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RELATO DE UM CERTO ORIENTE AUTOR: MILTON HATOUM WWW.GEL.ORG.BR/ESTUDOSLINGUISTICOS/EDICOESANTERIORES/...ESTUDOS.../763. PDF.

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Apresentação em tema: "RELATO DE UM CERTO ORIENTE AUTOR: MILTON HATOUM WWW.GEL.ORG.BR/ESTUDOSLINGUISTICOS/EDICOESANTERIORES/...ESTUDOS.../763. PDF."— Transcrição da apresentação:

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2 RELATO DE UM CERTO ORIENTE AUTOR: MILTON HATOUM PDF

3 ANÁLISE DA OBRA Relato de um certo Oriente tem como fio condutor a história de uma moça (a narradora principal, que não tem nome) que retorna à casa de sua infância vinte anos depois. Sua intenção é recuperar a sua própria identidade. Assim, volta a Manaus, cidade em que nasceu, após ter sido internada por um longo tempo em uma casa de repouso em São Paulo. A narrativa faz um retorno ao passado por intermédio das suas recordações e de outros relatos que vão contribuindo para "montar" a história e, finalmente, poder escrever uma carta ao irmão que está em Barcelona - Espanha.

4 ANÁLISE DA OBRA Objetivo das vozes:  Libertar as lembranças que as personagens têm sobre a família libanesa da qual fazem parte.  Esse passado é misterioso e sofrido.  A figura central dele é Emile, já morta.  As lembranças libertas vem em fluxos e sob diferentes perspectivas.

5  Algumas lembranças libertas são.  a chegada do pai (marido de Emilie) ao Brasil;  a vida de Emile antes de vir para Manaus;  o suicídio de Emir (irmão de Emilie) ;  a perseguição sofrida por Samara Délia(filha de Emile), pelo fato de ter engravidado na adolescência;  o nascimento e morte da neta de Emilie, Soraya Ângela, uma menina surda-muda;  a velhice de Emile.

6 A estrutura da obra Relato de um certo Oriente possui uma estrutura fragmentada e uma história formada por diversos relatos autônomos que se integram e se alternam ao longo de oito capítulos, dando-lhes elementos de narrativa oral.

7 A estrutura da obra De acordo com o próprio autor, ele se inspirou na estrutura do livro As mil e uma noites, em que a personagem Sherazade deixa propositalmente as histórias inacabadas, para que elas tenham continuidade na narrativa seguinte. É interessante verificar que entre um capítulo e outro não existe um fechamento, uma vez que o capítulo anterior está sempre dialogando com o próximo sem deixar muito claro quem será o próximo narrador (certamente, existem algumas pistas que nos levam ao dono da voz narrativa, mas é preciso estar bem atento a isso). Temos que observar que a passagem de um narrador para o outro ocorre por meio do discurso indireto livre' (e esse tipo de discurso torna mais próximo narrador e personagem).

8 Vozes narrativas: Capítulo 1 - narradora-protagonista Capítulo 2 – Hakim Capítulo 3 – Dorner Capítulo 4 – Dorner Capítulo 5 - Dorner e, depois, Hakim Capítulo 6 - narradora-protagonista Capítulo 7 - Hindié Conceição Capítulo 8 - narradora-protagonista

9 Marcas Em Relato de um certo Oriente as histórias falam das possibilidades e das dificuldades do trabalho com a memória, das tensões e da convivência de culturas, religiões, línguas, lugares, sentimentos e sentidos diferentes das personagens em relação ao mundo.

10 Marcas A casa de Emilie, matriarca da família na narrativa do Relato, é um microcosmo onde essas tensões aparecem e são vividas cotidianamente. O que mantêm a tensão no romance é a narrativa centrada em dois incidentes: o atropelamento de Soraya Ângela e o afogamento de Emir.

