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Andei pensando.... Coletânea de crônicas livres disponibilizadas no site www.guilhermedavoli.com.br faça uma visita e cadastre-se para receber novos textos.

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1 Andei pensando...

2 Coletânea de crônicas livres disponibilizadas no site faça uma visita e cadastre-se para receber novos textos Melhor visualização com Office 2010/2013 Clique para acessar os textos

3 02 O doce badalo das seis da tarde Os tempos atuais sugerem uma gama infindável de observações quanto à pressa que se estabeleceu na vida de todos nós. De tanto observar a correria de todos, acabamos por acreditar que também precisamos correr, mesmo sem saber “de que” ou “para que”. É tanta loucura, que chega a parecer absurdo quando recordarmos o tempo disponível que tínhamos, e não valorizávamos, há poucas décadas atrás. Como viver nesse mundo do tempo de menos e coisas de mais, sem celular de última geração, computador que caiba na palma da mão, caixa eletrônico de banco, cartão de crédito, motor fléx, MP3 ou 4, e outros equipamentos essenciais, criados para não se perder tempo. Quanto é pouco ou muito tempo? É possível imaginar um mundo em que o tempo não fosse um problema?

4 Os mais novos podem até não acreditar, mas esse mundo já existiu e, como nessa vida nada se cria, tudo se copia, proponho que tentemos a reedição daquele tempo. Aprendia-se muito com menos horas de aula, mais espaço para se divertir, futebol na rua e não escolinha, com uniforme e horário predefinido. Trabalhava-se o dia todo e ainda era possível se fazer compras e ir ao banco durante o expediente, já que banco e comércio, à exceção da época do Natal, não abriam à noite ou finais de semana. Almoço e jantar eram realizados em casa e em volta da mesa, com toda a família reunida, já que o horário de todos podia ser sincronizado. Aprendíamos o tempo todo, pois aprendíamos não pela obrigação de vencer na vida, mas porque a característica humana da curiosidade se sobrepunha a tudo. Quem está vivo quer conhecer seus arredores físicos e sociais. E o sino? Aquele que sagradamente badalava com todas as forças, quando os ponteiros dividiam o dia em duas fatias iguais: a do antes e a depois. Como era bom ouvir aquele badalo das seis horas da tarde. Era como um ritual de passagem que conseguia findar a jornada das obrigações dando início à jornada do deleite, da convivência e do “nada a se fazer”. Chegava a hora de se “jogar conversa fora” (aquilo que só joga quem tem de sobra), para se dar espaço para novas e promissoras ideias. Sei que é sempre mais fácil a busca de paraísos perdidos no passado, e que o difícil sempre está em se descobrir soluções práticas e satisfatórias, para problemas atuais. Sei também, que a expressão “naquele tempo...”, muitas vezes serve de desculpa para os passos que não damos. Será que de tanto ter que olhar para fora e para frente acabamos por acatar a ordem social de não mais olharmos para dentro? Adaptando uma frase do educador Celso Vasconcellos, podemos dizer que “muitas vezes, o que estressa não é a sobrecarga do trabalho, mas a falta de sentido do mesmo”. Não é a sobrecarga da vida, mas a falta de sentido em nosso dia a dia.

5 0405 A ignorância é uma benção Em um mundo e momento que tanto valoriza a informação e o conhecimento das mais diferentes “coisas”, o que possibilita, a qualquer cronista de plantão, o direito de interpretar atos e sentimentos alheios, quer de pessoas ou instituições, fica uma indagação constante: “o saber propicia ou desequilibra a paz interior?” Quando a banda britânica Supertramp disse que ”... às vezes, quando o mundo inteiro está dormindo, os questionamentos são profundos demais para um homem tão simples” (The logical song/1979), abordava-se o porquê de termos que ser tão precisos, intelectuais, e até mesmo cínicos, para conseguir sobreviver se sobrepondo ao mundo em redor Ah, quanta falta nos tem feito um badalo ou “chacoalhão” que nos toque e retoque nossos passos. Hoje muito fazemos, sem saber o porquê de toda essa atividade. Ninguém mais avisa a hora de parar. Ninguém mais nos lembra, quando é chegada a hora de aproveitar o viver, como uma criança que acorda e dorme brincando, ciente do quanto merece estar bem. Por favor, não me chame de sonhador. Apenas acredito que se realmente estivéssemos buscando a tão desejada “qualidade de vida”, observaríamos um pouco mais as pessoas e os fatos felizes que muitas vezes estão a nossa volta, porém em embalagens diferentes daquelas que gostaríamos de encontrar. Observar o mundo em toda e qualquer forma que ele se apresente, sem a preocupação ou necessidade de criticá-lo é um bom começo para aqueles que desejam parar com essa de “não aguento mais” ou “não tenho tempo”. Instale um sino na varanda de tua casa e, caso esqueça, peça que alguém o badale, para que você seja alertado quando for chegada a hora de viver teu tempo, e não a falta dele.

