivo para a ciência. A indução tem como programa construir o discurso da ciência a partir dos fatos observados. A indução é uma forma de argumentar, de passar de certas proposições a outras. Ela é uma forma de pensar que pretende efetuar, de forma segura, a passagem do visível para o invisível.

37 36 A APOSTA Quando concluímos sobre o futuro a partir do passado, estamos fazendo um raciocínio indutivo: do conhecido ao desconhecido, do visível para o invisível. Porém, o raciocínio lógico-matemático é dedutivo-demonstrativo. As conclusões de uma demonstração são logicamente necessárias, mas não existe necessidade lógica nos caminhos da natureza.

38 37 A APOSTA O propósito da indução é nobre: oferecer caminho seguro à ciência, a prova de erros. Problema: parece que a indução é também uma ilusão, pois trapaceamos sem querer. Tudo aquilo que podemos investigar se divide em duas classes: Relações de idéias: geometria, lógica, etc. Matérias de fato: tudo que acontece no mundo real, que nós é dado pelos sentidos

39 38 A APOSTA O teorema de Pitágoras foi descoberto apenas pelo exercício da razão. Conhecer as matérias de fato significa conhecer suas causas e efeitos. Causas e efeitos são descobertos não pela razão, mas pela experiência. (David Hume) Todo conhecimento, ciência, tecnologia, se baseia no conhecimento das relações entre causas e efeitos.

40 39 A APOSTA Saber sobre causas e efeitos é saber o que certas coisas fazem com as outras. Sabendo disso, a tecnologia nasce quando combinamos as coisas certas para obter os efeitos desejados. Mas o que significa dizer que uma coisa é causa da outra? Significa que estamos afirmando a existência de uma relação necessária entre elas. Ao afirmar uma relação causal, estamos dando um pulo enorme para longe dos fatos.

41 40 A APOSTA Se dissermos: Faz um ano, uma chuva apagou um incêndio Ontem joguei água em uma brasa e ela apagou Em todos esses casos não fizemos ciência, apenas relatamos coisas que vimos (a ciência busca o invisível). Se a partir desses fatos, concluirmos que: A água apaga o fogo

42 41 A APOSTA Agora não estamos mais fazendo declaração de um fato, mas enunciamos relações pretensamente válidas para todos os fatos, já ocorridos e por ocorrer.

43 42 A CONSTRUÇÃO DOS FATOS Problemas sérios: as relações causais (causa x efeito), uma vez estabelecidas pela experiência, podem nos levar a muitas direções (e resultados) diferentes. Surge o positivismo de Comte: ciência não deve dizer mais do que aquilo que os fatos a autorizam. (...) a verdadeira observação é única base possível do conhecimento.

44 43 A CONSTRUÇÃO DOS FATOS O positivismo prega que as pesquisas devem reduzir-se à apreciação sistemática daquilo que é, renunciando a descobrir sua primeira origem e seu destino final. (nível do visível) Resumindo: o conhecimento das relações causais não exige o exercício da reflexão. Ele se encontra aquém do conhecimento científico.

45 44 A CONSTRUÇÃO DOS FATOS Historicamente, a ciência surgiu quando certas pessoas se perguntavam sobre as razões por que coisas corriqueiras ocorriam de forma como ocorriam. Aristóteles, ao analisar o fenômeno da trajetória dos corpos, propôs a teoria de que a tendência de todo o movimento é o repouso. Esta seria a razão por que todas as coisas acabavam caindo e parando. (dedução/demonstração)

46 45 A CONSTRUÇÃO DOS FATOS Mas Galileu e a ciência moderna vêem a mesma curva por teoria diferente, em oposição aos fatos e sem que possa ser reduzido a nenhuma experiência: a tendência dos corpos é o movimento retilíneo uniforme, a inércia. (reflexão) Os fatos, em si mesmos, não oferecem sua própria iluminação. O problema científico central, portanto, é o da interpretação. (Prescott Lecky)

47 46 A CONSTRUÇÃO DOS FATOS Essa palavra, interpretação, deve merecer nossa atenção. Quando é que algo necessita ser interpretado? Quando esse algo, tal como nos é apresentado, é destituído de sentido. Para Galileu, a natureza, em sua aparência bruta, não diz nada – o sentido está escondido. Esse sentido era matemático: a matemática não era extraída dos fatos, mas aplicada a eles. De onde surge a matemática? Do poder criativo da razão.

48 47 A CONSTRUÇÃO DOS FATOS Já é hora de repensar profundamente o sentido dos dados e fatos da ciência. È bom lembrarmos de que o jogo de damos o nome de ciência é um acordo tácito entre todos os cientistas de que nele só se pode falar sobre experiências abertas à verificação intersubjetiva. O mesmo resultado obtido pelo cientista A pode ser alcançado pelo cientista B, usando condições idênticas, em qualquer outro lugar do mundo.

