Estado e Desenvolvimento no Brasil

Slides:



Advertisements
Apresentações semelhantes
O PROFISSIONAL DE GESTÃO DE PESSOAS
Advertisements

Ciclo de vida e organização do projeto
BUROCRACIA AMBIGÜIDADE DO TERMO:
PEDAGOGIA 3ºPNA PROFª GIANE MOTA
Sistemas Nacionais de Inovação: a experiência internacional e alguns desafios para o Brasil Referência: Linsu Kim & Richard Nelson (2005) (Introdução)
INSTITUIÇÃO PARA O DESENVOLVIMENTO REGIONAL E LOCAL
Cesf 3º Período Organização, Sistema e Métodos – OSM Julio Morais
> Lia Hasenclever (IE/UFRJ) Grupo Inovação - Instituto de Economia da UFRJ A Crise Econômica Global e a Indústria Brasileira.
MUDANÇA NA ORGANIZAÇÃO
Fundamentos de Economia
Estados Curso Desenvolvimento Econômico Comparado IE-UFRJ
ESTRATÉGIAS COMPETITIVAS E GESTÃO DE INFORMAÇÕES EM SISTEMAS DE MPMES
Conhecimento e Inovação Nas Empresas Renata Lèbre La Rovere.
Conhecimento e Inovação nas Empresas Renata Lèbre La Rovere
Perspectivas do Setor Elétrico Brasileiro
Rio de Janeiro, 6 de julho de 2011
Lei Geral das Micro e Pequenas Empresas
Planejamento Estratégico Empresarial Prof. Flávio H. S. Foguel
Cadeia de Valor Fatores Críticos de Sucesso
Economia Brasileira Universidade Estadual Vale do Acaraú -UVA
FACULDADE PITÁGORAS Legislação Aplicada a informática
AVALIAÇÃO DA GESTÃO DE RECURSOS HUMANOS NO GOVERNO RELATÓRIO DA OCDE
Planejamento e controle de Projetos
Engenharia de Software
Marcelo Viana Estevão de Moraes Secretário de Gestão Maio de 2008
UM MODELO ESTRATÉGICO DE REFORMA DA GESTÃO PÚBLICA NO BRASIL: AGENDA, COALIZÃO E IDÉIAS MOBILIZADORAS Fernando Luiz Abrucio.
O PLANO DE METAS Expandir e diversificar a indústria
Liderança em Pequenas e Médias Empresas
BOM GOVERNO EM PAISES EMERGENTES O Foco no que não deu certo levou a recomendações dos orgãos financiadores com o intuito de proteger seus investimentos.
ADMINISTRADORES E O AMBIENTE EXTERNO.
Capítulo 22 – Os países emergentes
PLANO DE DESENVOLVIMENTO DOS INTEGRANTES DA CARREIRA
Gestão por Competências
GESTÃO DE NEGÓCIOS GASTRONÔMICOS Haroldo Andrade
Administração de Recursos Humanos II
Transformação Organizacional Desafios e Premissas Antonio Flavio Testa.
Planejamento Estratégico
Prof. jose PLANEJAMENTO.
Escola de Formação Política Miguel Arraes
Da queda da monarquia à formação da URSS.
A Ordem Econômica na Constituição de 1988
COMPETÊNCIAS E HABILIDADES
Competência 5: Utilizar os conhecimentos históricos para compreender e valorizar os fundamentos da cidadania e democracia, favorecendo uma atuação consciente.
Fluxos Migratórios.
Gestão e Organização Horizontal
1 w w w. c a p l a b. o r g. p e Rio de Janeiro, 20 e 21 de maio de 2008 Painel 3: Desenvolvimento e promoção de políticas, estratégias e serviços integrados.
TÓPICOS ESPECIAIS Gestão de Pessoas
1 Encontro Nacional das Escolas de Governo Sejam Bem-vindos ao Brasília,
O PODER NAS ORGANIZAÇÕES
Estruturas Organizacionais
Teoria Geral da Administração
IV Seminário Brasileiro do Transporte Rodoviário de Cargas O “Apagão” Logístico Impedirá a Retomada do Crescimento? José de Freitas Mascarenhas Presidente.
Capítulo 1 A administração hoje.
Introdução à Administração
Curso: Engenharia Civil – 5º ano
BCH - BPP - GOVERNO, BUROCRACIA E ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA.
Elaboração e Análise de Projetos
Organização, Sistemas e Métodos Prof. Luciane
Créditos: Profª Sônia Portes.  O que significa?
Mentoring Coaching.
Estágios do desenvolvimento econômico Para colocar em perspectiva o conceito de sociedade pós-industrial, é indispensável comparar suas características.
Profº Wagner Tadeu TCA Aula 06
Coordenação executiva - Problemas de articulação versus
Da queda da monarquia à formação da URSS.
BCH - BPP - GOVERNO, BUROCRACIA E ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA.
COMO GERENCIAR E MOTIVAR VENDEDORES O Que os Gerentes Precisam Fazer Para Manter os Vendedores Motivados ? Quais São As Atribuições Básicas de Um Gestor.
Gestão de Pessoas Administrar as rotinas de benefício e pagamento de pessoal, seguindo a legislação vigente. Captar e manter os melhores talentos.
POR UMA POLÍTICA DE DESBUROCRATIZAÇÃO Comissão de Desenvolvimento Econômico, Indústria e Comércio Câmara dos Deputados 26/03/2014 Renato da Fonseca Gerente.
1 Ciência e Tecnologia para a sociedade: um casamento difícil Simon Schwartzman Seminário Rio além do petróleo: conhecimento e desenvolvimento 12 de junho.
A REFORMA GERENCIAL DO ESTADO BRASILEIRO Faculdade de Ciências e Letras Campus de Araraquara Prof. Msc. Alexandre Gazeta.
Transcrição da apresentação:

