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É uma vila de pescadores perdida em nenhum lugar, o enfado misturado com o ar, cada novo dia já nascendo velho,

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Apresentação em tema: "É uma vila de pescadores perdida em nenhum lugar, o enfado misturado com o ar, cada novo dia já nascendo velho,"— Transcrição da apresentação:

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2 É uma vila de pescadores perdida em nenhum lugar, o enfado misturado com o ar, cada novo dia já nascendo velho,

3 as mesmas palavras ocas, os mesmos gestos vazios, os mesmos corpos opacos, a excitação do amor sendo algo de que ninguém mais se lembrava...

4 Aconteceu que, num dia como todos os outros, um menino viu uma forma estranha flutuando longe no mar. E ele gritou.Todos correram.

5 Num lugar como aquele até uma forma estranha é motivo de festa.

6 E ali ficaram na praia, olhando, esperando. Até que o mar, sem pressa, trouxe a coisa e a colocou na areia.

7 Para o desapontamento de todos: era um homem morto. Todos os homens mortos são parecidos porque há apenas uma coisa a se fazer com eles: enterrar.

8 E, naquela vila, o costume era que as mulheres preparassem os mortos para o sepultamento.

9 Assim, carregaram o cadáver para uma casa, as mulheres dentro, os homens fora.

10 E o silêncio era grande enquanto o limpavam das algas e liquens, mortalhas verdes do mar.

11 Mas, repentinamente, uma voz quebrou o silêncio. Uma mulher balbuciou: "Se ele tivesse vivido entre nós, ele teria de ter curvado a cabeça sempre ao entrar em nossas casas. Ele é muito alto...".

12 Todas as mulheres, sérias e silenciosas, fizeram sim com a cabeça. De novo o silêncio foi profundo, até que uma outra voz foi ouvida.

13 Outra mulher... "Fico pensando em como teria sido a sua voz... Como o sussurro da brisa? Como o trovão das ondas...?

14 Será que ele conhecia aquela palavra secreta faz com que uma mulher apanhe uma flor e a coloque no cabelo?" que, quando pronunciada,

15 E elas sorriram e olharam umas para as outras. De novo o silêncio. E, de novo, a voz de outra mulher...

16 "Essas mãos... Como são grandes! Que será que fizeram? Brincaram com crianças? Navegaram mares? Travaram batalhas? Construíram casas?

17 Essas mãos: será que elas sabiam deslizar sobre o rosto de uma mulher, será que elas sabiam abraçar e acariciar o seu corpo?"

18 Aí todas elas riram que riram, suas faces vermelhas, e se surpreenderam ao perceber que o enterro estava se transformando numa ressurreição: um movimento nas suas carnes, sonhos esquecidos, que pensavam mortos, retornavam, cinzas virando fogo, desejos proibidos aparecendo na superfície de sua pele...,

19 ...os corpos vivos de novo e os rostos opacos brilhando com a luz da alegria.

20 Os maridos, de fora, observavam o que estava acontecendo e ficaram com ciúmes do afogado, ao perceberem que um morto tinha um poder que eles mesmos não tinham mais.

21 E pensaram nos sonhos que nunca haviam tido, nos poemas que nunca haviam escrito...,

22 ...nos mares que nunca tinham navegado, nas mulheres que nunca haviam amado.

23 A história termina dizendo que finalmente enterraram o morto. Mas a aldeia nunca mais foi a mesma.

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25 adaptado por Rubem Alves. de um conto de Gabriel García Márquez,

26 Tema musical: Prelude, Vangelis Formatação:

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