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As Provas da Existência de Deus em Tomás de Aquino.

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Apresentação em tema: "As Provas da Existência de Deus em Tomás de Aquino."— Transcrição da apresentação:

1 As Provas da Existência de Deus em Tomás de Aquino

2 A questão da existência de Deus abrange uma área do pensamento muito discutida, por isso devemos delinear qual seja o nosso propósito aqui. Diversos foram os autores que elaboraram um discurso em cima dessa questão clássica para a filosofia. Escolhemos Tomás porque entendemos que ele foi, para o seu tempo, inovador, pelo menos se creditarmos a ele o título de frade católico. Sendo a Igreja Católica uma instituição das mais conservadoras da sua tradição, Tomás teve, a nosso ver, a coragem de escolher um caminho diferente da tradição1 à qual estava ligado, ao menos na questão da existência de Deus.

3 Mas, enfim, será mesmo possível se provar racionalmente como veremos pretender Tomás de forma autônoma à revelação ou ao dado da fé, que Deus é? A existência de Deus será evidente para nós, como queria a tradição desde Agostinho? Por que Tomás se separou de Agostinho, o grande mestre do ocidente cristão, quanto à necessidade de se demonstrar a existência de Deus? Se todo conhecimento começa nos sentidos, e se de Deus não temos nenhuma experiência sensitiva, como podemos demonstrar a sua existência mediante a razão? Será a existência de Deus uma questão também filosófica? Qual a coerência lógica destas questões metafísicas?

4 A Vida e a Obra de Tomás Tomás nasceu no castelo de Aquino, em Roccasecca (Reino de Nápoles), entre o ano de 1224/5. Filho do conde Landolfo de Aquino e de Teodora. Seu pai e um de seus irmãos pertenciam à aristocracia da corte de Frederico II. De 1230 a 1239 foi educado na abadia de Monte Cassino (situada entre Roma e Nápoles). De 1239 a 1244 estuda Artes Liberais na Universidade de Nápoles e toma contato com a Lógica e a Filosofia Natural de Aristóteles. Em 1244 Tomás integra-se à ordem mendicante dos frades dominicanos de Nápoles, e isso contra a vontade da família que tinha outros planos para o jovem. Superada a oposição da família, faz seu noviciado e estudos na Universidade de Paris. Paris era então chamada, A Nova Atenas, A Cidade dos Filósofos, e desde muito, gozava de um prestígio incomparável. Tomás teve por mestre Santo Alberto Magno, com quem viajou para fundar uma nova escola da ordem em Colônia. Em 1250/51 recebe a ordenação sacerdotal.

5 De 1252 a 1256 Tomás exerce a função de professor Bacharel Sentenciário na Universidade de Paris. E, em 1256 – diz uma antiga tradição – Santo Tomás e São Boaventura teriam recebido, no mesmo dia, o título de mestre e regente em teologia. Tomás leciona como mestre regente em Paris até O fruto mais direto deste magistério é o De Veritate. Mas é também neste período que escreve o Comentário às Sentenças de Pedro Lombardo. E, mais precisamente, em 1259, começa a redigir aquela que, ao lado da Suma Teológica e do Compêndio de Teologia, seria a sua mais importante obra, a saber, a Suma Contra os Gentios. Esta Suma Tomás a redige a pedido de seu confrade, o missionário e depois Santo, Raimundo de Pena Forte.

6 Tomás retorna a Paris em 1269, onde exerce, pela segunda vez, a regência de cátedra. Este período de regência durou até Foi nesta segunda regência em Paris que provavelmente Tomás de Aquino escreveu o Compêndio de Teologia, a pedido de seu caríssimo Frei Reginaldo. Porém, a perseguição às ordens mendicantes cresce, e Tomás é transferido para Nápoles. Durante os anos de 1272/73, exerce a regência de Teologia em Nápoles. Em 1274 é chamado ao Concílio Ecumênico de Lyon e acaba falecendo no caminho. No ano de 1277, o Bispo de Paris condena 219 proposições filosóficas e teológicas tidas como averroístas, sendo que algumas delas eram de santo Tomás de Aquino. Essas teses, posteriormente, foram readmitidas pela Igreja, e, no ano de 1323, Tomás de Aquino é canonizado por João XXII.

