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Modos de Expressão Literária. Expressão Literária de Eça de Queirós A prosa de Eça reflecte a sua maneira de pensar e torna-se um instrumento dúctil e.

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1 Modos de Expressão Literária

2 Expressão Literária de Eça de Queirós A prosa de Eça reflecte a sua maneira de pensar e torna-se um instrumento dúctil e subtil para exprimir o seu modo pessoal de ver o mundo e a vida. Ele próprio considerava a literatura como a arte de pintar a realidade, mas levemente esbatida na névoa dourada e trémula da fantasia, satisfazendo a necessidade de idealismo que todos temos nativamente e ao mesmo tempo a seca curiosidade do real, que nos deram as nossas educações positivas... (Eça de Queirós, Notas Contemporâneas). Eça não teve a frondosa riqueza vocabular de um Camilo, mas soube explorar, a partir de um vocabulário simples, a força evocativa das palavras por meio das mais variadas relações combinatórias e sentidos conotativos. O estilo de Eça é magistralmente estudado por Ernesto Guerra e Cal na sua volumosa obra Linguagem e Estilo de Eça de Queirós. Foi aqui que sobretudo nos baseámos para fundamentar o que estamos dizendo sobre o estilo dOs Maias. Vejamos alguns dos processos pelos quais Eça conseguiu essa força evocativa, esse verdadeiro magnetismo das palavras.

3 Ritmo da Narração Há uma concentração temporal da intriga, dada em ritmo lento de narração durante os anos de , desde a chegada de Carlos ao Ramalhete até à partida para Santa Olávia, após a morte do avô. O tempo anterior, necessário à explicação da situação presente (influência da educação e da hereditariedade) é dado em analepse (há outras, como as que vão desvendando a história de Maria Monforte e a identidade de Maria Eduarda) e quase sempre em forma de sumário, portanto em ritmo de narração rápida. De igual modo o tempo posterior a 1876 (pp inicio do ultimo capitulo) é apresentado em ritmo rápido, por vezes mesmo elipticamente, mas a sequencia final (pp ) do passeio por Lisboa e da visita ao Ramalhete retoma o ritmo lento da narração.

4 Descrição Nesta obra é dada uma grande importância à descrição, que é minuciosa, visando a captação sensível da realidade (linhas, cores e formas) de acordo com princípios da escolha realista, que estabelece a sintonia entre o meio ambiente e aquele que nele vive. Ajuda também à criação de atmosferas especiais de carácter indicial: muitas vezes a natureza e as condições meteorológicas em que desenrolam os acontecimentos fulcrais do ponto de vista da acção central não acentuam o clima de tragédia, como são pré-avisos da tragédia a acontecer (a tempestade, na noite da morte de Pedro; a atmosfera pesada de trovoada iminente várias vezes preside ao desenrolar das relações entre Carlos e Maria Eduarda etc). De salientar ainda que a descrição, em Eça, não é idealizada, como nos românticos. Apresenta, pelo contrário, traços de realismo impressionista (novidade em Eça).

5 Diálogo O diálogo é abundante, rápido e incisivo, em linguagem natural e familiar (…), quase sempre de características irónicas com comentários de crítica: social, política, económica, jornalística, literária: «… Olha, João da Ega, deixa-mo dizer-te uma coisa, meu rapaz. Todos esses epigramas, esses dichotes lorpas do raquítico e dos que o admiram, passam-me pelos pés como um enxurro de cloaca. O que faço é arregaçar as calças! Arregaço as calças. Mais nada, meu Ega. Arregaço as calças! E arregaçou-as realmente, mostrando a ceroula, num gesto brusco e de delírio. Pois quando encontrares enxurros desses gritou-lhe o Ega agacha-te e bebe-os. Dão-te sangue e força ao lirismo! Mas Alencar, sem o ouvir, borrava para os outros, esmurrando o ar: Eu, se esse Craveirote não fosse um raquítico, talvez me entretivesse a rolá-lo aos pontapés par esse Chiado abaixo, a ele e versalhada, a essa lambisgonhice exerementícia com que seringou Satanás! E depois de o besuntar bem de lama, esborrachava-lhe o crânio!» (Os Maias, cap.VI, pp )