6 06 07 Tenho assistido, tanto em minha vida pessoal quanto na de tantas outras pessoas que esbarram a todo o momento comigo, uma irritabilidade constante, quase crônica, por termos de conviver com especulações, jogos de interesses, soberba e mentiras dentro dos mais diversificados meios, que vão desde a política a empresas, e até mesmo escolas e igrejas. Chega a parecer que para a maioria das pessoas, tudo pertence ao homem e que somente a ele cabe a prazerosa obrigação de julgar e decidir os desígnios dessa ou daquela instituição ou pessoa. Adora-se o status de “brincar de Deus”, buscando o controle de tudo com as próprias mãos, claro que tendo os próprios interesses como referência. Quanta saudade do tempo em que me dava ao deleite “do saber” como enriquecimento pessoal e, quando necessário, instrumental de ajuda ao outro. Que saudade do tempo em que “por pouco saber e mais confiar”, dormia mais serenamente. Atualmente tenho exercitado uma atitude que com certeza não condiz com aquilo que esperam de mim. Tenho evitado saber a maioria dos por quês. Não estou fugindo à responsabilidade de opinar no mundo em que vivo; apenas estou procurando filtrar o que posso, ou que não esta em minhas mãos. Sofrer por causas perdidas ou debater com pessoas que sempre carregam suas verdades bem pré definidas, nunca se predispondo ao novo, só cansa nossa beleza e fragiliza nossa esperança. Nunca devemos desistir daquilo que consideramos certo, porém faz bem observar que na maioria das vezes não existe um único caminho que obrigatoriamente deva ser seguido, e que novos ares costumam fazer muito bem a toda e qualquer situação. Pena que nossas instituições que tanto pregam a ousadia, o networking e a motivação, sejam tão medíocres em suas atitudes. Sustentam-se no discurso pelo discurso. Palcos de novidades em templos de insegurança

7 06 07 Conhecimentos existem para ser explorados e vivenciados, mas para isso é indispensável que contemos com pessoas abertas a diálogos e verdades, o que não combina com jogos, quer dessa ou daquela estirpe. Trabalho com pessoas que sofrem. Eu também sofro quando ouço muito e vejo quase nada, que não por acaso é o que mais tenho visto ultimamente. Preciso confessar que ando pecando o pecado da inveja. Como invejo o sono de minhas filhas que ainda, e quem sabe por quanto tempo, vivem mais atreladas às verdades e projetos do que às ganâncias e falta de direção daqueles que insistem em se autointitular de líderes. Que pena eu ter que acreditar que a ignorância, muitas vezes, é uma benção. Amo tudo aquilo que espero de você. Tanto se fala a respeito das dificuldades de se conviver nos dias atuais, destacando a ideia de que no passado é que era bom, que por vezes acabamos colocando toda a culpa de nossa dificuldade de comunicação e vivência, nas costas do tempo. Porém, em meu ponto de vista, a maior parte dos motivos que nos tem levado a tanta dificuldade, ou resistência nas relações, é simplesmente medo. Objetivamente, define-se medo como uma “sensação de insegurança diante do desconhecido”, o que aparentemente explicaria esse problema. Como cada pessoa se renova a cada nova manhã, acabo diariamente cercado de “ilustres desconhecidos”, mesmo quando esses fazem parte daqueles com quem me relaciono frequentemente. Isso para não falar de certas pessoas que, por razões concretas ou estéticas, automaticamente fazem parte do rol daqueles que fui educado a temer e rejeitar