7 Contextualização do Século XIII. O século XIII foi um período de profundas transformações no pensamento Ocidental. Da perspectiva filosófica e teológica podemos citar que neste período, começaram a chegar às mãos do ocidente cristão, as obras e os comentários a Aristóteles por parte dos filósofos árabes e judeus. A princípio, a Igreja resistia e até proibia a leitura de determinadas obras do Estagirita nas Universidades, porém, era avassaladora a influência de nomes como Avicena e Averróis, mesmo entre o clero. A atitude do Magistério foi de prudência, por vezes, proibindo algumas obras, e, por vezes, permitindo outras. Como as traduções das obras do Filósofo se multiplicavam, a atitude da Igreja foi a de responsabilizar, a homens fiéis à fé cristã e com sólida formação teológica, para que se empenhassem em traduzir corretamente as obras do Estagirita, extraindo delas a verdadeira doutrina de Aristóteles. Dentro desse quadro, Tomás foi, sem dúvida, de suma importância.

8 Até o século XII a tradição preponderante na teologia católica era a agostiniana e a filosofia seguia também os passos do seu mestre maior. A ordem mendicante dos frades franciscanos era a mais legítima representante da doutrina do grande Doutor de Hipona. Daí que, por muitas vezes, houve certa tensão entre os espíritos conservadores dos franciscanos, representados pelo seu mestre maior, São Boaventura, e o espírito revolucionário dos frades dominicanos, espelhados na figura e na pessoa de Santo Tomás de Aquino.

9 O principal argumento filosófico ao qual os filósofos árabes sempre recorriam para dizer da impossibilidade de uma prova racional da existência de Deus consiste no fato de que todos os nossos conhecimentos, mesmo os mais abstratos, provinham, primariamente, dos sentidos. Ora, como de Deus não temos nenhuma experiência sensitiva, é-nos impossível obter qualquer conhecimento filosófico dEle. Coube a Tomás refutar esse e outros argumentos que, sem dúvida, na sua visão, provinham de uma leitura equivocada que os árabes faziam dos livros do Estagirita. O Frade de Rocasseca vai dizer que, também o conhecimento que temos de Deus, começa pelos sentidos12. De fato, para ele, a razão pode, inequivocamente, a partir dos sentidos, chegar, com certeza, ao conhecimento da existência de Deus, independente da fé ou de qualquer outra fonte revelada. Com efeito, santo Tomás, com sã audácia, vai dizer que a questão da existência de Deus é necessariamente uma questão filosófica, e não somente teológico-religiosa.

10 O Conhecimento Humano 1. O Conhecimento Sensível Não se trata aqui de uma exposição sistemática da teoria do conhecimento tomista, que é riquíssima, e impossível de ser registrada em sua totalidade em tão poucas linhas. Nossa proposta aqui é, no entanto, delinear alguns tópicos que nos esclareçam o que é mais importante na questão do conhecimento para Santo Tomás. Após sucintas pontuações devemos nos centrar, no tocante ao lugar que Deus ocupa na teoria do conhecimento em Tomás. Tomás é essencialmente aristotélico quando se trata de estruturar a sua teoria do conhecimento. O conhecimento tem origem nos sentidos. Não conhecemos nada que não tenha passado pelos nossos sentidos. O conhecimento sensitivo é a matéria do conhecimento intelectivo.

11 Para o Aquinate nascemos sem nenhum conhecimento, mas apenas com a faculdade de conhecer. Em outras palavras, nascemos com a potência de conhecer, mas não com o conhecimento em ato. Portanto, fica descartada toda espécie de conhecimento inato a respeito das coisas. Ademais, em Tomás, o corpo é necessário, por causa da sua união substancial com a alma, para que haja qualquer conhecimento intelectivo a respeito das coisas. O nosso intelecto, enquanto unido a um corpo, só pode conhecer algo se voltando para as representações imaginárias18 (imagens sensíveis ou fantasmas), representações estas que são formadas pelo sentido comum. Logo, não pode haver, no homem, nenhum conhecimento intelectivo sem o sensitivo.

12 Se partirmos do princípio de que todo conhecimento começa nos sentidos, precisamos, coerentemente, admitir também que De fato, Tomás sempre parte do pressuposto de que os sentidos não nos enganam, mas nos colocam em contato com o real. E, se os sentidos não nos enganam, não é necessário demonstrar aquilo que os sentidos nos atestam com toda certeza, logo, tal conhecimento é evidente para nós. Se partirmos do princípio de que todo conhecimento começa nos sentidos, precisamos, coerentemente, admitir também que os sentidos não nos enganam. Caso se admita o engano dos sentidos, todo o nosso conhecimento está comprometido, visto que, todo o conhecimento humano começa pelos sentidos. os sentidos não nos enganam. Caso se admita o engano dos sentidos, todo o nosso conhecimento está comprometido, visto que, todo o conhecimento humano começa pelos sentidos. Se os sentidos nos enganam, então todo o nosso conhecimento seria enganoso e não teríamos acesso à realidade, pois, quando conhecemos, conhecemos o real, e o conhecemos mediante os sentidos.