11 Marcas A obra, em sua estrutura e estratégia de composição, parece transitar e oscilar quanto ao gênero narrativo: entre relato – em que a figura do narrador é extremamente importante e a narração é feita principalmente com base nas impressões e que lembra a tradição oral (Mil e uma noites), como uma tentativa de rememoração das experiências coletivas do passado – e o romance, que é o substrato comum a todos os relatos (livre das impressões pessoais) embora seja difícil possibilitar que a experiência comum viva e se revele no relato dos narradores.

12 Temática A temática principal da obra gira no eixo da relação familiar e seus conflitos (uma família de origem libanesa que vem para o Brasil e que tem sua história narrada por meio de relatos de amigos e familiares).

13 O tempo e o espaço A história se passa em Manaus, na Amazônia, no final do século 19 e se estende após a segunda metade do século 20. Ela não discorre em um tempo cronológico: vai e volta no tempo e no espaço. Ao mesmo tempo que a narradora está na sua cidade natal, para resgatar lembranças e reafirmar a própria identidade, ela faz esse retorno para registrar acontecimentos que o irmão, na época, ainda muito pequeno, não recordava: "Tu ainda engatinhavas naquele natal de 54 e Soraya Ângela era a minha companheira..."

14 O título A palavra "relato“ justificar-se-ia pelo ato de exposição de fatos e impressões de um episódio vivido. Esse romance é composto de várias narrativas (isto é, de vários relatos) organizadas por uma só pessoa. O ato de narrar remete à cultura oriental(Mil e uma noites). E a formação de um oriente diferente, recriado do original “um certo” (dentre outros orientes)

15 O título O autor descreve a cidade de Manaus não de maneira idealizada, mas de forma natural, com seus casarões, seus barcos que transitam no rio, sua cidade flutuante que adentra os mistérios da floresta, sua população bem diversificada. É neste cenário que está inserida a loja Parisiense e o sobrado de Emile, locais em que os narradores apresentam suas lembranças, ou seja, as histórias de uma família de imigrantes libaneses que trouxeram do Oriente seus costumes, suas tradições, sua culinária, sua religião, seu jeito diferente de ver a vida e montaram aqui sua nova morada. Os imigrantes montaram em Manaus um novo Oriente, e as lembranças de que os narradores relatam são lembranças ocorridas nesse novo Oriente, que fica em Manaus. Portanto, o "certo oriente" de que trata o título é a cidade de Manaus(novo habitat dos libaneses).

16 A narração T oda a história é formada por relatos: narrativas em primeira e em terceira pessoa. Uma particularidade de Relatos de um certo Oriente a ser observada são as mesmas passagens relatadas por narradores diferentes. Como exemplo, o episódio do acidente da menina Soraya, contada pela narradora-protagonista, filha adotiva de Emilie e pelo filho mais velho, Hakim.

17 NARRADORES Inicia-se o trabalho, o de recuperar Emilie através da memória de outros personagens que entrelaçaram sua história, de forma significativa, ao daquela família. 1º narrador: Narradora personagem [adotiva](faz o primeiro, o sexto e o oitavo relatos) 2º Hakim: filho mais velho, o único a aprender o árabe e que se distanciou de todos, ao mudar-se para o sul (faz o segundo relato – sozinho e o quinto relato com Dorner) 3º o alemão Dorner, amigo da família e fotógrafo(faz o terceiro e o quarto relatos – sozinho e quinto relato com Hakim) 4º Hindié Conceição, amiga de Emile com quem esta partilha a solidão da velhice(faz o sétimo relato) São muitas vozes a compondo um mosaico, nem sempre ordenado, nem sempre claro naquilo que revela, mas rico em detalhes de extrema significação.

18 Narração de um mesmo evento a) Morte de Soraya Ângela segundo narradora-protagonista (em tom de desespero): "Eu o despertei balançando a rede, e com o susto os óculos fixados na sua testa caíram no chão. Estava grogue de sono e custou para desgrudar as pestanas [..] então chacoalhei a rede com força, e enquanto atirava as begônias, as flores e os caroços de frutas no rosto dele, soletrei não sei o que e apontei para a rua: o lugar do desastre. Ele deu um salto, olhou para mim e eu mergulhei na rede e fiquei pensando no clarão aberto no meio da rua [.] Sob a luz intensa do sol todos pareciam de bronze, apenas destoavam o florido da saia de Emilie e a mancha vermelha que ainda se alastrava ao longo do lençol transformado em casulo [..]Foi uma das imagens mais dolorosas da minha infância; talvez por isso tenha insistido em evocá-la em duas ou três cartas que te escrevi."

