3.2 Segunda Idade da Música Julia B. Balieiro

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3.2 Segunda Idade da Música Julia B. Balieiro 7164382 Vanda Bellard Freire Música e Sociedade Uma perspectiva histórica e uma reflexão aplicada ao Ensino Superior de Música 3.2 Segunda Idade da Música Julia B. Balieiro 7164382

3. FUNÇÕES SOCIAIS DA MÚSICA UMA PERSPECTIVA HISTÓRICA Função de Expressão Emocional Menuhin em 1981 assinala a separação da fala e da música, a partir do advento da escrita, a primeira destinando-se, através da escrita, à transmissão de mensagens simples, e a música destinando-se à expressão de sentimentos complexos. A concepção aristotélica da Katharsis pressupõe a expressão emocional através da música, desencadeando “uma espécie de descompressão, de movimento fora de si (e-moção)” (CANDÉ, 1981, p. 75) A utilização terapêutica da música entre diversos povos também reportaria à incitação da expressão emocional, visando extravasá-la e a obter benefícios terapêuticos.

Função de Prazer Estético A referência de Candé (1981) a uma “música doce e refinada, com função mais doméstica que religiosa” permite pressupor a função do prazer estético, quando o deleite era buscado através da música, no âmbito doméstico. O deleite pode ser interpretado como prazer estético. Menuhin (1981) oferece-nos também um exemplo entre os gregos, quando afirma que “a música dominava a vida religiosa, estética, moral e científica”. Ao referir-se ao domínio da vida estética, o autor parece reportar-se à função aqui considerada. Candé (1981) refere-se à ambição de criar música e ao gosto de escutar, entre os gregos, e também ao fato de esse povo, na Antiguidade, ter atingido uma consciência musical, com a música revelando sua beleza a um público socialmente consciente. O prazer estético pode ser identificado nas referências de Candé em duas modalidades - o prazer de criar e o de escutar.

Função de Divertimento Tal função aparece exemplificada por Candé em 1981 quando menciona a utilização da música, entre os gregos, para distração do povo, segundo referências na Ilíada e na Odisséia. Wiora também se refere à música utilizada para distração na Roma antiga, assim como Candé (1981), que cita a música como elemento de luxo e recreação entre os romanos. A música, acompanhada de dança, como aparece fartamente representada na iconografia desse período, parece remeter também à função de divertimento. O uso doméstico citado por Candé em 1981, embora pareça remeter a função de prazer estético, pode também reportar à função de divertimento. Também o papel de “regalo auditivo”, entre os gregos, referido por Wiora em 1961, pode remeter às duas funções acima mencionadas.

Função de Comunicação Citando a possibilidade de a música abrir o caminho para o céu, Menuhin (1981) permite pressupor a função de comunicação, ou seja, a música estabelecendo o elo com as divindades. Da mesma forma, ao participar do culto dos mortos, é possível que a música, entre esses povos, servisse de elemento de comunicação entre aqueles e os vivos (WIORA, 1961, p.46). Damon, citado por Candé (1981), ao afirmar que a música imita ideias, ações e a ordem das coisas, podendo induzir o bem e o mal, também parece permitir a identificação da função de comunicação na música da antiga Grécia, na medida em que comunicaria tais conteúdos a partir de sua representação simbólica. A própria identificação que Candé faz da música na Segunda Idade como predominantemente coletiva pode conter uma referência implícita à função de comunicação, pois o envolvimento coletivo pressuporia a comunicação entre os elementos da comunidade.

Função de Representação Simbólica Um exemplo, por excelência, seria a concepção grega de imitação, segundo a qual a arte - e em especial a música - imita modelos. No caso da música, os modelos seriam ideias, ações e a ordem das coisas, imitados ou simbolizados através dela. A China antiga parece oferecer também exemplos pertinentes à função de representação simbólica. A correspondência que os antigos chineses estabeleciam entre as notas músicais e elementos da natureza, estações do ano, classes sociais, divindades, etc., permite atribuir à sua música a função de representação simbólica. Outros exemplos pertinentes à função de representação simbólica, remetem às relações numéricas subjacentes à música, interligando-a a fatos de ordem metafísica ou mística, às propriedades mágicas dos instrumentos, às relações entre música e mitologia. As representações de animais músicos também parecem remeter à função aqui considerada.