13 O Conhecimento Intelectivo O Conhecimento Intelectivo Ora, se todo conhecimento começa pela experiência sensitiva, e, se ao nascermos não temos, evidentemente, nenhuma experiência, então nascemos sem nenhum conhecimento. Porém, se nascemos com os sentidos, e, se o conhecimento nasce nos sentidos, então nascemos com a capacidade de, através do exercício dos sentidos, adquirirmos conhecimento. Porém, o conhecimento humano não pára no sensitivo, pois somos dotados de uma faculdade intelectiva, capaz de abstrair as espécies, não só da matéria, mas das singularidades materiais, conseguindo assim chegar à qüididade, ao universal do objeto. dotados de uma faculdade intelectiva, capaz de abstrair as espécies, não só da matéria, mas das singularidades materiais, conseguindo assim chegar à qüididade, ao universal do objeto. Daí que, para Tomás, o objeto próprio do nosso intelecto é a qüididade ou natureza que existe em meio à matéria corporal.

14 O Conhecimento Humano de Deus Essas verdades os filósofos perscrutaram e demonstraram ao longo dos séculos serem convenientes a Deus.32 O método usado nesta ordem de conhecimento é o seguinte: o homem, pela luz natural da razão e pelas criaturas, sobe até Deus33. Este procedimento filosófico nos dará certas verdades a respeito de Deus. Tendo presentes estes pressupostos, podemos nos dirigir para o conhecimento natural que podemos ter de Deus. É preciso distinguir, quando se fala de Deus, duas ordens distintas de verdades. Existem, pois, aquelas verdades sobre Deus que a nossa razão natural pode admitir.31 Essas verdades os filósofos perscrutaram e demonstraram ao longo dos séculos serem convenientes a Deus.32 O método usado nesta ordem de conhecimento é o seguinte: o homem, pela luz natural da razão e pelas criaturas, sobe até Deus33. Este procedimento filosófico nos dará certas verdades a respeito de Deus. De outra ordem são aquelas verdades que ultrapassam as capacidades naturais da nossa razão.34 Nesta ordem de conhecimento o princípio se inverte: É a verdade divina, que excede o intelecto humano, que desce até nós por revelação.

15 Na visão do Doutor Angélico o conhecimento natural de Deus é o ápice do conhecimento humano.39 Embora imperfeito, este conhecimento é mais amado e mais desejado do que qualquer outro conhecimento humano, por tratar-se de conhecer uma substância superior.40 É melhor conhecer imperfeitamente o perfeito do que perfeitamente o que é imperfeito.41 É por isso também que toda a investigação filosófica tende para o conhecimento de Deus como para o seu fim e a metafísica, que tem como objeto as verdades divinas, deve ser a conclusão de toda a filosofia.42 A despeito destas distinções, é preciso dizer que segundo o Aquinate as duas ordens de conhecimento (natural e de fé) não se contradizem. Isto porque foi Deus que, por sua sabedoria, fez as criaturas e dotou a natureza humana dos primeiros princípios que são a base para o nosso conhecimento natural.

16 A Possibilidade de se Demonstrar a Existência de Deus A Existência de Deus: Evidente em Si mesma e não para Nós Antes de acurarmos se a existência de Deus é ou não é evidente, é necessário saber o que seja uma evidência. Evidência é, antes de tudo, o que não pode não ser visto. Um objeto evidente é de tal forma manifesto à inteligência que esta não pode negá-lo. Na evidência não há nada para se demonstrar. A necessidade da demonstração nasce quando uma verdade não pode ser vista pela inteligência imediatamente. Ora, a manifestação de uma verdade evidente é tão grande que não pode não ser vista pela inteligência.

17 No caso das proposições evidentes em si mesmas e para nós ocorre uma evidência imediata, pois, conhecendo os seus termos, sem precisar raciocinar, chegamos à adesão da certeza da verdade. Uma evidência imediata é quando uma verdade é compreendida em si Para aclarar um pouco mais tudo o que já foi dito, digamos apenas que na doutrina do Aquinate existem duas espécies de evidência: a imediata e a mediata. No caso das proposições evidentes em si mesmas e para nós ocorre uma evidência imediata, pois, conhecendo os seus termos, sem precisar raciocinar, chegamos à adesão da certeza da verdade. Uma evidência imediata é quando uma verdade é compreendida em si mesma e não por outra verdade. mesma e não por outra verdade. Quanto a uma proposição evidente em si mesma e não para nós, esta proposição só se torna evidente para nós por meio de demonstração. Evidência mediata é aquela que ocorre somente com a mediação do raciocínio. São verdades que se tornam claras por outras verdades. No caso da proposição Evidência mediata é aquela que ocorre somente com a mediação do raciocínio. São verdades que se tornam claras por outras verdades. No caso da proposição Deus existe trata-se de uma evidência mediata, porque ela só se torna evidente para nós quando a demonstramos pelo raciocínio.