19 Narração de um mesmo evento b) Morte de Soraya Ângela segundo Hakim (confirma o desespero da irmã adotiva, mas ele tem uma reação bem comedida, resignada da situação: nada mais poderia ser feito): "Na manhã seguinte tu irrompeste no meu quarto e balançaste a rede; demorei a abrir os olhos e reparar que levavas na mão direita uma cesta cheia de flores e ainda não choravas nem gritavas, apenas te inquietavas com o meu sono, essa atonia com o mundo quando a gente se desperta. Então perguntei por teu irmão e me respondeste "ela, a menina, a prima". O teu corpo começou a tremer, remexeste nervosamente no fundo da cesta, e dos teus olhos jorraram flores quando os cobriste com as mãos. Então o balbucio, a meia voz, a impossibilidade de pronunciar o nome: a menina, ela, a prima, só essas palavras saíam da tua boca; saltei da rede e entrei no quarto vizinho, que estava deserto: o silêncio entre quatro paredes de penumbra. Ao sair do quarto fui atraído por um ruído, uma confusão de vozes, buzinas, uma gralhada. Corri até o terraço, vi o clarão no meio da rua, e no centro dele Emilie ajoelhada diante do corpo envolto por um lençol. Não havia mais nada a fazer: o corpo sequer agonizava, e diante de um corpo sem vida não há de que se lamentar."

20 A linguagem A linguagem utilizada na obra é culta de fácil entendimento.

21 Lembrança, memória e identidade Em Relato de Certo Oriente, a lembrança é vista como uma maneira de revisitar o passado para entender o presente. Assim, a personagem-protagonista retorna à casa da infância para recuperar sua identidade a partir da memória. Para a reconstrução de seu passado, ela se utiliza das diversas vozes de outros personagens que vão se completando e revelando segredos a cada novo fato contado. Dessa forma, percebe-se que os elementos que constituem o romance são: memória, identidade e reconstituição de lembranças.

22 Aculturação O processo de adaptação dos libaneses à nova terra e, consequentemente à nova cultura, é retratado de maneira intensa. A aculturação pode ocorrer de duas formas: por assimilação total da outra cultura (o indivíduo abre mão de sua própria cultura) ou por assimilação parcial (ele interage com a outra). As duas situações ocorrem com os personagens, é o que se percebe em Emilie, em seu marido e no filho mais velho Hakim. Emilie, a matriarca da família, vive demonstrando a nostalgia de quem vive longe de sua terra e de seus costumes. Guarda objetos que fazem relação com o passado em um baú escondido no quarto fechado onde ninguém tem acesso, nem mesmo o marido. Ela se adapta aos costumes da nova terra, inclusive a religião, mas faz questão de manter vivos os seus hábitos. Um exemplo bem marcante disso, é o fato de ela ensinar o idioma árabe ao filho mais velho.

23 Aculturação Já o pai da família, marido de Emilie, não se adapta aos costumes do Brasil. Ele faz questão de não se integrar e critica, muitas vezes, os costumes brasileiros. Para se livrar desses problemas, ele vive calado e lendo o livro do Profeta, o Alcorão. Ele não se adapta à religiosidade local. Ao contrário de Emilie, que logo se adapta à religião católica, ele continua sendo muçulmano.

24 Aculturação Às sextas-feiras, era costume de Emilie e do marido fazerem reuniões entre amigos e parentes da mesma colônia para confraternizarem e manterem viva a sua cultura original, inclusive a língua - um detalhe interessante é que os filhos não podiam participar desses eventos.