8 06 07 Diante desse conjunto de incertezas, e com o intuito de nos prevenir de futuros riscos de convivência, tendemos a criar modelos ideais de amigos, colegas ou até mesmo amores. Estipulado o molde de segurança, tendemos a rejeitar qualquer pessoa que não venha a se adaptar cem por cento a esse padrão, já que para a maior parte das pessoas, margem de erro é algo que existe para ser evitada. Sei que a ideia de resguardo diante das instabilidades da vida, é vista como óbvia, principalmente no momento atual, em que recebemos toda uma avalanche de notícias assustadoras a todo o momento, porém não se pode esquecer que é apenas quando experimentamos a diversidade humana, que podemos experimentar a diversidade de habilidades que possuímos. Temos tanto receio daquilo que inesperadamente pode vir de alguém, que, mesmo na presença daqueles que mais acreditamos conhecer e amar, ficamos na espreita e extremamente desejosos que a pessoa venha a apresentar as frases e ideias que desejamos ouvir. O estranho é que mesmo quando já conhecemos a forma de interpretação que certas pessoas apresentam diante do mundo, continuamos a nos irritar quando elas repetem esses conceitos que não admitimos. No fundo, chegamos a condicionar nosso amor a um grupo de atitude que “exigimos” que o outro apresente. Só aceitamos amar aquilo que previamente decidimos, e passamos a esperar das outras pessoas. É como se eu, em uma declaração de amor, disse-se que “amo tudo aquilo que espero de você”, e não aquilo que você me revela. Não parece uma loucura, quando se ouve da boca de um jovem, ou nem tanto assim, que, apesar de estar apaixonado prefere ficar só, pois a amada tem muitas manias, ou em outras palavras não é exatamente aquilo que ele sonhou para si. É muita covardia exigir que as pessoas que nos rodeiam existam apenas para nos completar

9 06 07 Amor é algo que se constrói e construções, por mais bem projetadas e presas a um cronograma, sempre experimentam adversidades, opiniões e interferências alheias. Só depois de superadas as dificuldades e intempéries do tempo, é que podemos observar a grandeza da obra, que se iniciou no alicerce. O tempo existe para que aprendamos a nos administrar dentro dele. Á exemplo de projetos arquitetônicos, amizades e amores sempre se iniciam em alicerces, enfrentam dias inesperados, e vão reorganizando seus próprios planos. Enquanto alguns persistem em criar formas estanques para acomodar suas relações, os mais serenos continuam a se arriscar na feliz possibilidade de novos e sempre estimulantes relacionamentos. A que grupo você pertence? A que grupo você pretende pertencer? Festejatória “Haverá um tempo em que você não haverá de ser feliz...”; se essa é uma frase aparentemente triste (Marcelo Jeneci na música “Felicidade”) em outra canção a banda Pato Fú nos alerta com a expressão “Vai diminuindo a cidade... vai aumentando a simpatia, quanto menor a casinha, mais sincero o bom dia...” logo nos primeiros acordes de “Simpatia”. Duas formas bastante interessantes para reinterpretarmos as várias nuances do passar das vidas a nossa volta. Muito bacana se perceber o quanto que palavras sutis são capazes de retratar de forma tão intensa o óbvio que muitas vezes não queremos ver, quer por tanto estarmos focados em metas sempre prioritárias ou por trabalharmos com o errado conceito de que apenas o que é denso, sofisticado ou acadêmico é que pode contribuir para nosso crescimento

10 06 07 Recentemente assisti a um vídeo em que o preletor, ao se referir a uma tragédia pessoal superada nos últimos momentos, disse ter mudado dois hábitos; o primeiro deixar de querer ser “o certo” para passar a ser “o feliz”, e o segundo que deixaria de colecionar ótimos e caros vinhos, sagradamente armazenados nas prateleiras da adega, e passaria a colecionar os médios e baratos que, sem cerimonia, são abertos a qualquer momento para se comemorar praticamente qualquer coisa boa. Esse conjunto de ideias que acabei de colocar vem me incomodando já há algum tempo, pois periodicamente tenho acompanhado pessoas que não mais conseguem se alegrar com os pequenos, mas consistentes e intermitentes, prazeres que nos são proporcionados. Tudo em razão de um absurdo contexto que persiste em nos dizer que ser feliz só é permitido para aqueles que galgam as grandes vitórias e, assim mesmo, sem o direito de fracasso posterior. Se você faz parte desse quadro, te peço que dedique um pouquinho de teu tempo para uma reflexão básica: nascemos festejando e sendo festejados. Sobra alegria pra todo lado. Com raras exceções, nossa chegada a esse mundo é uma verdadeira estreia cercada de expectativas e projetos e, passado o choro da palmadinha essencial, já vamos entrando em clima egocêntrico tipo assim “tô aqui pra ser feliz”. Tudo belissimamente correto. A criatura se alegrando com a presença do Criador em todos os detalhes ao seu redor. Tudo parece ser interessante, valioso e digno de nosso desejo. Mas, nos últimos tempos, que sinceramente não consigo traduzir em números, essa humana característica de, tendo desejos, busca-los por todas as vias, se deliciando com as conquistas ou ao menos aprender com os insucessos, vem ficando escondida atrás do medo daquilo que outros possam julgar a nosso respeito. Sem cerimônias, falamos desse medo do futuro, como se o mesmo fosse estranho e inconcebível. Futuro existe para se ter medo mesmo, pois tememos tudo aquilo que desconhecemos. Tudo isso é muito normal. Errado, ou até mesmo loucura é querermos esse domínio sobre tudo