18 A Possibilidade da Demonstração da Existência de Deus Estabelecida a dependência que o mundo tem de uma causa primeira, segue-se necessariamente a existência dessa causa. Mas antes de considerarmos o mundo como efeito de Deus, precisamos demonstrar que o mundo é um efeito. Em provando que o mundo é efeito, estabelecemos a existência da causa. Já que não possuímos uma definição de Deus, não temos como partirmos da definição para provarmos a sua existência. Resta-nos partir dos seus efeitos. É bom não esquecer que Tomás irá verificar exatamente se o mundo é um efeito que depende de uma causa. Estabelecida a dependência que o mundo tem de uma causa primeira, segue-se necessariamente a existência dessa causa. Mas antes de considerarmos o mundo como efeito de Deus, precisamos demonstrar que o mundo é um efeito. Em provando que o mundo é efeito, estabelecemos a existência da causa. Ora, um ser cuja essência é idêntica à existência e do qual dependem, como o efeito da causa, todas as coisas, só pode ser chamado de Deus. Mas ainda não é tudo. Teremos que verificar, ainda pelos efeitos, de que natureza é essa causa, de que ordem são os seus atributos. Se nessa causa for constatada uma natureza tal que em sua essência já esteja incluída a sua existência, então teremos chegado ao término do nosso objetivo. Ora, um ser cuja essência é idêntica à existência e do qual dependem, como o efeito da causa, todas as coisas, só pode ser chamado de Deus. Se Deus existe, e se é causa de todas as coisas, todas as coisas devem depender dele para existir. Ficará assim, pois, esclarecido para nós que a proposição Deus existe não é mera quimera, mas corresponde com a realidade.

19 Nunca é demais lembrar que o que vai nos guiar a todas essas conclusões são os efeitos evidentes aos nossos sentidos. O procedimento da demonstração é do efeito à causa, do que é anterior para nós para o que é anterior de modo absoluto. Em outras palavras, processo da prova é todo a posteriori.

20 As Cinco Vias Para se Provar a Existência de Deus. As Cinco Vias A consistência da prova está em que, sem uma causa transcendente, o mundo não pode existir; mas como o mundo existe, tem que existir a causa transcendente sem a qual ele não poderia existir. O fator determinante da prova da existência de Deus é a existência do mundo como seu efeito. Todas as cinco vias partem de realidades materiais evidentes aos nossos sentidos. A consistência da prova está em que, sem uma causa transcendente, o mundo não pode existir; mas como o mundo existe, tem que existir a causa transcendente sem a qual ele não poderia existir. Na verdade, as cinco vias são cinco modos de se chegar a um mesmo lugar: o efeito existe; logo, existe a causa. São cinco vias, mas uma prova. Cinco vias que fundamentam uma única prova.

21 Primeira via: a prova pelo movimento A primeira via de raciocínio para chegar ao conhecimento da existência de Deus é a prova do movimento. Em linguagem corrente, movimento significa mudança de local. Ao andar de um lugar para outro, exerço um movimento. No entanto, há também um outro sentido da palavra movimento. O movimento significa qualquer modificação dos seres. Em outras palavras, há dois tipos de movimento: o primeiro é o movimento de lugar dado na locomoção que um ser corpóreo faz, de um lugar ao outro; o segundo, é o movimento de sucessão que ocorre no crescimento de uma criança até o seu pleno grau de amadurecimento. Ambos movimentos são facilmente perceptíveis pelos sentidos. Antes do movimento todos os seres estão em potência[2], isto é, possuem uma possibilidade de se tornarem diferentes do que são. Em filosofia este fenômeno denomina-se atualizar-se. Um corpo frio em ato pode vir a ser quente, ou seja, ele é quente em potência. Movimento é, portanto, qualquer passagem de potência para ato(Atualização). Em outras palavras, o ato é a realização enquanto a potência é a possibilidade de realização. Por exemplo, uma semente em ato é uma semente, mas em potência, é uma árvore. [2]

22 O movimento não é a sucessão de dois estados, mas a passagem que um ser faz de um estado para o outro. Por exemplo, o fogo que é quente em ato, torna a madeira que está em potência para o calor, quente em ato. Deste modo, há uma realidade que permanece sob os dois estados, e a mudança consiste em receber aatualização do segundo estado (frio), pelo qual a coisa (a madeira) fica agora existindo de outro modo (quente), isto é, modificada. A mudança portanto inclui sempre uma aquisição de algo que antes o ser não possuía. Dado ser evidente a todos, esta experiência dos sentidos, São Tomás a toma como ponto de partida da primeira via racional a provar a existência de Deus: Nossos sentidos atestam, com toda certeza, que neste mundo algumas coisas se movem. Ora, tudo o que é movido é movido por outro. Nada se move que não esteja em potência em relação ao termo de seu movimento; ao contrário o que se move o faz enquanto se encontra em ato (S. Th. I, q.2, a. 3).

