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A MAIOR FLOR DO MUNDO (Jos é Saramago) As hist ó rias para crian ç as devem ser escritas com palavras muito simples, porque as crian ç as sendo pequenas,

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Apresentação em tema: "A MAIOR FLOR DO MUNDO (Jos é Saramago) As hist ó rias para crian ç as devem ser escritas com palavras muito simples, porque as crian ç as sendo pequenas,"— Transcrição da apresentação:

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2 A MAIOR FLOR DO MUNDO (Jos é Saramago) As hist ó rias para crian ç as devem ser escritas com palavras muito simples, porque as crian ç as sendo pequenas, sabem poucas palavras e não gostam de us á -las complicadas. Quem me dera saber escrever essas hist ó rias, mas nunca fui capaz de aprender, e tenho pena. Al é m de ser preciso saber escolher as palavras, faz falta um certo jeito de contar, uma maneira muito certa e muito explicada, uma paciência muito grande – e a mim falta-me pelo menos a paciência, do que pe ç o desculpa.

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4 Se eu tivesse aquelas qualidades todas poderia contar, com pormenores, uma linda hist ó ria que um dia inventei, mas que, assim como a vão ler, é apenas o resumo de uma hist ó ria, que em duas palavras se diz … Que me seja desculpada a vaidade se eu at é cheguei a pensar que a minha hist ó ria seria a mais linda de todas as que se escreveram desde o tempo dos contos de fadas e princesas encantadas … H á quanto tempo isso vai!

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6 Na hist ó ria que eu quis escrever, mas não escrevi, havia uma aldeia. (Agora vão come ç ar a aparecer algumas palavras dif í ceis, mas, quem não souber, deve ir ver no dicion á rio ou perguntar ao professor.)

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8 Não se temam, por é m, aqueles que fora das cidades não concebem hist ó rias nem sequer infantis: o meu her ó i menino tem as suas aventuras aprazadas fora da sossegada terra onde vivem os pais, suponho que uma irmã, talvez um resto de av ó s, e uma parentela misturada de que não h á not í cia.

9 Logo na primeira p á gina, sai o menino pelos fundos do quintal, e, de á rvore em á rvore, como um pintassilgo, desce ao rio e depois por ele abaixo, naquela vagarosa brincadeira que o tempo alto, largo e profundo da infância a todos nós permitiu…

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12 Em certa altura, chegou ao limite das terras at é onde se aventurara sozinho. Dali para diante come ç ava o planeta Marte, efeito liter á rio de que ele não tem responsabilidade, mas com que a liberdade do autor acha poder hoje aconchegar a frase. Dali para diante, para o nosso menino, ser á s ó uma pergunta sem literatura: « Vou ou não vou? » E foi.

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14 O rio fazia um desvio grande, afastava-se, e de rio ele estava j á um pouco farto, tanto que o via desde que nascera. Resolveu cortar a direito pelos campos, entre extensos olivais, ladeando misteriosas sebes cobertas de campainhas brancas, e outras vezes metendo por bosques de altos freixos onde havia clareiras macias sem rasto de gente ou bicho, e ao redor um silêncio que zumbia, e tamb é m um calor vegetal, um cheiro de caule sangrado de fresco como uma veia branca e verde.

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16 Ó que feliz ia o menino! Andou, andou, foram rareando as á rvores, e agora havia uma charneca rasa, de mato ralo e seco, e no meio dela uma in ó spita colina redonda como uma tigela voltada. Deu-se o menino ao trabalho de subir a encosta, e quando chegou l á acima, que viu ele? Nem a sorte nem a morte, nem as t á buas do destino … Era s ó uma flor. Mas tão ca í da, tão murcha, que o menino se achegou, de cansado. E como este menino era especial de hist ó ria, achou que tinha de salvar a flor. Mas que é da á gua? Ali, no alto, nem pinga. C á por baixo, s ó no rio, e esse que longe estava!... Não importa.

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18 Desce o menino a montanha, Atravessa o mundo todo, Chega ao grande rio Nilo, No côncavo das mãos recolhe Quanto de á gua l á cabia, Volta o mundo a atravessar, Pela vertente se arrasta, Três gotas que l á chegaram, Bebeu-as a flor sedenta. Vinte vezes c á e l á, Cem mil viagens à Lua, O sangue nos p é s descal ç os, Mas a flor aprumada J á dava cheiro no ar, E como se fosse um carvalho Deitava sombra no chão.

19 O menino adormeceu debaixo da flor. Passaram as horas, e os pais, como é costume nestes casos, come ç aram a afligir-se muito. Saiu toda a fam í lia e mais vizinhos à busca do menino perdido. E não o acharam.

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21 Correram tudo, j á em l á grimas tantas, e era quase sol-pôr quando levantaram os olhos e viram ao longe uma flor enorme que ningu é m se lembrava que estivesse ali. Foram todos de carreira, subiram a colina e deram com o menino adormecido. Sobre ele, resguardando-o do fresco da tarde, estava uma grande p é tala perfumada, com todas as cores do arco- í ris.

22 Este menino foi levado para casa, rodeado de todo o respeito, como obra de milagre.

23 Quando depois passava pelas ruas, as pessoas diziam que ele sa í ra da aldeia para ir fazer uma coisa que era muito maior do que o seu tamanho e do que todos os tamanhos. E essa é a moral da hist ó ria.

24 Este era o conto que eu queria contar. Tenho muita pena de não saber escrever hist ó rias para crian ç as. Mas ao menos ficaram sabendo como a hist ó ria seria, e poderão cont á -la doutra maneira, com palavras mais simples do que as minhas, e talvez mais tarde venham a saber escrever hist ó rias para crian ç as …

25 Quem sabe se um dia virei a ler outra vez esta hist ó ria, escrita por ti que me lês, mas muito mais bonita?...

26 E se as hist ó rias para crian ç as passassem a ser de leitura obrigat ó ria para os adultos? Seriam eles capazes de aprender realmente o que h á tanto tempo têm andado a ensinar?

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