11 06 07 Estamos substituindo a alegria do ato de sorrir enquanto fazemos ou esperamos algo acontecer, pela mecânica sisudez, de têmporas franzidas no aguardo da grande meta a ser alcançada a todo custo. Desgastamo-nos tanto nesse processo de auto boicote que, quando alcançado o objetivo, parece que o único desejo plausível que nos resta é descansar. Mas, se o mais comum é o time campeão comemorar por dias enquanto o derrotado se retira para o descanso e meditação, porque será que mesmo vitoriosos, ou felizes com boas notícias chegamos a parecer como soldados abatidos no final de uma batalha? Está ai algo que me deixa indignado: “pessoas, que não exercitam o ato de brindar os pequenos bons momentos”. Como pode ser essa coisa doida, de “descansar de ser feliz”? Está me parecendo que da mesma forma como estamos sendo levados a reaprender a óbvia necessidade do ato de caminhar e prestar atenção aos alimentos para nos salvarmos das venenosas facilidades enlatadas ou distribuídas em outras diferentes formas de acomodação, estamos precisando redescobrir a naturalidade da comemoração pelo viver. Temos que recomeçar a treinar a recepção da felicidade, diminuindo nossa timidez diante da mesma e não nos sentindo culpados por sermos detentores desse sentimento, em um mundo que insiste em propagar que sofrer e reclamar da vida são símbolos da normalidade. Não posso me culpar de estar em um momento de bem estar. Aprender a festejar é aprender a reutilizar nossos órgãos sensoriais em prol de uma percepção mais aguçada dos estímulos a nossa volta, usufruindo de cada passo da travessia e não apenas dos objetivos finais. Faça festa, contagie e ensine os seus a se exercitarem nessa prática. Garanto que um dia irão te agradecer. Então, não se esqueça de sempre ter um bom e barato vinho guardado em tua dispensa, pois nunca se sabe o que teremos de festejar a qualquer momento. Deleite-se com as boas novas por menores que sejam

12 06 07 Adultos são crianças desencantadas Entre as dores e alguns desencantos vamos aprendendo a trabalhar e conviver com as perdas de nossa vida. Querendo ou não, perdemos, para sempre ou temporariamente, pessoas, dinheiro, status e objetos, o que indiretamente vai nos proporcionando a própria perda da esperança. Se infelizmente você alguma vez experimentou a sensação de ser assaltado ou roubado deve lembrar-se do quanto que um estranho sentimento de impotência acaba desabando sobre nossas costas. É como se a qualquer momento corrêssemos o risco de ser invadidos, vendo nossos planos e sonhos sequestrados por bandidos de toda laia. A cada uma dessas perdas se estabelece um medo que em geral tende a se tornar maior que o próprio fato causador. Cada fracasso ocorrido, nessa nossa relação com o mundo, aumenta a sensação de fragilidade, distorcendo a escala de valores que utilizamos para olhar e avaliar a vida, com todos seus detalhes 20