Função de Reação Física A sexta função, na categorização de Merriam, é a de reação física, e, estão a possessão, pelo menos em parte provocada pela música em muitos rituais, e o excitamento e a canalização do comportamento da multidão. A referência que Wiora (1961) faz ao registro, entre os sumerianos, de combate de boxe acompanhado de tambores e címbalos parece ilustrar esta função, a de reação física, uma vez que tais instrumentos, muito provavelmente, estariam incitando o ritmo da luta. Wiora (1961), refere-se à música de cunho religioso no Egito antigo, afirmando que, tal como o efeito “divinizante” do incenso, a música preenchia os lugares de um fluido sagrado nos cerimoniais religiosos. Ainda com relação à antiga música egípcia, refere-se a fórmulas encantatórias e de exorcismo, de música mágica e terapêutica, que, provavelmente, associavam influências psicológicas e físicas.

Função de Reação Física - Continuação A associação da música à dança, encontrável em todos os povos e em todas as idades da música - inclusive na Segunda Idade - é outro exemplo da função de reação física. Também Wiora, ao mencionar a euforia que a música proporciona, associando-a, entre as civilizações orientais, aos processos periódicos e ritmados do mundo exterior. As referências bíblicas à música incluem menção às funções militares e terapêuticas entre os antigos hebreus e também podem ser tomadas para ilustrar a função aqui analisada (CANDÉ, 1981, p.65). As concepções éticas da música, notadamente na China e na Grécia, na Segunda Idade da música, às quais encontram-se referências fartas em toda a bibliografia consultada, também se relacionam à função de reação física, ao pressuporem interferência no comportamento humano, pois a docilidade ou o ímpeto guerreiro não parecem ser, exclusivamente, atitudes psicológicas, sem correspondência no plano físico.

Função de Impor Conformidade a Normas Sociais Schurmann (1989), referindo-se aos primórdios da sociedade “gentílica”, afirma que passou-se a exigir à música uma função vinculada à natureza do Estado, ou seja, uma função específica, que contribuísse para a formação e consolidação da estrutura de classes. Entre os chineses, os princípios de estabilidade do Estado associados à música são citados por diversos autores, podendo ser também incluídos no âmbito desta função. Já aos gregos, mais especificamente aos pitagóricos, Candé (1981) também apresenta exemplo pertinente a esta função, quando afirma que, para eles, a música era essencial no caminho da sabedoria e da ciência, mas também era necessária ao povo e aos escravos, por educar-lhes a alma e o sentimento, garantindo a estabilidade e a prosperidade do Estado.

Função de Validação das Instituições Sociais e dos Rituais Religiosos As honras conferidas aos músicos, entre os assírios, e a utilização, entre eles, da música como símbolo de poder, de respeito e de vitória, referidos, anteriormente, parecem pertinentes à função de validação. Entre os hebreus, Candé (1981) faz referência, baseada na Bíblia, à promulgação da lei no Sinai ao som do “schophar”, assim como a danças pré-nupciais, e à marcha de sacerdotes (ao som também do “schophar”) na conquista de Jericó. Esses exemplos parecem cabíveis à função de validação. Os hinos gregos (a Apolo, ao Sol, etc.), dos quais alguns fragmentos escritos foram encontrados, e que são referidos por diversos autores, também podem ser interpretados como pertinentes à função de validação.

Função de Contribuição para a Continuidade e Estabilidade da Cultura Segundo Merriam, se a música permite expressão emocional, dá prazer estético, diverte, comunica, provoca reação física, impõe conformidade às normas sociais e valida instituições sociais e religiosas, é claro que ela contribui para a continuidade e estabilidade da cultura. Cabe, contudo, ressaltar alguns exemplos, como a prática de contar histórias, utilizando música, que, segundo Menuhin (1981), contribuiria para manter viva a memória de uma civilização. Os poemas cantados, relatando lendas e mitos, são citados por diversos autores, como o próprio Menuhin, ao abordarem o período aqui enfocado. Um outro exemplo interessante de ser relembrado é a concepção ética da música, que, entre outros aspectos, buscava a estabilidade política e social, o que pode bem ilustrar a função de contribuir para a continuidade e estabilidade da cultura.

Função de Contribuição para a Integração da Sociedade A música em louvor dos lideres ou heróis, a música associada à dança, aos rituais ou ao trabalho, ou uniformizando, coletivamente, o sentimento de fé, exemplos já citados, podem servir para ilustrar a presença da função de integração social. Também neste caso, a exemplificação já apresentada, pertinente à Segunda Idade da música, parece ser suficiente para ilustrar a ocorrência desta função, no período aqui considerado.

Conclusão proposta pela autora: Concluindo a revisão de funções sociais da música, segundo classificação de Merriam, no período que Wiora denomina Segunda Idade, vale registrar que as dez funções descritas por Merriam parecem encontrar nesse período farta exemplificação na literatura examinada, o que certamente é um ponto interessante para reflexões posteriores neste trabalho.