Estado e Desenvolvimento no Brasil Curso Desenvolvimento Econômico Comparado Instituto de Economia – UFRJ Prof. Paulo Bastos Tigre

Estados Intermediários - Brasil As diferenças entre o aparato descrito em vários estudos e o “Estado desenvolvimentista” típico ideal começa com a simples questão de como as pessoas ingressam no serviço público. Barbara Geddes (1986) descreve as dificuldades que o Brasil vem enfrentando para instituir os procedimentos de recrutamento meritório. Poderes extraordinários para nomeações de cunho político complementam a falta de recrutamento meritório. Ben Schneider afirma que, enquanto os primeiros-ministros japoneses indicam apenas dezenas de dirigentes e os presidentes dos EUA indicam centenas, os presidentes brasileiros indicam milhares (de 15 mil a 100 mil pela estimativa de Schneider). Não é de se surpreender que o Estado brasileiro seja conhecido como um grande cabide de empregos, preenchidos com base em relações pessoais em vez de competência e, conseqüentemente, inapto em seus esforços desenvolvimentistas. Paulo Tigre, UFRJ

Loteamento de cargos no DF Paulo Tigre - IE/UFRJ

Incapaz de transformar a burocracia como um todo, os líderes políticos tentam criar “bolsões de eficiência” dentro da burocracia, modernizando assim o aparato do Estado por adição e não por transformação. O BNDES é um bom exemplo de bolsão de eficiência. Ao contrário da maioria da burocracia brasileira, o BNDES oferecia “uma linha de carreira clara, responsabilidades desenvolvimentistas e uma ética de serviço público” (Schneider, 1987a, p. 633). Desde o início de sua vida institucional, o BNDES começou um sistema de concursos públicos para o recrutamento de pessoal. Surgiram normas contra a revogação arbitrária dos julgamentos da opinião dada por técnicos do banco pelos escalões mais altos. Uma maioria consistente de diretores era recrutada internamente, e um claro esprit de corps se desenvolveu dentro do banco (Willis, 1986, p. 96-126). Plano de Metas de Kubitschek que estavam tanto sob a jurisdição de Grupos Executivos ou Grupos de Trabalho e sob as asas financeiras do BNDES preencheram 102% de seus objetivos, enquanto os projetos que eram de responsabilidade da burocracia tradicional conseguiram apenas 32%. Paulo Tigre, UFRJ