13 06 07 Sem perceber passamos a desenvolver o estranho hábito de tecer uma teia de proteção que nos mantenha em uma sensação de segurança, com relação aos próximos adventos inesperados de um cotidiano que aparentemente nada tem de tranquilo. Mesmo dentro de nossa casa e trabalho, quase que sem notar, vamos sendo levados a temer os passos de um inimigo que, na maioria das vezes, foi sendo instalado em nossa personalidade, como um vírus de computador, a ponto de muita gente só nos conhecer por meio desses receios. Diante das incertezas de cada amanhecer, gostaríamos de nos portar como cavaleiros audazes (em um misto do antigo mágico “Mandraque” e o cavaleiro “Zorro”), conseguindo enfrentar todos os tipos de fantasmas e problemas que nos assombram. Como canta Nando Reis, em um de seus maiores sucessos: “... o dia que roubaram teu carro, deixou uma lembrança: Que a vida é sempre coisa muito frágil Uma bobagem uma irrelevância”. Pensando nesse fato da vida ser uma irrelevância, acredito que minimizaremos em muito nossas angústias caso passemos a dar menor valor para aquelas coisas que julgamos ser de nossa propriedade, porém sabendo que apenas estão confiadas a nós por um tempo determinado. Já que realmente nossa insegurança cresce em proporções geométricas, a cada nova invasão sofrida, a única forma de reversão desse quadro está na busca, dentro de nós mesmos, da energia e disponibilidade de enfrentamento do mundo, inerente à criança que reside e resiste dentro de cada pessoa. Não sei em que momento a magia do olhar infantil foi ofuscada pelos receios e instituições adultas, só sei que está passando da hora de revermos essa situação, e o correto é sempre começando em nós. Que tal permitir, dentro de você, que refloresça a corajosa e pura criança que, depois de aprisionada no adulto exageradamente cuidadoso, anda insegura, temerosa e até mesmo descrente de seus merecimentos mais comuns? 21 22

14 06 07 Amo tudo aquilo que espero de você. Tanto se fala a respeito das dificuldades de se conviver nos dias atuais, destacando a ideia de que no passado é que era bom, que por vezes acabamos colocando toda a culpa de nossa dificuldade de comunicação e vivência, nas costas do tempo. Porém, em meu ponto de vista, a maior parte dos motivos que nos tem levado a tanta dificuldade, ou resistência nas relações, é simplesmente medo. Objetivamente, define-se medo como uma “sensação de insegurança diante do desconhecido”, o que aparentemente explicaria esse problema. Como cada pessoa se renova a cada nova manhã, acabo diariamente cercado de “ilustres desconhecidos”, mesmo quando esses fazem parte daqueles com quem me relaciono frequentemente. Isso para não falar de certas pessoas que, por razões concretas ou estéticas, automaticamente fazem parte do rol daqueles que fui educado a temer e rejeitar. 24

15 06 07 Diante desse conjunto de incertezas, e com o intuito de nos prevenir de futuros riscos de convivência, tendemos a criar modelos ideais de amigos, colegas ou até mesmo amores. Estipulado o molde de segurança, tendemos a rejeitar qualquer pessoa que não venha a se adaptar cem por cento a esse padrão, já que para a maior parte das pessoas, margem de erro é algo que existe para ser evitada. Sei que a ideia de resguardo diante das instabilidades da vida, é vista como óbvia, principalmente no momento atual, em que recebemos toda uma avalanche de notícias assustadoras a todo o momento, porém não se pode esquecer que é apenas quando experimentamos a diversidade humana, que podemos experimentar a diversidade de habilidades que possuímos. Temos tanto receio daquilo que inesperadamente pode vir de alguém, que, mesmo na presença daqueles que mais acreditamos conhecer e amar, ficamos na espreita e extremamente desejosos que a pessoa venha a apresentar as frases e ideias que desejamos ouvir. O estranho é que mesmo quando já conhecemos a forma de interpretação que certas pessoas apresentam diante do mundo, continuamos a nos irritar quando elas repetem esses conceitos que não admitimos. No fundo, chegamos a condicionar nosso amor a um grupo de atitude que “exigimos” que o outro apresente. Só aceitamos amar aquilo que previamente decidimos, e passamos a esperar das outras pessoas. É como se eu, em uma declaração de amor, disse-se que “amo tudo aquilo que espero de você”, e não aquilo que você me revela. Não parece uma loucura, quando se ouve da boca de um jovem, ou nem tanto assim, que, apesar de estar apaixonado prefere ficar só, pois a amada tem muitas manias, ou em outras palavras não é exatamente aquilo que ele sonhou para si. É muita covardia exigir que as pessoas que nos rodeiam existam apenas para nos completar

