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Abordagens antropológica, linguística e sociológica curso de análise das interações verbais sessão 1 | 12 outubro 2012.

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1 Abordagens antropológica, linguística e sociológica curso de análise das interações verbais sessão 1 | 12 outubro 2012

2 Etnometodologia e Análise das interações verbais Michel G. J. Binet GIID-CLUNL FCSH-UNL,

3 Etnometodologia: Heranças e filiações Etnociências Erving Goffman ( ) Alfred Schütz ( ) Harold Garfinkel ( ) Harvey Sacks ( ) AC

4 Bibliografia Garfinkel, H., 1984 [1967]. Studies in Ethnomethodology, Cambridge: Polity Press. Garfinkel, H., Recherches en ethnométhodologie, Paris: PUF. Garfinkel, H. & Sacks, H., Les structures formelles des actions pratiques (1967). In Recherches en ethnométhodologie. Paris: PUF, pp

5 Bibliografia Alfred Schütz: o antecessor Schütz, A., Collected Papers (Vol. 1), The Hague: Martinus Nijhoff. Schütz, A., Collected Papers (Vol. 2), The Hague: Martinus Nijhoff. Schütz, A., Éléments de sociologie phénoménologique, Paris: LHarmattan. Schütz, A. & Luckmann, T., The Structures of the Life-World, London: Heinemann.

6 Bibliografia Erving Goffman: co-autoria / intertextualidade / Polifonia Goffman, E., Communication Conduct in an Island Community. Unpublished Ph.D. dissertation. Chicago: University of Chicago. Goffman, E., 1972 [1961]. Encounters: Two Studies in the Sociology of Interaction 2nd ed., Harmondsworth: Penguin Books. Goffman, E., 1999a. A situação negligenciada (1964). In Y. Winkin, ed. Os momentos e os seus homens. Lisboa: Relógio dÁgua, pp Goffman, E., Frame Analysis - An Essay on the Organization of Experience, Boston, Massachusetts: Northeastern University Press.

7 Bibliografia Harvey Sacks: aluno e continuador Sacks, H., Lectures on conversation (Vol. 1 & Vol. 2), Oxford: Blackwell. [ ] Sacks, H., Schegloff, E. & Jefferson, G., A Simplest Sistematics for the Organization of Turn-Taking for Conversation. Language, 50(4), pp Sacks, H., Schegloff, E. & Jefferson, G., The Preference for Self-Correction in the Organization of Repair in Conversation. Language, 53(2), pp Schegloff, E., Sequence Organization in Interaction - A Primer In Conversation Analysis I, Cambridge: Cambridge University Press.

8 Etnometodo logia A Ordem social: Níveis de organização e escalas de análise (Macro v/s Micro) Interaccionismo metodológico (Adriano Duarte Rodrigues) A situação negligenciada A Ordem da interação Etnométodos: os interactantes como metodólogos práticos Compreensão e Perspectiva émica: ciência objectiva da subjectividade dos actores (Max Weber) Tipificações: sociólogos profissionais & sociólogos profanos «Os analistas da conversação são os próprios falantes» (Adriano Duarte Rodrigues) Etnometodologia conversacional: ações concertadas e metodicamente organizadas Um saber de 2º Grau

9 Etnometodo logia Pano de fundo dos saberes partilhados Estruturadas e estruturantes mediante a sua incorporação cognitiva e disposicional (Bourdieu, 2001a: 204), padronizadas e padronizantes («standardized and standardizing»; Garfinkel, 1984: 36; 2007: 99), as estruturas objectivas são estruturas objectivadas em contexto situacional no e pelo discurso e na e pela acção dos agentes. Schütz: Atitude natural(izante) Saberes partilhados de um modo tácito formam o pano de fundo das interacções quotidianas, partilha postulada como dada à partida, mas interactivamente revista sempre que necessário. Membership Categorization Analysis (Sacks, 1995) A troca conversacional se efectua dentro de mundos cognitivos por ela convocados, partilhados em maior ou menor grau pelos falantes. Representações, categorizações e saberes configuram mundos ordenados mentalmente que funcionam na conversação como quadros ou contextos interpretativos.