49 48 A CONSTRUÇÃO DOS FATOS Sintetizando: Se um fato não puder ser enunciado, não poderá ser testado. E, se não pode ser testado, não pertence ao jogo da ciência. Em tempo: dados não são dados (repassados), mas construídos com o auxílio de conceitos. Aos dados e fatos, falta uma capacidade criadora, um poder de síntese e organização, uma imaginação que traz à existência coisas que não existiam, um poder para pular e saltar...

50 49 A CONSTRUÇÃO DOS FATOS Por fim: na ciência, os dados, sem a centelha que lhes dá arquitetura e os põe em movimento, são inertes, mortos mudos. Fatos não dizem coisa alguma a não ser quando trabalhados pela imaginação.

51 50 A IMAGINAÇÃO O que está em jogo não é a transmissão daquilo que se inventa, mas antes a transmissão do poder de inventar. Juan David Nasio

52 51 CRÍTICA AO MÉTODO Como é possível que alguém chegue a um destino sem ter consciência do caminho seguindo? Sonambulismo? Será que o cientista é seqüestrado por um poder estranho que o leva, sem que ele saiba como, ao seu destino? – cientista abduzido. Está em xeque a questão do método, tão cuidadosamente embalada pela ciência. Há, inclusive, certa tendência a identificar ciência com o método científico.

53 52 O QUE É UM MÉTODO? O termo método, que significa literalmente seguindo um caminho (do grego méta, junto, em companhia, e hodós, caminho), refere-se à especificação dos passos que devem ser tomados, em certa ordem, a fim de se alcançar determinado fim Mas Gauss, na afirmação acima, está declarando: Cheguei lá sem seguir caminho algum, premeditadamente. Estou pensando para ver se descubro o método...

54 53 Descobrimos que não existe uma única regra, por mais plausível que pareça, por mais alicerçada sobre a epistemologia, que não seja desrespeitada numa ou noutra ocasião. (Paul Feyerabend, Contra el método, p. 15). Se Gauss está correto, é possível pensar que os inovadores chegam a suas idéias por meio de saltos, só então parando para descobrir o caminho, que deverá posteriormente ser ensinado aos mais medíocres, destituídos de asas. – Função do insight.

55 54 Não será essa, exatamente, a situação das teorias cientificas? Como é que as estudamos? Como produtos acabados. Aprendemos seus enunciados, implicações e conseqüências. Só. Mas e o processo mágico de sua produção? É como estudar matemática e física apenas pela fórmula já pronta sem se preocupar no cálculo aritmético que a formou.

56 55 E Copérnico? Quais foram os fatores que fizeram com que ele organizasse o universo com o Sol no meio? O que terá convencido Galileu a adotar a matemática como modelo para a realidade?

57 56 Lidamos com os produtos acabados, tão certinhos, tão racionais, tão metodologicamente demonstrados, e com isso ganhamos uma visão totalmente equivocada dos processos pelos quais as idéias criadoras aparecem.

58 57 E, com isso, os cientistas passaram a imaginar que eles pensam de maneira diferente dos homens comuns. Desligaram-se do senso comum. Enquanto o senso comum pensa a partir de emoções e desejos, o cientista é totalmente objetivo. Nas palavras de Nietzsche – espelho de cem olhos -, seu único propósito é refletir o objeto. Um cientista tem de ser livre de valores...

59 58 Os chineses contam a história de um sábio que adormeceu à sombra de uma árvore. E sonhou. Era uma libélula. Mas a libélula do seu sonho estava adormecida. E sonhava. E em seu sonho ela era um sábio adormecido sob uma árvore, que sonhava que era uma libélula... Termina a história dizendo que ele nunca mais conseguiu saber se ele era um sábio que sonhava com uma libélula, ou o sonho da libélula...

60 59 Boa parábola para os cientistas. Será que seu pensamento é realmente objetivo, ou sua pretensa objetividade não passa de um sonho, de uma ilusão de alguém que gostaria de ser um pouco mais que os demais mortais?... Como se constroem as teorias? Uma alternativa é aceitar que existe um método, um procedimento racional, que nos leva das amostras, dos dados, dos fatos, dos enunciados particulares (ou protocolares) aos enunciados universais. Caminharíamos seguindo o caminho proposto pela indução.

61 60 As mudanças mais fundamentais em qualquer ciência comumente resultam não tanto da invenção de novas técnicas de pesquisa, mas antes de novas maneiras de olhar para os dados.

62 61 Figura da mulher colocar Observe agora esta outra figura: Muita atenção. Que você vê? Olhe por outros ângulos. Varie o centro de sua atenção.

63 62 Como pode uma causa única produzir dois efeitos totalmente distintos? Não, a percepção não foi produzida pelos dados. Os dados foram pistas, e foi necessário que a mente os organizasse em totalidades para que eles viessem a fazer sentido. Eureca! Eis aqui uma coisa curiosa: uma teoria não passa de um conjunto de afirmações. Palavras, linguagem. E ela determina nossas formas de ver o mundo. Não vemos com os olhos. Vemos com as palavras.

64 63 Se os cientistas, e outras pessoas preocupadas com o saber, tivessem consciência desse fato, seriam mais humildes em suas afirmações e compreenderiam que as verdades que lhes parecem tão claras, tão óbvias, são resultados da perspectiva específica que adotam. Ora a jovem, ora a velha... – Só sei que nada sei.