25 Aculturação "O nome de Emir quase nunca era mencionado nas horas das refeições ou nas conversas animadas por baforadas de narguilé, goles de áraque e lances de gamão. Os filhos de Emilie éramos proibidos de participar destas reuniões que varavam a noite e terminavam no pátio da fonte, aclarado por uma luz azulada. (...) Mas, em algumas reuniões de sextas-feiras, o prenúncio da manhã não os dispersava. Eu acordava com berros dilacerantes, gemidos terríveis, ruídos de trote e uma algazarra de alimárias que assistiam à agonia dos carneiros que possuíam nomes e eram alimentados pelas mãos de Emilie. (..) No centro de um pátio iluminado pelo sol equatorial, homens e mulheres repetiam o hábito gastronômico milenar de comer com as mãos o fígado cru de carneiro. Não era a um ritual bárbaro ou ao sacrifício de um animal que eu assistia do quarto dos pais, mas sim a uma novidade assombrosa, a uma festa exótica que tanto contrastava com o ritmo habitual da casa. (..) Essas reuniões continuaram na casa nova, mas foi na Parisiense que me deparei com sua existência. A conversa era exclusivamente em árabe, salvo os cumprimentos de algum transeunte conhecido, ou a visita de um ou outro vizinho."

26 A língua "estrangeira" A dificuldade do processo de aculturação dos personagens em relação à língua começa na própria casa, pois a família vive duas gerações com culturas diferentes. Hakim, já na infância, percebe a diferença entre a língua falada na Parisiense e fora dela. "Desde pequeno convivi com um idioma na escola e nas ruas da cidade, e com outro na Parisiense, e às vezes tinha a impressão de viver vidas distintas. Sabia que tinha sido eleito o interlocutor número um entre os filhos de Emilie; por ter vindo ao mundo antes que os outros? Por encontrar-me ainda muito próximo às suas lembranças, ao seu mundo ancestral onde tudo ou quase tudo girava ao redor de Trípoli, das montanhas, dos cedros, das figueiras e parreiras, dos carneiros, Junieh e Ebrin."

27 A língua "estrangeira" Em sua inocência, o menino pensava que aquela língua falada pelos pais era a língua de adultos, que criança não poderia falar assim. "Já estava me habituando àquela fala estranha, mas por algum tempo pensei tratar-se de uma linguagem só falada pelos mais idosos; ou seja, pensava que os adultos não falavam como as crianças."

28 A língua "estrangeira" Depois de algum tempo, Hakim começa a se interessar pelo idioma do pai à mesa de jantar: "(... ) tentei imitar assim que aprendi o alfabeto e antes mesmo de pronunciar uma única palavra na língua que, embora familiar, soava como a mais estrangeira das línguas estrangeiras." E foi então que Emilie começou a ensinar-lhe o idioma árabe. Tal linguagem representava para ele o elo entre o "Certo Oriente" e o “Oriente original” de seus ancestrais. A aprendizagem desse idioma faria com que ele conseguisse entrar nos espaços inabitáveis da Parisiense e em certas partes de sua casa. Cada nome de objeto aprendido, significava cada mistério da casa a ser desvendado. "Essa contaminação de angústias, a minha idolatria por Emilie, a sua intromissão na minha vida, tudo se acentuava pelo fato de eu compreender quando ela falava na sua língua."

29 Um retrato da família Marido de Emile: veio do Líbano para o Amazonas (não se sabe com quem). Emilie: Abandonada pelos pais, que saíram do Líbano e vieram tentar a vida em Recife, Emilie foge para o Brasil com os dois irmãos: Emin e Emir (este último se suicida em Manaus). Emilie tem outro irmão que convive com ela: Emílio. Emilie e o marido tinham quatro filhos biológicos: Hakim, Samara Délia (a mais moça) e outros dois que não são nomeados. Com os filhos criados, adotam mais dois: a narradora-protagonista com idade similar à de Soraya Ângela e seu irmão (um bebê ainda), para quem ela escreve a carta (portanto, todos os filhos do casal são brasileiros). Samara Délia: teve uma filha aos 15 anos de idade (Soraya Ângela), menina surda-muda que morre ainda criança.


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