10 Etnometodo logia Harold Garfinkel « empiriciza » a fenomenologia, retraduzindo-a em instruções de pesquisa permitindo a localização de situações e de comportamentos que possibilitam a observação dos processos de microconstrução da ordem social. A cunhagem de acções reconhecíveis é um processo activo de produção endógena da ordem da interacção. Garfinkel desloca o foco da análise, convertendo um problema de método do observador (como reconhecer o valor accional dos comportamentos observados ?) num problema de método (ou etnométodo) de co-produção da interacção, problema atendido pelos seus participantes (como tornar reconhecível o valor accional do meu comportamento ?), por meio de competências interaccionais e comunicativas a investigar. John Gumperz: Pistas de contextualização (contextualization cues)

11 Etnometodo logia Esta deslocação do foco da análise operada por Garfinkel tem o mérito de converter uma abordagem inicialmente cognitivista numa abordagem comportamentalista centrada na acção situada, proporcionando um programa de investigação empírica que converte a fenomenologia numa ciência observacional do comportamento humano em contexto situacional. Empenhado em estranhar frente a um «mundo teimosamente familiar» (2007: 101) ao ponto de arriscar passar despercebido, Garfinkel também explorou com a ajuda dos seus alunos técnicas de observação reactiva em contextos naturais, breaching experiments (Garfinkel, 2007: 120–6) consistindo em violações deliberadas de normas tácitas inferidas mais do que directamente observadas, para quebrar as expectativas que formam o pano de fundo das interacções, gerando espanto, vergonha, desconforto, irritação, confusão, perturbando situações e desorganizando interacções, no intuito de provocar a explicitação endógena das expectativas, normas e rotinas de fundo, pela via de protestos e de pedidos de explicação que as tornam então visíveis, operando a sua transferência do campo inferencial para o campo observacional.

12 O saber de 1º grau não se articula no discurso sobre a prática, mas, sim, dentro da própria prática no curso da sua realização A ação situada e a sua organização metódica são o nicho ecológico da fala

13 Etnometodo logia Reflexividade: os membros ordenam a sua interacção se observando, descrevendo, interpretando e tipificando mutua e continuamente. Garfinkel escreve: «(…) os inquéritos dos membros são elementos constitutivos das situações que analisam» (2007: 61). Os etnométodos, objecto de estudo da etnometodologia, são práticas observacionais, descritivas e interpretativas «omnipresentes», realizadas de dentro de cada uma das situações de interacção que contribuem em constituir, pelos membros que nelas participam reflexivamente. Indexicalidade: a âncora situacional da ação concertada Os valores referenciais dos pronomes e dos nomes bem como as orientações no espaço e no tempo operadas na e pela linguagem usada in situ, são fixados e organizados em redor de uma âncora situacional, axis mundi de toda a actividade enunciativa. O comportamento se indexicaliza ancorando-se numa situação tornada « familiar » por um processo já mencionado de tipificação-padronização que remete para dimensões da organização social. A analisabilidade da acção como acção ocorrendo num micro-contexto em construção que incorpora na sua definição interactiva uma representação estruturada e estruturante da ordem social.

14 Etnometodo logia Incompletude das regras sociais e práticas ad hoc : ceteris paribus, factum valet e et cetera Incompletas e genéricas, as regras introduzidas localmente pelas pré-definições socio-institucionais das situações precisam de serem completadas por um trabalho interactivo de co-ordenamento da interacção, atento às contingências e singularidades da mesma. Esta tese potencia o retorno do actor na agenda da investigação sociológica. Um actor situado, a quem compete agir em contextos inacabados, incompletamente definidos e regulamentados. «A ordem social (...) não é uma "ordem encontrada", mas sim "realizada" [practical accomplishment]»(Wolf, 1979: 147).

15 Etnometodo logia Accountability As acções são activamente cunhadas como observáveis, descritíveis, relatáveis, analisáveis, intencionais, consequentes, justificáveis, numa palavra: racionais. Esta racionalidade, reivindicada de dentro (e não atribuída de fora por um observador exterior) e incorporada numa prática ciosa da sua descritibilidade e justificabilidade, projecta e performa uma ordem social ordenando a prática (Garfinkel, 2007:95). Cada interactante, guardião zeloso da racionalidade das suas acções na interacção com os outros, antecipa qualquer eventual incompreensão fornecendo informações e justificações prévias à realização de um acto ou à produção de uma fala susceptível de não ser compreendido; ou, em caso de mal interpretação não antecipada, investe em dar conta e responder a posteriori pela sua conduta ou pelas suas palavras. A trama da interacção é composta passo a passo por acções auto-justificadas ou auto-justificáveis.

