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O TESTAMENTO DO MENDIGO Agora, no fim da vida Como mendigo que sou, sinto-me preocupado, Intrigado e num momento pergunto-me, embaraçado, Se faço ou.

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2 O TESTAMENTO DO MENDIGO

3 Agora, no fim da vida Como mendigo que sou, sinto-me preocupado, Intrigado e num momento pergunto-me, embaraçado, Se faço ou não testamento..

4 Não tendo, como não tenho E nunca tive ninguém, Para quem é que eu vou deixar Tudo o que eu tenho: os meus bens?

5 Para quem é que vou deixar, Se fizer um testamento, Minhas calças remendadas, O meu céu, minhas estrelas, Que não me canso de vê-las Quando ao relento deitado Deixo o olhar perdido, Distante, no firmamento?

6 Se eu fizer um testamento Para quem é que vou deixar Minha camisa rasgada, As águas dos rios, dos lagos, Águas correntes, paradas, Onde às vezes tomo banho?

7 No entanto, esse mover é persistente, forte e profundo.! Pra quem é que vou deixar, Se fizer um testamento, Vaga-lumes que em rebanhos Cercam o meu corpo de noite, Quando o verão é chegado?

8 Se eu fizer um testamento Para quem vou deixar, Mendigo assim como sou, Todo o ouro que me dá O sol que vejo nascer Quando acordo na alvorada? O sol que seca meu corpo Que o orvalho da madrugada Com sua carícia molhou?

9 Para quem é que vou deixar, Se fizer um testamento, Os meus bandos de pardais, Que ao entardecer, nas árvores, Brincando de esconde-esconde, Procuram se divertir? Para quem é que eu vou deixar Estas folhas de jornais Que uso para me cobrir?

10 Se eu fizer um testamento Para quem é que eu vou deixar Meu chapéu todo amassado Onde escuto o tilintar Das moedas que me dão, Os que têm a alma boa, Os que têm bom coração?

11 E antes que a vida me largue, Para quem é que eu vou deixar O grande estoque que tenho Das palavras "Deus lhe pague"?

12 Para quem é que eu vou deixar, Se fizer um testamento, Todas as folhas de outono Que trazidas pelo vento Vêm meus pés atapetar?

13 Se eu fizer um testamento Para quem é que vou deixar Minhas sandálias furadas, Que pisaram mil caminhos, Cheias dos pós das estradas, Estradas por onde andei Em andanças vagabundas? Para quem é que eu vou deixar Minhas saudades profundas Dos sonhos que não sonhei?

14 Para quem eu vou deixar, Se fizer um testamento, Os bancos dos meus jardins, Onde durmo e onde acordo Entre rosas e jasmins? Para quem é que vou deixar, Todos os raios de luar Que beijam minhas mãos Quando num canto de rua Eu as ergo em oração?

15 Se eu fizer um testamento Pra quem é que vou deixar Meu cajado, meu farnel, e a marca deste beijo Que uma criança deixou Em meu rosto perguntando se eu era Pai Natal?

16 Para quem é que eu vou deixar, Se fizer um testamento, Este pedaço de trapo Que no lixo eu encontrei que transformei em lenço Para enxugar minhas lágrimas quando fingi que chorei?

17 Se eu fizer um testamento... Testamento não farei! Sem nenhum papel passado, Que papéis eu não ligo, Agora estou resolvido: O que tenho deixarei, Na situação em que estou, Para qualquer outro mendigo, Rogando a Deus que o faça, Depois que eu tiver morrido, Ser tão feliz quanto eu sou.

18 Urbano Reis (Transcrito da revista Universo Espírita n. 04, p. 15, Ed. hmp. Teria sido feito por um mendigo. Ele não tinha nada material para transmitir a alguém, mas sentiu-se feliz em deixar muitas coisas que o dinheiro não compra.)


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