65 64 Newton não podia montar e desmontar o universo. Marx não podia montar e desmontar a sociedade. E Freud, igualmente, não tinha poderes para fazer uma dissecação prática da alma. Mas todos eles fizeram isso, idealmente, por meio da imaginação. Todos concordariam com Gauss: Não sei como cheguei onde estou. Não fui eu quem produziu as idéias: elas me ocorreram. A ciência tentou, por todos os meios, fugir do irracional e das emoções, construindo uma maneira que a conduzisse, de modo seguro, ao conhecimento verdadeiro.

66 65 A verdadeira descoberta não é um processo estritamente lógico. (Polanyi, op. cit., p. 123). As idéias nos ocorrem não quando queremos, mas quando elas querem. Não existe nenhum caminho lógico que nos conduza (às grandes leis do universo).

67 66 AS CREDENCIAIS DA CIÊNCIA (...) e, porque eu desejava me entregar inteiramente à busca da verdade, pensei que seria necessário (...) rejeitar como absolutamente falsa qualquer coisa acerca da qual eu pudesse imaginar o menor fundamento para a dúvida, a fim de ver se, depois disso, alguma coisa permanecia que, segundo minha crença, era absolutamente certa. Descartes.

68 67 E a libélula sonhava que era um sábio... E os cientistas sonhavam que não mais sonhariam, e imaginavam que a imaginação havia morrido... Com eles nascia uma nova raça de indivíduos frios e racionais que diziam para si mesmos: Somos reais, inteiramente. Já não existe em nós nem crença, nem superstição (Nietzsche). E eles pensavam que, com eles, a civilização alcançara um nível nunca antes atingido (Weber).

69 68 Kant, Comte, Freud, Marx, todos eles acreditam no advento de uma ciência livre de emoções. Kant denunciava as paixões como cancros da razão pura. Comte falava sobre os três estágios do pensamento, o mais primitivo, habitado por mágicos e sacerdotes e representado pela imaginação, enquanto o último era constituído de cientistas, sábios o bastante para amordaçar a imaginação. Freud caminha na mesma procissão e saúda o pensamento científico como o que definitivamente abandonou as fantasias e se ajustou à realidade. Enquanto isso, no marxismo, a ciência devora antropofagicamente sua própria mãe, a ideologia.

70 69 A ciência, por mais pura que seja, é o produto de seres humanos engajados na fascinante aventura de viver suas vidas pessoais (Frederick Perls, et al., Gestal Therapy, p. 24). – Vaidade está intrinsecamente ligada à ciência e cientistas.

71 70 Contra Galileu falava a ciência da época, acidentalmente incorporada na Igreja. E que critérios invocavam os cientistas ortodoxos para rejeitar Galileu? O mesmo que ainda hoje se invoca: o consenso, o acordo – Freud Congresso de Viena Tudo muito parecido com algo que ocorreu com um tal de Cristóvão Colombo, que pretendia faze as coisas às avessas. Queria chegar às Índias navegando para longe delas. Todos sabiam que as Índias ficavam de certo lado, e Colombo se propunha chegar lá navegando na direção oposta.

72 71 Provas? Não as tinha... Que apresentava como evidências? Promessas, palpites, uma visão, intuições. E era sobre isso que ele pretendia lançar- se numa aposta.

73 72 De início, parecia eu ela apresentava caminhos seguros, metodologicamente definidos. E agora dizemos que não é bem assim, que não há nenhum método para a construção de teorias, que não existem alicerces. Nossa primeira tarefa será aprender a identificar a ciência. Já dissemos que o cientista é alguém que propõe declarações sobre a realidade. O discurso cientifico tem a intenção confessada de produzir conhecimento, numa busca sem fim da verdade.

74 73 verdade Discurso Objetivo

75 74 Pare um pouco. Pense na história da ciência. Ela mudou muito. Quantas verdades foram abandonadas... O Sol girando em torno da Terra, as harmonias de Kepler, a química do flogístico, a física do éter, a eletricidade como fluido ingarrafável, as sínteses químicas só realizáveis por organismos... Enquanto prevaleciam, todos consideravam tais crenças como enunciados já verificados. Passado o tempo, verificou-se que não era bem assim.

76 75 CONCLUSÕES Não há métodos que nos permitam concluir acerca de sua verdade de forma definitiva. Cada cientista consciente deveria lutar contra sua própria teoria. E é isso que o torna uma pessoa capaz de perceber o novo. Por que as experiências fracassadas não são publicadas? Não será, exatamente, para permitir que a teoria permaneça intacta?

77 76 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ALVES, Rubem. Filosofia da Ciência – Introdução ao jogo e as suas regras. São Paulo : Loyola, 2005 COMTE, Augusto. Discurso sobre o espírito positivo. São Paulo : Escala, 2005 DESCARTES, René. Discurso do método. São Paulo : Escala, 2005

78 77 OUTRAS REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS Sítio de pesquisa sobre filosofia, epistemologia, etc.:


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