A estratégia dos bolsões de eficiência tem uma série de desvantagens A estratégia dos bolsões de eficiência tem uma série de desvantagens. Como estão cercados por um mar de padrões clientelistas tradicionais, eles são dependentes da proteção pessoal dos presidentes individuais. A reforma por adição torna a seletividade estratégica mais difícil, geralmente resultando em uma expansão descoordenada. Assumindo o poder em 1964 com a esperança de reduzir o funcionalismo em 200 mil cargos, os militares brasileiros acabaram criando “centenas de agências e empreendimentos novos, freqüentemente redundantes, e observou-se o crescimento da burocracia federal de 700 mil para 1,6 milhão. Tentar modernizar por adição de pequenos pedaços também sabota a coerência organizacional do aparato do Estado como um todo. Paulo Tigre, UFRJ

À medida que unidades são adicionadas, emerge uma estrutura cada vez mais barroca. O aparato resultante tem sido caracterizado como “segmentado” (Barzelay, 1986), “dividido” (Abranches, 1978) ou “fragmentado” (Schneider, 1987a). É uma estrutura que torna difíceis os programas de coordenação e encoraja as soluções personalísticas. Como Schneider afirma, “o personalismo (...) tornou-se agora indispensável em virtude da fragmentação burocrática” (ibid., p. 27). Paulo Tigre, UFRJ

Os problemas de organização interna e das relações Estado-sociedade são mutuamente agravados. A falta de uma estrutura burocrática estável torna mais difícil estabelecer laços regulares com o setor privado do tipo “orientação administrativa” e empurra a interação pública-privada para canais individuais. O persistente poder político da oligarquia tradicional não apenas distorce as tentativas de transformação, mas também sabota as tentativas de reforma interna. Os problemas internos e aqueles entre o Estado e a sociedade provaram ser surpreendentemente invariáveis ao longo das mudanças de regimes políticos. Paulo Tigre, UFRJ

Desconstrução do Estado brasileiro Os cortes indiscriminados de Collor atingiram a todos, afetando as melhores e as piores agências da mesma forma. Conseqüentemente, Collor alienou os burocratas produtivos – muitos dos quais responsáveis pela implementação de outros programas de modernização – sem melhorar visivelmente a eficiência. No final de 1990, embora o governo tenha eliminado menos de um terço dos 360 mil empregos que prometeu cortar, conseguiu baixar o moral, a motivação e a produtividade em toda a área executiva. (Schneider, 1991, p. 329) Paulo Tigre, UFRJ

Estado Brasileiro, segundo Evans Apesar de seus muitos problemas, o Estado brasileiro conseguiu historicamente representar um papel preponderante em promover tanto o crescimento quanto a industrialização. Desde suas agressivas provisões para financiar estradas de ferro e outras infra-estruturas no final do século XIX até seu envolvimento direto em empreendimentos de alta tecnologia como a fabricação de aviões no período pós-guerra, o Estado brasileiro teve um papel central no que tem sido um recorde importante de industrialização. Paulo Tigre, UFRJ

Como foi possível o desenvolvimento? A experiência do Brasil confirma o fato de que é necessário apenas uma vaga aproximação do tipo ideal weberiano para conferir vantagem. Mesmo os Estados desenvolvimentistas são apenas aproximações do tipo ideal, mas os Estados intermediários mostram que o modelo burocrático básico pode ser ainda mais alterado e mesmo assim funcionar. Apesar das falhas e distorções, a burocracia no sentido weberiano pode ainda ser encontrada num amplo espectro de agências do Estado. Enquanto os bolsões de eficiência falharam como sementes para uma renovação mais geral do aparato do Estado, eles ainda forneceram a base para um número de projetos bem-sucedidos de transformação setorial. Em alguns setores, durante certos períodos, alguma coisa próxima à autonomia inserida foi atingida. Cada um desses casos tem de ser compreendido olhando para as características do setor e para o papel específico que o Estado tentou representar dentro dele. Paulo Tigre - IE/UFRJ