23 Tudo se move, tudo muda, tudo passa de um estado para outro, não somente no sentido do movimento local, mas de mudança substancial, como na geração de novas substâncias (a madeira pode se tornar carvão). Também acidental, como o aumento ou diminuição quantitativa (o filhote cresce e torna-se adulto). E como variação quantitativa, quer na ordem material quer na ordem espiritual (maior peso, mais graça). Assim, se o que move é também movido, o é necessariamente por outro, e este por outro ainda. Ora, não se pode continuar até o infinito, pois neste caso não haveria um primeiro motor, por conseguinte, tampouco outros motores, pois os motores segundos só se movem pela moção de outro motor. Logo, é então necessário chegar a um primeiro motor, não movido por nenhum outro, e este, todos entendem: é Deus (S. Th. I, q.2, a. 3).

24 O Primeiro Motor – Deus – é puro ato, existência subsistente. Deve ser ato, pois sendo movente, deve ter em ato a perfeição que ele comunica; deve ser puro, sem mistura de potencialidade, pois é movente imóvel e imutável. Logo, o movente imóvel é puro ato enquanto existente: é a Existência mesma subsistente [3]. [3] Só é independente na sua atividade quem é a própria atividade, e só é a atividade quem é a existência; só comunica a perfeição quem produz a existência desta, e só pode ter por efeito próprio fazer existir quem é a existência. Logo, o primeiro movente imóvel é a sua existência: DEUS.

25 Segunda via: prova pela causa eficiente Conforme a primeira via, uma semente tem a possibilidade de tornar-se (atualizar-se) em árvore. Já na segunda nos deteremos em mostrar que a semente para ser árvore, necessita de causas entre si subordinadas, ou seja, que dependam umas das outras no agir e no existir. Sem a terra, o ar, a água, o sol, etc., a semente não encontraria condições para o seu desenvolvimento. Assim, o clima e as substâncias que alimentam a planta são causas de vida para o vegetal. Seria portanto uma loucura afirmar que a semente é causa de si mesma, pois para ser sua própria causa necessitaria existir antes de si mesma. A segunda via segue substancialmente o mesmo caminho da primeira. Porém, não se baseia na mudança e passividade dos seres, e sim, na dependência e causalidade que há nas atividades deles. É muito clara a semelhança entre a primeira e a segunda via, pois ambas nos levam à necessidade de uma causa inicial. Entretanto, consideramos anteriormente a existência e a necessidade de uma causa motriz, e agora trataremos de considerar a obrigatoriedade de existir uma causa eficiente[4]. [4]

26 Ao observarmos a criação, notamos nas coisas sensíveis uma relação de causas. Desta forma, não se pode encontrar um ser que seja sua própria causa eficiente. Sendo a causa anterior ao efeito, seria absurdo, considerar um ser que fosse a sua própria causa eficiente, pois seria ele anterior a si mesmo. Entretanto não é possível levar ao infinito a série de causas eficientes. Isto posto, ficam evidentes duas possibilidades: que algo seja causa de si próprio e que a série de causas seja remontada ao infinito. Há, pois, uma ordem de causas em que a primeira é a causa da segunda, esta, da terceira e assim sucessivamente até a última. Tanto numa causa intermediária que une a primeira à última como numa variedade de outras causas intermediárias, a causa primeira é a causa do último efeito, de tal forma que suprimindo a causa suprime-se o efeito, e se não há um primeiro termo nas causas, não haverá nem intermediário nem último. Há, pois, uma ordem de causas em que a primeira é a causa da segunda, esta, da terceira e assim sucessivamente até a última. Tanto numa causa intermediária que une a primeira à última como numa variedade de outras causas intermediárias, a causa primeira é a causa do último efeito, de tal forma que suprimindo a causa suprime-se o efeito, e se não há um primeiro termo nas causas, não haverá nem intermediário nem último. As causas intermediárias são, por conseguinte, efeitos da causa originária. Não se admite efeitos sem causa, segundo o princípio básico de causalidade[5].[5]