16 06 07 Amor é algo que se constrói e construções, por mais bem projetadas e presas a um cronograma, sempre experimentam adversidades, opiniões e interferências alheias. Só depois de superadas as dificuldades e intempéries do tempo, é que podemos observar a grandeza da obra, que se iniciou no alicerce. O tempo existe para que aprendamos a nos administrar dentro dele. Á exemplo de projetos arquitetônicos, amizades e amores sempre se iniciam em alicerces, enfrentam dias inesperados, e vão reorganizando seus próprios planos. Enquanto alguns persistem em criar formas estanques para acomodar suas relações, os mais serenos continuam a se arriscar na feliz possibilidade de novos e sempre estimulantes relacionamentos. A que grupo você pertence? A que grupo você pretende pertencer? Férias: tempo de aprender-se Conforme o período de férias escolares se aproxima, mais começamos a falar e pensar na palavra “descanso”, o que de maneira geral acaba por excluir desse período, a busca pelo desenvolver novas e pouco conhecidas habilidades. Não posso negar que após um período de muito esforço físico e/ou mental todo ser humano precisa se recuperar do desgaste, mas também não podemos esquecer que a aquisição de novos conhecimentos é, antes de qualquer coisa, uma das brincadeiras mais felizes que as crianças desfrutam em sua primeira infância. O que não deve ser considerado apenas como uma mera característica desse período do desenvolvimento, e sim um diferencial entre os humanos e os demais seres desse planeta

17 06 07 O prazer de “aprender-se” a partir de estimulantes oportunidades, junto a amigos ou familiares (em boas doses de convivência e troca de ideias) ou até mesmo aos equipamentos de tecnologia da informação (desde que usados com muita moderação), alimenta e fortalece o ser humano para suas futuras experiências e cobranças. Quanto mais aprendo, quer por histórias próprias ou compartilhadas por outros, mais apto e sereno me torno para equilibradamente me posicionar em futuras situações do cotidiano, especialmente nas adversas. Assim pensando, a chegada do período de recesso escolar pode ser de grande importância para o próprio processo de aprendizagem, em que os alunos repousando seus materiais acadêmicos, tem a possibilidade de usufruir da escola discretamente embutida em parques, filmes, tintas, notas musicais, outros sites e livros, bem como nas doces histórias de pais e avós durante refeições preguiçosas, recheadas de saberes e sabores (como diria Rubem Alves). Em muitos casos, até um simples passeio pelo quarteirão ou uma ida ao supermercado, não pela simples obrigação e urgência da necessidade e sim pelo prazer de garimpar as prateleiras em busca do algo especial para o dia seguinte, pode ser educativo e muito feliz. Garimpeiros, com o passar do tempo tendem a se tornar pessoas carregadas de histórias, detalhistas e pacienciosos. Para concluir, não é recomendável desperdiçar esse sonhado período apenas com cama, comida e repetição de atividades habituais, por mais que pareçam satisfatórias e agradáveis. A vida nos oferece milhares de possibilidades e o futuro cada vez mais solicita que aprendamos e nos posicionemos diante de sua diversidade e cobranças

18 06 07 Se essa proposta, recheada de atividades te assusta, quanto a necessidade do recrear, observe que esse verbo significa “distrair” o que em outras palavras pode ser definido pelo “chamar a atenção de alguém para outros objetos ou pontos de vista”. Quanto mais pontos buscamos compreender, mais descansamos, pois como disse Aristóteles “... a função primeira do conhecimento é levar o homem a vencer seus próprios medos”. O descanso está na paz e serenidade que vem Daquele que nos habita e consola, como está escrito em Salmos “Na multidão dos meus pensamentos dentro de mim, as tuas consolações recrearam a minha alma”. Recomece-se Ao fim de cada ano, algumas perguntas reaparecem e voltam a insistir em pressionar e marcar profundamente nosso semblante. O que conquistamos daquilo que havíamos projetado no início do ano? Dos projetos aclamados, quantos foram realmente lembrados e perseguidos com insistência e quantos abortamos antes mesmo de tentar? E, em que podemos acreditar e apostar para o ano que vem chegando? Lembre-se que somente no âmbito escolar é que a vida se divide em anos, bimestres e semestres, com metas a serem cumpridas e avaliadas. Na vida real “as coisas” acontecem em um ritmo que, na maioria das vezes, costuma fugir de nosso controle, por mais que nossa petulância insista em desejá-las sempre bem presas em nossas próprias mãos