Brasil: um caso intermediário entre Estados predadores e desenvolvimentistas. Dificuldades para estabelecer procedimentos meritocráticos de recrutamento do tipo japonês ou coreano. Designação política de cargos-chave. Japão: primeiro ministro nomeia dezenas de pessoas. Estados Unidos: presidentes nomeiam centenas. Brasil: dezenas de milhares (Governo Lula 20 mil cargos de direção preenchidos por critérios políticos. Cabides de emprego para assegurar apoio político. Paulo Tigre - IE/UFRJ

Bolsões de eficiência Por não serem capazes de transformar a burocracia como um todo, governantes criam novas instituições mais eficientes. BNDES: carreira profissional clara, admissão por concurso, normas contra a anulação arbitrária das opiniões dos técnicos por parte dos superiores hierárquicos, recrutamento interno para cargos de direção, espírito de equipe. Bolsas de eficiência estão rodeadas por normas clientelistas tradicionais. Fragmentação. Bolsões precisam de proteção superior. Paulo Tigre - IE/UFRJ

Carreira no setor público Carreiras no setor público são muito afetadas por mudanças na liderança política e estabelecimento de novos organismos públicos. Camadas superiores (DAS) ocupadas por pessoal não pertencente ao quadro de pessoal. A cada quatro anos tudo muda. Elites atrasadas nomeiam a maioria. Personalismo. Paulo Tigre - IE/UFRJ

A palavra burocracia adquiriu no Brasil um sentido pejorativo e labiríntico Nas últimas décadas, no Brasil e no mundo, o termo burocracia adquiriu fortes conotações negativas. É popularmente usado para indicar a proliferação de normas e regulamentos que tornam ineficientes as organizações administrativas públicas, bem como corporações e empresas privadas. Mas, este conceito, em diferentes períodos históricos, já possuiu outros significados Paulo Tigre, UFRJ

Participação do Setor Público na População Total Empregada: Uma Comparação entre o Brasil e Países da OCDE   Paulo Tigre - IE/UFRJ

Paulo Tigre - IE/UFRJ

Empresas estatais Brasil teve algum êxito na criação de empresas eficientes: Petrobrás, Vale, Usiminas, CSN, Embraer, Furnas, etc. Êxito foram em áreas onde os organismos de Estado diretamente envolvidos tinham uma especial coerência e capacitação. Vínculos com o setor privado. Estado parteiro: petroquímica, industria automobilística. Sucesso não pode ser generalizado. Paulo Tigre - IE/UFRJ

Parceria Assim como a estrutura interna do aparato do Estado brasileiro limita sua capacidade de replicar o desempenho dos Estados desenvolvimentistas do Leste Asiático, o caráter de sua “parceria” torna mais difícil construir um projeto de transformação industrial conjunto com as elites industriais. Como no caso destes Estados asiáticos, a parceria deve ser compreendida em termos históricos. Enquanto o Estado brasileiro tem sido uma ininterrupta e poderosa presença no desenvolvimento social e econômico desde os tempos coloniais, é importante ter em mente o que Fernando Uricoechea (1980), José Murilo de Carvalho (1974) e outros enfatizaram: “A eficiência do governo era dependente da cooperação das oligarquias” (Uricoechea, 1980, p. 52). As elites rurais reacionárias jamais foram dramaticamente varridas de cena como nos casos do Leste Asiático. Ao contrário, a simbiose tradicional que conectava os oligarcas tradicionais ao Estado tem sido reforçada por uma perversa “modernização”. Paulo Tigre, UFRJ

Retomada do papel do Estado Concursos públicos: Política industrial: Programas de distribuição de renda Investimentos públicos em infra-estrutura

Políticas de distribuição de renda