6 Monólogo Interior O monólogo interior (normalmente expresso em discurso indirecto livre), é a forma privilegiada para dar a conhecer o interior da personagem.É o caso de João da Ega, especialmente após a recepção da caixa com documentos que lhe é entregue pelo Sr. Guimarães e que desencadeiam todo um processo mental de incredulidade, insegurança, inquietação e mesmo desespero, cujo desenvolvimento podemos observar entre as páginas 614 e 688 do romance. Em relação a Carlos da Maia, são mais abundantes os exemplos de monólogo interior, alguns dos quais já foram referidos: o sonho com Maria Eduarda (pp fim do capítulo VI), o devaneio sobre Maria Eduarda, depois da frustração de a não ter encontrado em Sintra (pp Cap. VIII); as meditações sobre o seu encontro com Maria Eduarda para lhe revelar os laços de parentesco que os uniam: «Por isso ia e ao longo do Aterro, retardando os passos, esse plano, ensaiando mesmo consigo, baixo, palavras que lhe diria. Entraria na sala, com um grande ar de pressa e contava-lhe que um negócio uma complicação de feitores, o obrigava a partir para Santa Olávia daí a dias. E imediatamente saía, com o pretexto de correr a casa do procurador. Podia mesmo ajuntar «é um momento, não tardo, até já». Uma coisa o inquietava. Se ela lhe desse um beijo?... Decidia então exagerar a sua pressa, o charuto na boca, sem mesmo pousar o chapéu. E saia. Não voltava. Pobre dela, coitada, que ia esperar até tarde, escutando cada rumor de carruagem na rua!... Na noite seguinte abalava para Santa Olávia com o Ega, deixando-lhe a ela uma carta a anunciar que, infelizmente, por causa dum telegrama, se vira forçado a partir nesse comboio. Podia mesmo ajuntar «volto daqui a dois ou três dias...» E aí estava longe dela para sempre. » (Os Maias, cap. XVII, pp )

7 Comentário O comentário, veículo importante de expressão ideológica, seja directamente através do narrador, seja através das personagens, é utilizado sobretudo em duas situações e, pelo menos aparentemente, com dois objectivos: 1 - Para completar a caracterização psicológica das personagens, sobre elas exprimindo um juízo de valor: «A voz de D. Ana interrompeu, muito severa: Está bom, está bom, basta de tolices! Já cavalaram bastante. Senta-te ai ao pé da senhora viscondessa, Teresa... Olha essa travessa do cabelo... Que despropósito! Sempre detestara ver a sobrinha, uma menina delicada de dez anos, a brincar assim com o Carlinhos. Aquele belo e impetuoso rapaz, sem doutrina e sem propósito, aterrava-a; e pela sua imaginação de solteirona passavam sem cessar ideias, suspeitas de ultrajes, que ele poderia fazer à menina. Em casa, ao agasalhá-la antes de vir para Santa Olávia, recomendava-lhe com força que no fosse com o Carlos para os recantos escuros, que o não deixasse mexer-lhe nos vestidos!...» (Os Maias, p. 72) 2 - Para concretizar os seus objectivos de crítica social, política, literária, normalmente através das personagens: «Ega, horrorizado, apertava as mãos na cabeça quando do outro lado Carlos declarou que o mais intolerável no realismo eram os seus grandes ares científicos, a sua pretensiosa estética deduzida de uma filosofia alheia, e a invocação de Claude Bernard, do experimentalismo, do positivismo, de Stuart Mill e de Darwin, a propósito de uma lavadeira que dorme com um carpinteiro! Assim atacado, entre dois fogos, Ega trovejou: justamente o fraco do realismo estava em ser ainda pouco científico, inventar enredos, criar dramas, abandonar-se à fantasia literária! A forma pura da arte naturalista devia ser a monografia, o estudo seco de um tipo, de um vício, de uma paixão, tal qual como se se tratasse de um caso patológico, sem pitoresco e sem estilo...» (Os Maias, p. 164)

8 Bibliografia Jacinto, C.; Lança, G., Colecção Estudar Português Os Maias de Eça de Queirós, Porto, Porto Editora; O Realismo de Eça de Queirós e Os Maias, Edições Sebenta;


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