19 06 07 Saiba que o mundo, e toda a vida que nele se manifesta, é um lugar muito bem governado, porém dentro de parâmetros que na maioria das vezes não somos e nem seremos capazes de compreender e que, por essa razão, é que temos essa tendência alucinada de tanto reclamar ou tentar encontrar os culpados pelas situações que nos desagradam. De tanto as pessoas terem-se transformadas em prisioneiras do tempo, é que constantemente nos deparamos com certas festas de Natal e Réveillon que se assemelham a uma final de campeonato para time que acabou de ser rebaixado. Abraços e tapinhas nas costas para que seja cumprida a obrigação social do bom relacionamento, quando muitas vezes se desejava estar bem longe de todo aquele povo. Nunca foi repetindo tradições que se reconstruiu algo novo após uma derrota (ou sequência de derrotas). Para se renovar é preciso colocar “ar novo”. Quando caímos ou fracassamos em algum momento ou diante de algum fato, o que passamos a ter é a feliz oportunidade de um repensar (pensar sem preconceito) e de uma reprogramação sem a infeliz obrigatoriedade de atingir o sucesso, afinal “quem já caiu uma vez tem menos a perder”. Não tenha dúvida de que a carga mais pesada que podemos carregar (quando conseguimos) é a obrigação de alcançarmos metas, sempre com louvor e grande mérito. Tudo muito bonito; pena que após alguns pequenos momentos de deleite, quando essas metas finalmente são atingidas, lá vem novamente a busca obrigatória e contínua de outras formas e fórmulas de felicidade imediata

20 06 07 Em teu próximo “ano novo” recomendo que você se predisponha a ir além e busque ser “um ser novo”, sem toda essa obrigação de ser um sucesso ou ter que contar com o sucesso de teu filho ou tua empresa para se sentir satisfeito. Não comece o ano com sonhos resultantes daquilo que os outros desejam que você deseje. “Precisamos ser salvos de todas as ocasiões em que não somos nós mesmos.” (Rod Bell) Desta vez, recomece-se. Feliz “ser novo” para você. O necessário arejar de um leque Em um momento tão refrigerado por aparelhos de ar condicionado, umidificadores de ambiente e ventiladores dos mais diversos tipos e tamanhos, chega a parecer estranha a ideia de se presentear alguém com um leque. Não pretendo recriar o charmoso e antigo hábito, mesmo porque não estou me referindo a leques de seda ou madeirinhas, levemente adornados com singelas imagens de flores ou pássaros, mas sem dúvida gostaria de abordar a respeito da necessidade humana de "sentir e assimilar novos ventos". Abruptamente essa questão me veio ao ouvir, de diferentes pais e mães, uma contínua indagação sobre o que fazer para evitar que seus filhos, das mais diversas faixas de idade, venham a se tornar escravos dessa ou daquela droga

21 06 07 Sobre drogas muita coisa já foi escrita, mas, apesar de não me considerar uma sumidade a respeito do assunto, acredito estar certo ao abordar duas verdades que não devem ser esquecidas: - drogarias vendem elixires para dores (um verdadeiro paraíso) e, - o aumento do comércio de drogas está diretamente ligado à "dor resultante do vazio", que assustadoramente cresce em nossa população, e não ao aumento do número de traficantes. Todo vazio pede um preenchimento. Em certas situações, quando diante de uma dor de cabeça, muscular, azia ou gastrite, vem aquele "santo remédio" e nos devolve a normalidade, chegamos a acreditar que nunca mais poderemos viver sem ele. Ele é o algo de fora, que resolve o algo de dentro. Alívio para a dor. Quando a alma dói, via de regra por estarmos nos afastando da essência humana de aprender, apreender e intervir no mundo em que estamos, certas drogas (entre elas as ilícitas) sempre aparecem para compensar essa falta das próprias pernas ou a saudade de si mesmo. Se só acredito em mim a partir do trabalho, família, status, dinheiro, ou seja, lá o que for, vivo à beira de um abismo. Toda pessoa que só se reconhece competente a partir de uma, ou poucas características, caso ocorra algum fracasso nesse âmbito, passa a desacreditar que pode se levantar por outros caminhos. Em outras palavras, só vislumbramos um "mundinho", onde nos sentimos um poderoso rei dependente da permanência de uma normalidade. Para que crianças, jovens e, porque não incluir, adultos não venham a precisar de drogas (felicidades externas ao corpo), a solução está em presentear (proporcionando e estimulando) essas pessoas com belos e grandes leques. Leques abertos escancaram veias que unidas são capazes de arrastar o ar, nos propiciando o frescor e o encorajamento