16 Etnometodo logia a «temporalidade interna» (organização sequencial) dos cursos de acção como dimensão-chave da ordem interaccional: decomposição analítica, sob a forma de uma estrutura multi-operacional (Garfinkel, 2007: 91), caminho investigativo continuado e aprofundado por Harvey Sacks, que, sob a designação de Análise da Conversação (Sacks, 1995), se tornou uma corrente de investigação de âmbito internacional.

17 Etnometodo logia A etnometodologia, i.e. o estudo dos métodos práticos de organização do curso temporal das acções concertadas à escala situacional, encontra nas interacções conversacionais um terreno privilegiado de observação e análise da produção social e cultural de eventos e de identidades reconhecidos porque tornados localmente reconhecíveis. As identidades são «realizações práticas e contingentes» (Garfinkel, 2007: 286), que, longe de operar num vazio social, convocam, ratificam e incoproram «expectativas socialemente padronizadas» (Garfinkel, Op. Cit.: 289), no decurso de um «trabalho de organização invisível [aos próprios membros da sociedade]» (Op. Cit.: 288), por uma parte importante de teor conversacional, passível de descrição detalhada mediante o seu registo por observação directa ou gravação, vasto programa investigativo que define a Análise da Conversação.

18 «Posso…..?» Os próprios interactantes subordinam a realização de certos actos a um «pedido de licença» prévio: Trecho 1 – 5.2.(02 ) 469Técnica1posso pôr aqui dentro? 470Utentepode pode claro Trecho 2 – 5.2.(02) 1955Técnica1posso lhe fazer uma pergunta? 1956Utentepode 1957Técnica1quem é que faz a sua higiene pessoal?

19 A prova administrada pelos próprios falantes Trecho 3 – 5.2.(02) 249 Técnica1não gosto nada de abrir as 250coisas

20 Bibliografia Amiel, P., Ethnométhodologie appliquée. Éléments de sociologie praxéologique, Paris: Presses du LEMA (Laboratoire dEthnométhodologie Appliquée - Université Paris 8). Coulon, A., Lethnométhodologie, Paris: PUF. Fornel (de), M. & Léon, J., Lanalyse de conversation: de lethnométhodologie à la linguistique interactionnelle. Histoire Épistémologie Langage, 22(I), pp Heritage, J., Ethnomethodology. In A. Giddens & J. Turner, eds. Social Theory Today. Cambridge: Polity Press, pp Heritage, J., Harold Garfinkel. In R. Stones, ed. Key Sociological Thinkers. Basingstoke: Palgrave Macmillan, pp Wolf, M., Sociologias de la vida cotidiana 2nd ed., Madrid: Cátedra.

21 Abordagens antropológica, linguística e sociológica curso de análise das interações verbais

22 Sessão 1 12 outubro Introdução geral à análise da conversação A abordagem etnometodológica Sessão 2 19 outubro Modalidades espontâneas, institucionais e mediatizadas das interacções verbais Problemas inerentes à constituição de corpora Fundamentos e convenções de transcrição Sessão 3 26 outubro A ordem da interacção e a lógica da sociabilidade Sessão 4 2 novembro A organização local das interacções verbais: sistema de alternância de vez Sessão 5 9 novembro A organização local das interacções verbais: os pares adjacentes Sessão 6 16 novembro Organização preferencial e relevância condicional Sessão 7 23 novembro Condicionamentos, regras e normas das interacções verbais Sessão 8 30 novembro Programação e orientação dos trabalhos dos participantes Sessão 9 7 dezembro Sessão dezembro A organização global das interacções verbais: a ordem sequencial. Sessão dezembro O contributo da análise das interacções verbais, em geral, e da conversação, em particular, para as ciências sociais e humanas. Sessões-satélite: trabalho prático com ferramentas de registo e anotação de dados 2 horas / semana


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