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Jornalismo, literatura e história O reencontro das artes de narrar.

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Apresentação em tema: "Jornalismo, literatura e história O reencontro das artes de narrar."— Transcrição da apresentação:

1 Jornalismo, literatura e história O reencontro das artes de narrar

2 Jornalismo e literatura Tanto a literatura como o jornalismo se usam da palavra para dar corpo e sentido a uma determinada história ou fato, seja ela verídica, na situação jornalística, ou ficcional, quando tratamos do mundo literário. No entanto, como realmente definir o que é realidade do que é ficção? Até que ponto a ficção se restringe apenas à literatura? Será que ela não se apresenta também no universo diário do jornalismo? Questões como essas podem parecer de fáceis respostas, já que, na maioria das ocasiões, a literatura se usa de casos, lugares e personagens de um mundo imaginário – claro, salvo diversas exceções baseadas em casos reais e em vivências dos próprios autores, mas sempre com uma pitada de ficção.

3 Jornalismo e literatura Já quando tratamos de jornalismo, pensamos justamente o oposto. Isso porque notícias e reportagens diárias, ou não, geralmente são construídas a partir de um fato real, de um espaço físico real e com pessoas que fazem parte desse contexto real, inclusive o jornalista que constrói a história. Porém, até que ponto a construção jornalística, ou a representação jornalística, não possui sua pitada de imaginação? Vamos, então, a um exemplo.

4 Jornalismo e literatura O jornalista está na redação de seu jornal quando é avisado de um assalto a um banco e em seguida designado para "cobri-lo. Chegando ao local, ele apenas encontra a polícia, vítimas, possíveis testemunhas e os assaltantes, já presos e isolados. Precisando escrever sua matéria, ele começa a ouvir os relatos dos presentes para montar o quebra-cabeça e levar a melhor versão e a mais imparcial possível ao jornal, sem debater o "mito da imparcialidade". Então, ele ouve versões de clientes do banco que presenciaram o fato, funcionários do local que foram rendidos para que o crime fosse realizado, a polícia que prendeu os assaltantes e tenta, de maneira frustrada, ouvir os praticantes do crime evitado. Partindo desses relatos, e mesmo sem ter presenciado instante algum de êxtase do assalto, o jornalista volta à redação e, munido de depoimentos, vai escrever a matéria que estampará uma das páginas da edição do dia seguinte.

5 Jornalismo e literatura Já na redação e sentando em frente ao computador, ele descreve em sua narrativa como foi a ação dos ladrões, como foi a reação das vítimas presentes e, na seqüência, descreve também a rápida e eficaz ação dos policiais que prenderam os assaltantes e os levaram direto ao presídio da cidade. Agora é só diagramar em uma das páginas destinadas à editoria de Polícia e ver a repercussão do dia seguinte. Como ele pôde descrever exatamente como o crime ocorreu se quando chegou ao local já havia um desfecho? Não pôde. Mesmo tendo ouvido diversos relatos, de diversas pessoas que estiveram presentes ao local, e ter narrado os fatos da maneira mais fiel e imparcial possível, o jornalista teve que usar uma parcela de ficção/imaginação para remontar o momento do ocorrido, os fatos de maiores destaques e o fim da história.

6 Jornalismo e literatura Além disso, desde a coleta de informações começa a se construir um mundo imaginário que parte de uma história real e sua representação. Ao ouvir os depoimentos das pessoas presentes, geralmente o repórter deixa de levar em consideração os diferentes níveis intelectuais, as diferentes culturas e vivências de cada indivíduo que contribuiu para a construção de sua matéria. Algumas dessas pessoas darão maior ou menor ênfase a certos detalhes do crime, enquanto um outro percentual achará mais importante relatar outro momento, e ainda um terceiro grupo talvez relate fatos diferentes dos outros dois. E, para completar a parte direta da narração, já que depois aparecem os leitores que podem interpretar a notícia ainda de outros ângulos, existe a participação direta do jornalista, que com seu bloco de anotações em mão, ou de um gravador, destacará/julgará o que pare ele pareça ter maior expressão.