27 Assim, as causas subordinadas dos seres levam-nos direta e imediatamente a uma causa eficiente primeiracom certo atributos: Não subordinada e incausada, pois não pode ser causada por outra, caso contrário não seria a primeira, nem poderia ser absolutamente independente no agir e no causar[6]. A esta causa eficiente primeira chamamos: DEUS. Esta causa é Infinitamente perfeita, porque sendo a existência mesma subsistente, é tudo o que pode existir, isto é, todos os modos de ser, todas as perfeições; Imaterial, porque a matéria é potência. Ora, a causa primeira não sofre mudanças por ser ela ato puro; Inteligente, porque a imunidade e exceção da matéria é a causa da faculdade intelectual, que se caracteriza por se fazer atualmente inteligíveis as formas materiais abstraindo-as da matéria e das condições da matéria; Não subordinada e incausada, pois não pode ser causada por outra, caso contrário não seria a primeira, nem poderia ser absolutamente independente no agir e no causar[6]. A esta causa eficiente primeira chamamos: DEUS.[6]

28 Terceira via: prova pelo ser necessário A terceira via também faz o caminho semelhante ao das anteriores. Entrando mais intimamente na essência dos seres do universo, procura o ponto de partida na entidade destes seres contingentes, ou seja, dependente de outro ser necessário para existir. O contingente[7] é qualquer ser que existe, mas poderia não existir, por não ter em si mesmo, em sua essência, a razão de sua existência. Por exemplo, uma criança para se desenvolver e sobreviver necessita de minerais, vitaminas, nutrientes, etc., encontrados no leite materno. A criança é contingente ao colo da mãe.[7] Agora, a ideia de contingente está em oposição à de necessário. O necessário é, pois, o ser existente que de modo algum pode não existir, porque tem em si a razão absoluta de sua existência. Contendo na sua própria essência a sua existência, seria absurdo não existir. Expostos os conceitos de contingente e necessário chega-se a uma conclusão óbvia que a existência do contingente está justificada no ser necessário que a comunica.

29 Com efeito, tudo o que pode ser ou não ser, é mutável. Já que o ser necessário tem que ser imóvel, como São Tomás demonstrou na primeira via, não há nele possibilidade de ser ou não ser. Desta forma, todo ser que é, e que é impossível que não seja, é necessariamente. Porque a possibilidade de existência e de não existência significa a mesma coisa. Além disso, os seres que possuem a possibilidade de ser ou não ser necessitam de outro ser que seja distinto deles, que lhes comunique o ser, por ter aptidão na sua natureza para tal. Visto que o ser que comunica o existir é anterior ao que recebe, é necessário afirmar a existência de um ser anterior ao que possui a privação de ser por si. Em última análise, nada existe senão pelo ser que é a existência subsistente, nada possui a beleza senão pela beleza subsistente, nada possui o bem senão pela bondade subsistente, nada está em ato senão pelo ato puro[8]. [8]

30 Admitir um contingente existente incausada, é admitir um ser que tem e não tem em si a razão suficiente de sua existência: o que é contraditório. Logo, a existência do contingente implica forçosamente a existência da sua causa. Esta causa existe necessariamente por si ou o recebe de outrem a sua existência. Ora, sem um ser que exista por si mesmo, nada existe, pois alguma coisa não pode vir a ser do nada: deste modo nada existiria. Por conseguinte, não pode uma série ser contingente sem que haja fora dela um ser primeiro não causado, que possua na sua essência sua existência e possa ser a fonte da essência dos seres. Portanto, os seres contingentes exigem a existência de um ser que não tenha começado a existir; um ser não causado, que exista por si mesmo, que tenha existido sempre e que seja necessário aos demais. Este ser necessário encontra na sua própria essência sua existência que é infinita, caso contrário estaria criando outro ser infinito e necessário, e este, outro e assim sucessivamente. Portanto, os seres contingentes exigem a existência de um ser que não tenha começado a existir; um ser não causado, que exista por si mesmo, que tenha existido sempre e que seja necessário aos demais. Este ser necessário encontra na sua própria essência sua existência que é infinita, caso contrário estaria criando outro ser infinito e necessário, e este, outro e assim sucessivamente. Ora, a série de contingência segue ao infinito. Assim, os seres criados têm por um lado a essência e, por outro, tanta existência quanto sua essência possa permitir, ou seja, têm uma limitação própria à sua essência[9]. Desta forma, é necessário afirmar a existência de um ser necessário por si mesmo e que é a causa e a necessidade de todos os outros: DEUS.[9]