22 06 07 Se alguma coisa dá errado, com certeza, existem outras que sou capaz de buscar. Cada frustração precisa ser encarada como aprendizagem e saudável desafio para o viver, e viver com dignidade. Quanto a como proteger nossos filhos do risco de se transformarem em escravos das tais drogas, que tal nos doar como exemplos de pessoas que se arriscam em diferentes fontes de prazer ou função para o autoconhecimento? Cada indivíduo precisa reconhecer-se em funções. Esporte, música, teatro, artes plásticas, estudos formais e informais, religião, diálogos e diálogos. Quanto mais se abre o meu leque de possibilidades, na relação com o mundo, mais serei capaz de satisfazer-me das drogas (felicidade interna da alma), que por mais que alguns duvidem, já vem inserida em nosso kit de seres humanos. Que tal dar uma espanada e tirar a poeira de seu leque, que talvez esteja escondido no fundo de alguma gaveta. Primeiro de abril. E dai? Primeiro de abril de 2007, e eu nascido em 1959, após quase 48 anos de vida, me deparei com um inusitado dia da mentira em que ninguém mentiu. Cheguei a pensar que era uma mera coincidência ocorrida em meu meio, mas depois de conversar com muita gente diferente, descobri que de maneira geral, a data parece realmente ter sido esquecida e até perdido seu glamour. Parece que esquecemos o direito que tínhamos de utilizar esse dia para mentir, sem a preocupação de ver nossa índole questionada por essa ou aquela pessoa. Abdicamos do “prazer” de ridicularizar amigos e conhecidos através de sutis frases enganadoras ou até mesmo maldosas, que chegava a nos dar uma estranha sensação de superioridade, mesmo que só por um momento

23 06 07 Ter bom ou mau gosto na escolha da mentira ou brincadeira que se escolhia, sempre foi coisa bem aceitas e esperadas para esse dia. Parei para tentar entender quais os fatores que estariam gerando o esquecimento dessa data tão significativa no passado, que levava muita gente a passar dias e noites na elaboração de inverdades, apenas para se divertirem com a cara que as outras pessoas faziam, ao descobrir que tinham sido enganadas. Lembrei-me de certo primeiro de abril, em que meu professor de matemática entrou sala adentro com ar carrancudo e, despejando uma prova daquelas impossíveis de se revolver, foi logo dizendo que já não mais aguentava nossa turma e que “de agora em diante” nós iríamos ver o que “era bom pra tosse”, para, apenas depois de ter certeza de nosso desespero, nos lembrar de que estávamos no bendito dia em questão; gracinha que só nos fez rir amarelo, depois de muito tempo depois do “estrago”. O que será que vem provocando a desqualificação desse “quase feriado nacional” daqueles tempos? Teríamos atingido a maturidade social, que dispensa brincadeiras desnecessárias ou estamos conseguindo praticar o juramento do “dizer a verdade, nada mais que a verdade”, pelo bem de todos? Ah, se tudo ou boa parte disso fosse real! Tenho certeza que em um mundo em que as pessoas habitualmente se reconhecem por suas verdadeiras caras, nosso sono seria bem mais leve e restaurador. Imagine a cabeça no travesseiro após todo um dia de envolvimento com pessoas claras e objetivas. Infelizmente, após procurar a resposta, conversando e observando muita gente, cheguei a triste conclusão de que esse dia especial se perdeu no meio da rotina das mentiras que passamos a viver. Mentiras políticas, criminosas, familiares; algumas terríveis e outras até simpáticas, por mais que isso seja inadmissível

24 06 07 E por que mentimos tanto? Lembre-se que quando distorcemos uma história ou situação é porque ela pode revelar alguma de nossas fraquezas, e para isso não andamos preparados. Mentimos em razão do medo que temos de ser desnudados. Depois de revelada nossa face, mentimos em razão do medo de termos de conviver com a própria imperfeição, em meio a tanta competição social. Pobre gente! Para muitos, mentir é uma necessidade de sobrevivência diária. Ah, que saudades do dia primeiro de abril daqueles recentes tempos. Tempos em que trezentos e sessenta e quatro dias por ano, ainda acreditávamos que falar a verdade era bom e não doía. Sem querer ser antiquado, proponho a reinvenção do dia da mentira, para que haja mais tempo para a prática de nossas verdades. 43

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