7 Jornalismo e literatura "Apesar da vocação para o real, o relato jornalístico sempre tem contornos ficcionais: ao causar a impressão de que o acontecimento está se desenvolvendo no momento da leitura, valoriza-se o instante em que se vive, criando a aparência do acontecer em curso, isto é, uma ficção. Além disso, o jornalismo, produto industrial, precisa de esquemas para a captação de notícias, dos quais a fonte é uma das principais. As fontes podem construir posições estereotipadas [...]" (SATO, in CASTRO e GALENO – org., 2002, p ).

8 Jornalismo e literatura Ao reproduzirem o "real" a posteriori, valendo-se da linguagem, a literatura e a escrita jornalística são construções discursivas, que se diferenciam mais pela intenção do discurso do que pela sua própria natureza, e colidirão num mesmo ponto: o leitor. Cabe a ele a tarefa final da reconstrução da coerência narrativa, podendo ocorrer ambigüidades e até inversões: que o texto jornalístico, objetivo e neutro, seja lido como pura ficção e imaginação e, por outro lado, que o texto literário artístico seja tomado como "verdade" absoluta.

9 Jornalismo e literatura Os diários da história

10 Literatura: o diário da história A história como matéria prima da ficção? A ficção como articuladora da própria história? O grau provocativo de questões como essas vem há muito tempo motivando discussões entre historiadores e críticos literários, as quais ao longo dos anos assumiram por vezes características conciliatórias e, em outros momentos, confrontaram posicionamentos acirradamente contrários. Antes da Revolução Francesa, a historiografia era considerada convencionalmente uma arte literária [...] O século XVIII foi fértil em obras que distinguem entre, de um lado, o estudo da história e, de outro, a escrita da história. A escrita era um exercício literário, especificamente retórico, e o produto desse exercício devia ser avaliado tanto segundo princípios literários quanto científicos. (WHITE, Hayden. Trópicos do Discurso, São Paulo, Edusp, 2001, p. 139)

11 Literatura: o diário da história A Bíblia é ficção porque é uma história produzida. Isso não significa que ela necessariamente nada tem de verdade. Nem significa que a Bíblia não contém nada de factual. A relação entre fato e ficção é de maneira alguma tão simples quanto alguém poderia pensar (SCHOLES, Robert. Elements of fiction. New York: Oxford University Press, 1968, p.01). Os historiadores ocupam-se de eventos que podem ser atribuídos a situações específicas de tempo e espaço, eventos que são (ou foram) em princípio observáveis ou perceptíveis, ao passo que os escritores imaginativos – poetas, romancistas, dramaturgos – se ocupam tanto desses tipos de eventos quanto dos imaginados, hipotéticos ou inventados (WHITE, Hayden. op. cit., p. 137).

12 Literatura: o diário da história Partindo-se de uma breve análise etimológica das palavras fato (facere) e ficção (fingere) percebe-se a proximidade semântica desses dois termos, caracterizando o valor de verdade comumente atribuído ao termo fato como uma construção social e histórica que acabou aproximando a palavra de conceitos igualmente abstratos como realidade e verdade. Esse processo acaba por contrapor os dois termos e torná-los opostos: a verdade factual e a criação ficcional. A multiplicidade discursiva é sacrificada em nome de uma integridade falsa da interpretação dos acontecimentos.

13 Literatura: o diário da História O século XIX traz consigo o desejo dos historiadores por uma abordagem reconhecidamente científica de seus trabalhos e, para isso, tentam se desvencilhar do aspecto retórico de seus textos e passam a desenvolver seus estudos a partir de uma dicotomia entre fato e ficção. Essa oposição adquiriu força e se manteve intocada por muitos anos como pressuposto objetivo da análise historiográfica. Contudo, essa idealização cientificista não consegue sustentar seu caráter dogmático indefinidamente e passa a sofrer críticas com a aproximação de um novo milênio, enfatizando o movimento dialético da própria história.