31 Quarta via: prova pelos graus de perfeição dos seres Esta via não evidenciará a mudança, a atividade, a geração ou corrupção, mas a limitação com que certas perfeições existem nos vários seres. Em outras palavras, os graus de bem que residem nas criaturas. Vemos nos seres que uns são mais ou menos bons, verdadeiros e nobres que os outros. Assim, ninguém duvida que o homem é mais perfeito que o animal; o animal mais que o vegetal; e este mais que o mineral. O mesmo deve-se dizer da bondade, da verdade, da nobreza e das outras perfeições semelhantes, as quais encontra-se em todos os seres segundo uma diversidade de graus, em virtude da qual alguns seres são mais perfeitos que outros. São Tomás de Aquino observa que encontra-se nas coisas algo mais ou menos bom, mais ou menos verdadeiro, mais ou menos nobre etc. Ora, mais e menos se dizem de coisas diversas conforme elas se aproximam diferentemente daquilo que é em si o máximo.[10] [10]

32 Em outras palavras, mais ou menos não diz respeito às coisas em si, mas sim, no tanto em que elas se aproximam em graus diversos do que é em grau máximo. Por exemplo, algo torna-se mais frio quando se aproxima do frio em grau máximo. Desta forma há algo que é em grau supremo o bem, a verdade, a nobreza e, por sua vez, o grau máximo do ser. Assim, o que é o grau máximo do gênero é causa e medida de todo esse gênero:O gelo que é grau máximo de frio, é causa e medida de todo frio. Em outras palavras, mais ou menos não diz respeito às coisas em si, mas sim, no tanto em que elas se aproximam em graus diversos do que é em grau máximo. Por exemplo, algo torna-se mais frio quando se aproxima do frio em grau máximo. Desta forma há algo que é em grau supremo o bem, a verdade, a nobreza e, por sua vez, o grau máximo do ser. Assim, o que é o grau máximo do gênero é causa e medida de todo esse gênero: O gelo que é grau máximo de frio, é causa e medida de todo frio. Da existência destas perfeições limitadas e graduadas deduz-se a existência de um ser perfeitíssimo. Ser sublime no qual residem todas as perfeições em seu grau sumo. João Ameal conclui que, Há, então, um ser soberanamente belo soberanamente bom, soberanamente perfeito. Mas aquilo que é soberano, supremo em algum gênero, é causa de todos os seres do mesmo gênero.[11] [11]

33 Já Santo Agostinho se refere aos antigos filósofos por terem visto que em todas as coisas mutáveis o modo pelo qual um ser é o que é só lhe virá do ser verdadeiro e imutável por essência: Compreenderam, além disso, que em todo ser que muda, toda forma que o faz ser o que é, qualquer que seja sua natureza e os seus modos, não pode ela mesma existir senão por Aquele que é verdadeiramente porque é imutavelmente. É daí que, quer seja o corpo do mundo inteiro, a sua estrutura, as suas propriedades, o seu movimento regular, os seus movimentos escalonados do céu à terra e todos os corpos que ele encerra; quer seja toda a vida: a que sustenta e mantém o ser, como nas árvores; a que, além disso, possui sensibilidade, como nos animais; a que acrescenta a tudo isto a inteligência, como nos homens; ou a que, sem necessidade de mantimentos, se mantém, goza de sentimentos e de inteligência como nos anjos, não pode manter o seu ser senão dAquele que simplesmente é.[12]Compreenderam, além disso, que em todo ser que muda, toda forma que o faz ser o que é, qualquer que seja sua natureza e os seus modos, não pode ela mesma existir senão por Aquele que é verdadeiramente porque é imutavelmente. É daí que, quer seja o corpo do mundo inteiro, a sua estrutura, as suas propriedades, o seu movimento regular, os seus movimentos escalonados do céu à terra e todos os corpos que ele encerra; quer seja toda a vida: a que sustenta e mantém o ser, como nas árvores; a que, além disso, possui sensibilidade, como nos animais; a que acrescenta a tudo isto a inteligência, como nos homens; ou a que, sem necessidade de mantimentos, se mantém, goza de sentimentos e de inteligência como nos anjos, não pode manter o seu ser senão dAquele que simplesmente é.[12][12]

34 Por esta razão, São Tomás ao explicar que se alguém indo a uma casa e desde a porta fosse sentindo calor e cada vez que mais nela penetrasse mais calor sentisse, evidentemente perceberia que havia fogo no seu interior, mesmo que não estivesse vendo o fogo. Acontece o mesmo conosco ao considerar as coisas deste mundo. Todas as coisas estão ordenadas conforme diversos graus de beleza e de nobreza, e quanto mais estão próximas de Deus, tanto melhores e mais belas são. Ora, os astros são mais nobres e mais belos que os corpos inferiores; as coisas invisíveis, que as visíveis.[13] [13] Deste modo a quarta via, para achar a razão suficiente das perfeições existentes no mundo, nos conduz necessariamente à existência real de um Ser perfeito, único e simples, o qual é evidentemente distinto dos seres do universo: DEUS.

35 Quinta via: prova pela ordem do universo Se considerarmos a ordem existente no universo, desde os componentes microscópicos existentes numa planta até os gigantescos astros do firmamento; a harmonia, a atividade e relação entre eles, facilmente chegamos à seguinte conclusão: houve uma Inteligência que criou e ordenou tudo isto, caso contrário seria absurdo dizer que isto é fruto do acaso. De fato, apenas a inteligência pode ser razão da ordem, quer dizer, da organização dos meios em vista de um fim, ou dos elementos em vista do todo que eles compõem: os corpos ignoram os fins e, por conseguinte, se os corpos ou os elementos conspiram em conjunto, é necessário que sua organização tenha sido obra de uma inteligência.[14]De fato, apenas a inteligência pode ser razão da ordem, quer dizer, da organização dos meios em vista de um fim, ou dos elementos em vista do todo que eles compõem: os corpos ignoram os fins e, por conseguinte, se os corpos ou os elementos conspiram em conjunto, é necessário que sua organização tenha sido obra de uma inteligência.[14][14][14]

36 Os seres que carecem de conhecimento não podem rumar aos seus respectivos fins sem que haja um ser que conheça tais fins. Assim, uma flecha não pode atingir o alvo sem o arqueiro que a dispare. Garrigou-Lagrange explica que: os seres privados de razão não tendem a um fim se não são guiados por uma inteligência, como a flecha pelo arqueiro. Com efeito, uma coisa não pode estar ordenada à outra senão por uma causa ordenadora, que necessariamente deve ser inteligente, sapientis est ordinare. Por que? Porque só a inteligência conhece a razão de ser das coisas.[15] [15]

37 Isto posto, que inteligência ordena o universo? Obviamente há de ser diferente dos seres da natureza, porque os minerais e vegetais são desprovidos da ciência das coisas e os animais não possuem intelecto. Deve ser também diferente da inteligência humana, que apesar de perceber e explicar a ordem que existe, não a cria. Tem que ser, pois, a suma inteligência, dado que a ordem do universo supõe um ser que possua a ciência de todos os seres e suas propriedades. Por isso conclui Garrigou- Lagrange: Os animais conhecem sensivelmente o objeto que constitui seu fim, mas neste objeto não percebem a razão formal do fim. Por conseguinte, se não houvesse uma inteligência ordenadora, que governasse o mundo, a ordem e a inteligibilidade, que há no universo e que as ciências descobrem, proviria da inteligibilidade, e ainda mais, nossas próprias inteligências proviriam de uma causa cega e ininteligível; uma vez mais, o mais sairia do menos, o que é absurdo.[16]Os animais conhecem sensivelmente o objeto que constitui seu fim, mas neste objeto não percebem a razão formal do fim. Por conseguinte, se não houvesse uma inteligência ordenadora, que governasse o mundo, a ordem e a inteligibilidade, que há no universo e que as ciências descobrem, proviria da inteligibilidade, e ainda mais, nossas próprias inteligências proviriam de uma causa cega e ininteligível; uma vez mais, o mais sairia do menos, o que é absurdo.[16][16]

38 É indispensável afirmar que a Inteligência Criadora e Ordenadora do universo é Infinita e Divina. Um ser natural, na sua criação não é precedido por nada e suas propriedades e capacidades provém de sua própria essência. Daí a ordem interna de cada ser e, por consequência, das relações destas essências entre si, resulta a ordem externa do universo. Sendo a causa total de toda ordem, o Autor destas essências deve ser também Criador, por tirá-las do nada. Portanto a Inteligência ordenadora é também Criadora. Ademais, esta inteligência não pode ter sido criada, porque seria como qualquer outro ser existente e não ordenaria, mas seria ordenada por uma outra inteligência. Sendo a causa total de toda ordem, o Autor destas essências deve ser também Criador, por tirá-las do nada. Portanto a Inteligência ordenadora é também Criadora. Ademais, esta inteligência não pode ter sido criada, porque seria como qualquer outro ser existente e não ordenaria, mas seria ordenada por uma outra inteligência. Por fim, a Inteligência ordenadora deve ser também por si subsistente e infinita. A este ser Criador, Subsistente por si e Infinito, chamamos: DEUS.

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