14 Literatura: o diário da História Como afirma a própria Linda Hutcheon, só existem verdades no plural, e jamais uma só Verdade; e raramente existe a falsidade per se, apenas as verdades alheias [...] a metaficção historiográfica procura desmarginalizar o literário por meio do confronto com o histórico, e o faz tanto em termos semânticos quanto formais (HUTCHEON, Linda. A poética do pós- modernismo, Rio de Janeiro: Imago, p.145, 146. Assim, a metaficção historiográfica ao mesmo tempo em que recupera acontecimentos passados, também proporciona uma visão alternativa desses episódios, alterando o comportamento de figuras históricas ilustres ou analisando os registros oficiais sob uma perspectiva, em muitos casos, preterida.

15 Jornalismo: o diário da história A grande vantagem de ser jornalista reside na possibilidade de se escrever a História. O que um jornalista presencia e relata hoje será parte dos livros de História amanhã Essas frases, tantas vezes repetidas por profissionais, estudantes e professores da área ilustram a existência de uma relação de proximidade entre a prática jornalística e a História. Analisados de forma mais rigorosa, esses bordões nos permitem empreender duas leituras distintas: 1 – A imprensa, enquanto instituição, e os jornalistas, enquanto atores sociais, participam ativamente da construção da realidade histórica; 2 – Existe uma certa semelhança (ou mesmo convergência) entre os trabalhos do jornalista e do historiador.

16 Jornalismo: o diário da história A primeira leitura nos remete à noção de imprensa enquanto quarto poder, detentora de um mandato civil que lhe permite fiscalizar as instituições políticas em nome da sociedade. Quando falamos em escrever a História nos referimos, sobretudo, aos momentos em que o jornalismo ultrapassaria a simples missão de informar e passando a atuar como uma entidade social e cultural, carregada de emoções, alimentando processos complexos de comunicação com informação, análises e opiniões que podem mudar os rumos de povos e nações (Chaparro, 1994, p. 92).

17 Jornalismo: o diário da história Uma segunda leitura, possivelmente mais interessante, busca identificar as interações que se estabelecem entre as práticas de jornalistas e historiadores. Se, num primeiro momento a distinção entre esses saberes parece evidente do ponto de vista discursivo, metodológico, epistemológico e sócio- profissional, entendo que essa primeira separação esconde relações mais complexas e a criação de espaços de confronto e justaposição. Essa hipótese inicial apóia-se nos conceitos de formação discursiva e dispersão (Foucault, 1969).

18 Jornalismo: o diário da história Que tipos de convergências podem existir entre jornalismo e história? Em que sentido a prática do jornalista se aproxima/diferencia do historiador? A complexidade dessas questões nos remete inicialmente a problemas de natureza conceitual (o que é o jornalismo? O que a história?). Ao nos prendermos num primeiro momento a essas questões, é possível situar jornalismo e história como práticas que emergem e evoluem de forma a adquirirem identidade e autonomia próprias. O jornalismo como um relato sobre a atualidade, marcado por uma estrutura narrativa própria (lead e pirâmide invertida) e por um conjunto de valores notícia, aparece como algo distinto do trabalho realizado pelos historiadores. O risco reside na pretensão de transformar essa (relativa) identidade numa separação cabal entre os saberes, como se essas práticas fossem essencialmente diferentes.

19 Jornalismo: o diário da história 1°) Jornalismo e História devem ser vistos como espaços dinâmicos e plurais. A constante evolução e a dispersão que ocorre no interior desses espaços não pode ser pensada como uma exceção, como um atentado a uma suposta natureza da prática, mas é elemento de definição. Ao reduzirmos o jornalismo a um modelo funcional, estrutural, canônico ou mesmo hegemônico, simplificamos a dimensão histórica e a diversidade de modelos narrativos (informativos, opinativos, interpretativos) de rotinas produtivas, de mídias, etc., que está implícita a um conceito.

20 Jornalismo: o diário da história 1°) Jornalismo e História devem ser vistos como espaços dinâmicos e plurais. Da mesma forma o nome História remete a uma pluralidade de escolas (positivista, historiografia marxista, história dos anais, arqueologia, nova história), objetos e métodos (documental, hermenêutico e demais metodologias pós modernas). Não pretendemos defender um relativismo conceitual, mas dizer que, para além das definições fechadas impostas pelas teorias estruturalizantes ou modelos que emergem a partir de trabalhos fundadores, é possível visualizar uma certa complexidade nessas práticas.

21 Jornalismo: o diário da história 2°) Jornalismo e história se constroem também a partir da interação com outras práticas sócio-discursivas. Como explica Ruellan (1993, p. 94), o jornalismo é um profissão de limites incertos: fora os modos de regulação interna e o discurso profissionalista que busca a legitimação da categoria, o território dos jornalistas se constrói de forma imperfeita, a identidade social tende a parecer floue (sem nitidez). Esse flou coloca o jornalismo como um espaço mal delimitado e que se estabelece nas fronteiras de múltiplos domínios interdependentes e – parcialmente – fechados: pesquisa científica, filosofia, educação, controle social, exercício político, arte literária, divertimento, espetáculo... lugares de enriquecimento e crescimento, tirando proveito da honra de cada gênero sem vir a sofrer das limitações impostas pela especialização.

22 Jornalismo: o diário da história 2°) Jornalismo e história se constroem também a partir da interação com outras práticas sócio-discursivas. A história também não deixará de dialogar com outros espaços. Ainda no século XIX, ela encontrará na sociologia positivista os seus primeiros parâmetros de cientificidade. Assim, será muitas vezes impregnada por noções como progresso e desenvolvimento da história rumo ao fim. Da sociologia marxista ela encontrará, numa fase posterior, a vocação para as macro- análises estruturais. A interdisciplinaridade com as demais ciências sociais marcará o aparato teórico-metodólogico da História dos Anais. E a falência das modalidades de explicação/explicitação do real – documento, prova e testemunho, levará parte dos historiadores a abandonarem as pretensões macro-analíticas em busca de histórias, de teor interpretativo e hermenêutico. Assim, ela se (re)aproxima da literatura, do subjetivo, do tempo cotidiano, das técnicas das ciências sociais e do jornalismo.

23 Jornalismo e sociedade Utilizados de uma maneira, a Imprensa, o rádio e o cinema são imprescindíveis para a sobrevivência da democracia. Utilizados de modo diverso, encontram-se entre as armas mais poderosas do arsenal dos ditadores. No campo da comunicação com as massas, como em quase todos os demais campos da indústria humana, o progresso técnico lesou os Pequenos e favoreceu os Grandes. Há apenas cinqüenta anos, todos os países democráticos orgulhavam-se do grande número de pequenos jornais e diários locais. Milhares de editoriais expressavam milhares de opiniões independentes. Por toda parte imprimia-se praticamente o que quisesse. Hoje, a Imprensa é ainda legalmente livre; mas a maioria desses pequenos jornais desapareceu.

24 Jornalismo e sociedade O custo do papel, das máquinas das modernas tipografias e das agências de informação, é muito elevado para os Pequenos. No Leste totalitário há uma censura política, e os meios de comunicação com as massas são controlados pelo Estado. No Ocidente democrático há a censura econômica e os meios de comunicação com o povo são controlados pela Elite do Poder. A censura, através do aumento das despesas e a concentração do poder de comunicação nas mãos de alguns grandes organismos, é menos censurável do que o monopólio do Estado e a propaganda governamental; mas não é, com certeza, algo que um democrata jeffersoniano deva aprovar.

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33 Na vida pública e privada, sucede muitas vezes que não há apenas tempo para colher os fatos relevantes ou para avaliar a importância deles. Somos forcados a agir firmados em fatos insuficientes e dirigidos por uma luz bem menos refulgente do que a da lógica. Com a melhor das boas vontades do mundo, nem sempre podemos ser totalmente verdadeiros ou logicamente racionais. Tudo o que está ao nosso alcance é sermos tão verdadeiros e racionais quanto as circunstâncias o permitam, e reagirmos como pudermos à limitada verdade e aos raciocínios imperfeitos, oferecidos à nossa consideração por outros.

34 Se uma nação diz-se ignorante e livre espera o que nunca foi e nunca será... As pessoas nunca podem estar em segurança sem informação. Onde a Imprensa é livre, e cada homem capaz de ler, tudo está salvo. Thomas Jefferson


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